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Degraus do Cotidiano

Autor: 
Nara de Campos Coelho

Um garotinho de cinco anos assistia a seu pai esbravejar contra a atitude de um vizinho que, displicentemente, invadira sua garagem no prédio em que residem. O pai vira-se obrigado a estacionar o carro na rua, sujeitando-se aos perigos dos nossos dias. “Onde estava o porteiro que não viu a invasão da garagem?! Em que mundo nós estamos que não se respeita os direitos das pessoas?!” Mais cansado pelo dia estafante do que bravo, o pai interfonou para o porteiro, tomou providências, sempre falando alto, dirigindo-se à esposa, que procurava acalmar a situação. Quando tudo foi contornado e o silêncio se fez, o garotinho diagnosticou: “É pai, você está precisando de uma boa escola de evangelização!” A mãe custou a conter a gargalhada. O pai saiu de fininho. Seu filho estava certo!

A serenidade do garotinho ao analisar a situação e “enquadrar” seu pai, deixa-nos perceber o quanto ele já está ciente do que a escola de evangelização representa para nosso equilíbrio diário, no enfrentamento das situações. E, mais ainda, ele já tem a segura certeza de que todos estamos na Terra para subir degraus na escalada evolutiva.

Ele já sabe da necessidade do aprendizado e, com a honestidade típica das crianças, foi direto ao essencial. Ah! Se fôssemos como as crianças, já teríamos construído o Reino dos Céus...

Há mais de 150 anos, o Espiritismo vem falando às nossas almas sobre a responsabilidade que temos na edificação do próprio destino. Em todo este tempo, ele vem revolucionando conceitos antigos que dizem partir apenas de Deus os milagres indispensáveis para uma vida feliz. “Deus me ajude! Deus é bom! Deus vai me dar esta graça”. E continuávamos a desrespeitar-lhe as leis de amor.

Há mais de 150 anos, esta Doutrina de Razão iluminada pela Fé e Fé iluminada pela Razão vem investindo na educação integral de cada espírito, permitindo-nos entender, paulatinamente, de reencarnação em reencarnação, que “a felicidade não é deste mundo”, porque não está nas coisas do mundo; porque está, sim, na aquisição dos valores morais, das virtudes que nos fazem acumular “os tesouros que a traça não corrói, a ferrugem não consome e os ladrões não roubam”.

Há 150 anos, começamos a entender Jesus e seus ensinos, percebendo-lhe a proposta profunda e simples de usarmos o nosso cotidiano para o aprimoramento de nós mesmos, o que, naturalmente, vai se refletindo na nossa vida de relação, transformando-a. Uma palavra grosseira que não pronunciamos, um grito que deixamos de dar, um pensamento de inveja, de ciúme ou de descaso que não alimentamos, a coragem de optarmos pela postura honesta, ainda que sozinhos, a responsabilidade de estendermos as mãos para amparar os que sofrem, de não esperarmos o crime destruir as almas sequiosas de amor para oferta-lo... Tantas atitudes no bem podemos ter, tantas barreiras de dor e de privações podemos superar apenas com mudanças de comportamento no nosso dia-a-dia! Neste cotidiano comum de pessoas comuns que trabalham, choram e riem, mas constroem: ou dor ou felicidade.

Da atitude do garotinho narrada no início desta reflexão, materializa-se a esperança de um mundo novo, mais feliz, porque mais amadurecido nos ensinamentos da sabedoria de Jesus à luz do Espiritismo. Eis o espírito que retoma a caminhada evolutiva, já consciente de suas responsabilidades na construção de uma vida harmonizada às leis de Deus. É a trajetória de aprendizado que se desvenda numa lição simples e concreta a realçar as benesses da escola de evangelização, lembrando-nos Kardec ao dizer: “O espiritismo não é uma questão de forma, é uma questão de fundo”. E ainda, é questão de bom senso.

Ante um mundo que se debate em guerras, tristeza, violência, corrupção... almas anônimas ressurgem do plano espiritual renovadas pelas experiências superiores, acalmando-nos as expectativas, estimulando-nos para a continuação do trabalho de amor, fonte de luz e paz que o Espiritismo já nos concita.

Não foi por acaso que lágrimas de pura emoção fizeram brilhar os olhos de todos os presentes quando o mesmo garotinho, personagem do nosso texto, ao ser advertido pela mãe para que descartasse a violência do vídeo-game, tranqüilizou-a, dizendo: “Não se preocupe comigo mãe, eu não ‘pego’ violência; eu já sou do Bem!”