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“Caro presidente Obama: Omran pode vir morar com a gente?”

14 de dezembro de 2016



“Caro presidente Obama: Omran pode vir morar com a gente?”



Presidente compartilha nas redes sociais a carta que recebeu de um menino sobre o garoto sírio


H. L. Martínez


A imagem de Omran Daqneesh, de cinco anos, sentado numa ambulância e coberto de sangue e poeira depois de sobreviver a um bombardeio em Alepo, no mês passado, se tornou um símbolo da brutalidade da guerra civil na Síria. Nesta quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, divulgou no seu perfil do Facebook uma carta em que Alex, um nova-iorquino quase da mesma idade que Omran, pede que o menino refugiado vá morar com ele e sua família.


“Todos nós deveríamos ser mais como o Alex. Imaginem como seria o mundo se fôssemos. Imaginem o sofrimento que poderíamos aliviar e as vidas que poderíamos salvar”, afirmou Obama nesta terça-feira nas Nações Unidas, ao incorporar a carta do menino ao seu discurso na primeira cúpula da história da ONU dedicada aos refugiados.


A Casa Branca convidou Alex para gravar um vídeo lendo a carta enviada ao presidente. Nele, suas palavras se fundem com as do breve discurso de Obama. Nas seis primeiras horas após a sua publicação no Facebook, superou 2,9 milhões de visitas e gerou mais de 100.000 reações. São dados superiores à média no perfil de Obama.



Esta é a íntegra da carta de Alex:


“Caro presidente Obama,


Você se lembra do menino que uma ambulância recolheu na Síria? Poderia por favor encontrá-lo e trazê-lo para a nossa casa?


Quando vocês estacionarem na frente de casa, estaremos todos esperando com bandeiras, flores e balões. Daremos uma família para ele, e ele será nosso irmão. Catherine, a minha irmãzinha, vai apanhar borboletas e vagalumes para ele.


Na minha escola eu tenho um amigo que é da Síria, o Omar. Eu vou apresentá-lo para o Omar e poderemos brincar todos juntos. Vamos convidá-lo para festas de aniversários, e ele vai nos ensinar outro idioma. Podemos ensinar inglês para ele, como fizemos com o meu amigo japonês Aoto.


Por favor, diga para ele que o Alex será irmão dele, que é um menino muito amável, como ele.


Como não trará brinquedos, porque não tem brinquedos, a Catherine vai compartilhar o ursinho de pelúcia azul dela, e eu vou emprestar a minha bicicleta e vou ensiná-lo a usar.


Vou ensiná-lo a somar e subtrair, e ele poderá usar o pinguim verde da Catherine, que ela não deixa ninguém mexer.


Muito obrigado,


Estou à espera,


Alex.”



O presidente Obama quis comentar a carta nas redes sociais:


"Alex tem apenas seis anos e vive em Scarsdale, Nova York. No mês passado, como o resto do planeta, ficou comovido com as desoladoras imagens de Omran Daqneesh, um menino de cinco anos de Alepo, sentado numa ambulância, em estado de choque, enquanto tentava limpar o sangue das mãos.


'Vamos brincar juntos, daremos uma família para ele, e ele será nosso irmão’, me disse. São as palavras de um menino de seis anos, um garoto que não aprendeu a ser cínico, desconfiado ou temeroso dos outros em função do lugar de onde vêm, do aspecto que têm ou da forma como rezam.


Deveríamos ser todos mais como Alex. Imaginem como seria o mundo se fôssemos. Imaginem o sofrimento que poderíamos aliviar e as vidas que poderíamos salvar.


Escutemos Alex, leiam esta carta e entenderão por que a compartilhei com o mundo.”


Notícia publicada no Jornal El País, em 22 de setembro de 2016.



Carlos Miguel Pereira* comenta


O Menino Omran


As crianças simbolizam a essência mais pura do que somos. Simples, genuínos, estão sempre disponíveis para o encantamento e para a alegria, sempre prontos para emendar as costuras dos desencontros rasgados pelas aguçadas lâminas do orgulho e do egoísmo. Os adultos, tolerantes para com a simplicidade que elas ainda revelam, insinuam que são ingênuas. Bendita ingenuidade!


