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Diálogo de Ano Novo

Diálogo de Ano Novo
Nara Coelho



- Hei! amigo! Ore por mim. A vida está difícil. Falta-me o pão na mesa. Sobram-me dores e dívidas. Foge-me a esperança. Fenecem-me as energias. Ore por mim!


- De oração em oração, confundem-se as beatas, atribulam-se os vendilhões dos templos. Dos múltiplos e diversos templos que se espraiam sobre esta terra de Deus, assoberbada por tantas crendices. Não creio saber orar... Faltam-me fé e palavras, incenso e conhecimento com que invocar as benesses do Mais Alto!


- Ah! Irmão! Não é disso que falo eu... Olhe para o céu e perceba as luzes que bruxuleiam, fazendo-se de mil tamanhos ao encontro dos que têm olhos de ver. Repare em torno de si as grandes disparidades: um chora, outro é covarde para enfrentar seus martírios. Mas há também quem granjeie alegria em toda parte, carinho e benevolência até do céu, veja só! Hoje eu vejo, mas sou cansado, sou triste e atormentado por tudo que provoquei: foram enxurradas de lágrimas de mães, de viúvas e de filhos; de velhos e alucinados que já com carquilha arranquei. Você nem imagina, amigo, o que fiz por sobre os ombros dos que me amavam de fato, dos que confiavam em mim: traí, aticei calúnias, rompi e corrompi. Não foram poucas as dores que plantei perto de mim. Ai de você, se estivesse outrora ao meu alcance. Não haveria sinal de bondade que impedisse meu ataque. Sabia-me pleno de ginga, de corpo e inteligência; e então fazia a festa. Não havia a quem poupasse. Recordo-me da elegância com que envolvia minhas presas. Era uma, era outra, eram todas, todas mesmo. De vez em quando pensava: será que não vou me dar mal? E uma voz me sibilava no coração e na mente, contando com meu aceite: deixe de ser frouxo parceiro, se não quer, eu mando outro para ser dono do quintal! E lá ia eu novamente, certo do que me esperava: alegrias renovadas, dinheiro no bolso, viagens, e na “bacia das almas” ficava... atrelado aos meus pares.


- Mas, se você sabe tanto... Por que me pede para orar? Quem sabe tanto, trata logo de agir. Ore você, portanto! Diga o que quer para Deus. Não entendo o que fala... Queria fazer o que fez, servir a quem serviu, por que chora, então?


- Ah! Meu amigo, meu irmão... Peço-lhe que ore, para você orar! Para que veja o que outrora não vi em vários passados, em tempos interligados por dezenas de mortes, enfim. Não sabia que o meu tempo era para me unir ao porvir, de glórias ou de tormentos feitos somente por mim. Não orava, não cuidava dos meus projetos de edificação da paz e da felicidade. Achava mesmo que o tempo cuidaria a contento dos meus planos; por milagre ou fantasia encontraria a salvação e com ela a alegria. E me furtei à transformação. Peço-lhe que ore por mim como quem lhe atira uma tábua de salvação. Você está como estive. De pé sobre areia movediça. Seus braços se abrem ao encontro do abismo. Quem disse que você está feliz com a maldade que pratica contra tantos? Maldade escondida sob aparência elegante, sob o poder temporal, sob a capa da fortuna. Você é o que fui. Faz o que fiz. Mas as dores conseqüentes dos seus atos já lhe começam a zunir sobre a mente itinerante, a vergastar-lhe o corpo antes tão ágil. E você começa a hesitar. Eu sei, eu vejo, eu sinto quando vagueia o olhar indeciso, buscando apoio para o que faz. Mas não se lembra de orar! Por isto peço-lhe: Ore por mim, para que ore por você! Um novo tempo começa para todos. Ano Novo, medida relativa do tempo que se abre para a eternidade a nos dizer do seu poder para a reconstrução do futuro. Um futuro mais feliz para mim, para você, para tantos.


- Sinceramente, não sei do que você fala!


- Não? Então, por que você está chorando?


- Não sei; talvez porque você esteja me obrigando a pensar... a me voltar para mim mesmo e a rever minha caminhada, coberta de remorsos, de arrependimentos.


- Ah! Mas o amor cobre a multidão dos pecados! O amor que se faz presente no sorriso ao triste, no abraço ao só, na mão ao caído, na água que dessedenta, na migalha que alimenta, no agasalho que aquece... na prece ao necessitado, como eu o sou. Necessitado do seu perdão. Preciso começar este tempo novo, munido do seu perdão, da sua prece.


- Não consigo.Você me intimida...


- Intimido-o, meu amigo e meu irmão, porque você me reconhece. A mim, que por tantas reencarnações o estimulei ao vício e a desajustes de tantos matizes... A mim que fui seu pai e seu carrasco. Assim, se você não pode orar por mim, ore comigo. Ainda que chorando, digamos por nós dois e pela humanidade inteira, por um tempo novo que se anuncia, abrindo-nos a chance de um recomeço:


- Pai Nosso que estais nos céus!


- Pai Nosso que estais nos céus!