O ser humano é um ser complexo, não existem grandes dúvidas sobre isso. Desde o mecanismo biológico do nosso cérebro e de todo o organismo físico, passando pela explosão de emoções e as relações sociais a que estamos sujeitos, não esquecendo as imbricadas teias da herança espiritual e todas as influências que nos circundam, somos seres mergulhados numa grande complexidade que precisamos aprender a lidar. O grande problema que nos empurra para o conflito, para a infelicidade e perturbação, não é bem o fato de sermos complexos, é o fato de sermos complicados. E ficamos mais complicados à medida que, acumulando tarefas, personagens, preocupações, dúvidas, responsabilidades e interesses próprios, revelamos maior dificuldade em gerir os conflitos que tudo isso nos provoca, apegando-nos à posse do que é efêmero e alimentando a ditadura do ego, apertando de tal forma esse nó górdio que passamos a acreditar que, aquilo que é simples, é apenas uma medida de ignorância e irresponsabilidade.


Chegados a esse ponto, torna-se quase impossível encontrar respostas aceitáveis para as mais básicas perguntas que a ingenuidade formula. Por que vivemos? Por que morremos? Por que existe a guerra? Por que homens desejam matar outros homens? Se dispomos de tanto espaço disponível na nossa cidade, por que continuamos a impedir que as famílias que fogem da guerra entrem e se acomodem? Se temos uma cama vazia em casa, por que o menino de Alepo não pode vir dormir cá em casa? “É complicado!”, ouve-se invariavelmente com uma expressão superior que pretende subentender: “se te explicasse não irias perceber.”


A lógica da guerra é uma equação indecifrável sem tradução matemática. O que de mais simples se pode dizer sobre essa catástrofe humana é que desde os primórdios da história humana o homem convive com a guerra, das mais triviais às mais devastadoras. A dor causada por essas experiências já nos deveria ter educado para o doloroso ciclo que a violência desencadeia, semelhante a um boomerang que, mais cedo ou mais tarde, regressará de alguma forma para atingir aqueles que a lançaram. A longa caminhada de sublimação da espiritualidade que vimos realizando já nos deveria ter aguçado a sensibilidade para compreender que o nosso sangue, a dor e o medo que aflige nossos corações não são diferentes do sangue, da dor e do medo dos corações que habitam essas cidades distantes. O coração de qualquer pai não seria capaz de suportar a dor se tentasse colocar o seu filho na pele de Omram. Imaginar num filho a confusão e a sensação de desamparo que Omram expressa é de tal forma avassaladora que ameaçamos chorar. Mas o que podemos fazer? “É complicado”, é a resposta habitual.


A Holandesa Etty Hillesum, numa carta dirigida aos seus amigos desde o campo de concentração de Westerbork, escreveu: “E quantos mais delitos e horrores se derem, mais amor e bondade teremos de oferecer em contrapartida, sentimentos que temos de conquistar dentro de nós. Podemos sofrer, mas não podemos sucumbir. E se escaparmos a estes tempos, imaculados no corpo e na alma, sem rancor, sem ódio, então também nós teremos algo a dizer após a guerra.”


Quando Alex olhou para as pungentes imagens de Omram, estarrecido e coberto de cinza naquela ambulância de um país que ele não fazia ideia onde ficava, ele não viu um menino desconhecido. Ele imaginou-o um amigo, um irmão. Havia espaço lá em casa e, se ele não seria capaz de deixar desamparado um amigo, porque aquele menino haveria de ser diferente? Existem pequenos gestos de bondade que são poemas a sinalizar o ideal de fraternidade que ilumina o universo e que nos revelam uma humanidade que não verga diante da ameaça do medo, não cede perante a tentação do ódio, muito menos se deixa vencer por uma visão apressada de um mundo fraturado entre bons e maus. Mesmo mergulhadas no meio da loucura, da barbárie mais doentia, felizmente existem muitas vozes lúcidas de esperança, pequenas azáleas que brotam simples e deslumbrantes. Alex é ingênuo, genuíno e sensível. Bem-hajas, Alex!


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.