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Violência silenciosa: As agressões de filhos contra pais


14 de agosto de 2016


Violência silenciosa: As agressões de filhos contra pais


Muitas famílias convivem com um problema grave de violência, mas poucas têm a coragem de denunciá-lo às autoridades ou procurar ajuda: a agressão de filhos contra seus próprios pais.

A vergonha e o sentimento de culpa evitam que eles falem a respeito do assunto. No entanto, alguns já admitem o problema.

"Ela me agrediu. Minha filha me jogou no chão, não podia respirar e (ela) quebrou o dedo da avó que tentou me ajudar", disse à BBC Mundo Mariángeles (nome fictício), uma mãe de 42 anos que mora em Madri, na Espanha.

Psicólogos e sociólogos analisam o fenômeno, que não é novo, mas aumentou nas últimas décadas.

É uma forma de violência dentro das famílias na qual os filhos abusam verbal, emocional, econômica e fisicamente dos pais ou tutores para assumir o controle.

Segundo um estudo feito recentemente pela União Europeia, estima-se que nos Estados Unidos e na Espanha - dois países observados pela pesquisa - 10% das famílias sofrem com este tipo de agressão, que não diferencia nível socioeconômico e muito menos modelo familiar. Os principais agressores, no entanto, costumam ser os adolescentes e as vítimas, as mães.

"(Muitos) pensam que acontece em famílias desestruturadas, com problemas econômicos, mas não é assim. Há muita variedade e (acontece em) muitas (famílias que) têm uma posição mais cômoda", disse à BBC Mundo a psicóloga Esther Roperti.


Brasil e outros países

No Brasil, os números da violência de filhos contra pais também são relevantes, de acordo com dados compilados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, feito a partir dos registros catalogados por profissionais em postos de saúde da rede pública.

Diante de uma suspeita de caso de violência doméstica, sexual e/ou outras violências envolvendo crianças, adolescentes, mulheres e idosos, o agente de saúde é obrigado a registrar oficialmente.

Em 2012, foram 4.289 casos registrados de violência de filhos contra pais. Em 2013, 5.559 e, em 2014, 4.454 casos. Um total de 14.302 agressões de filhos contra progenitores em apenas três anos.

De acordo com os dados, organizados e analisados por Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), 70,4% das vítimas da violência dos filhos foram as mães e 29%, os pais.

E o tipo de violência preponderante, segundo estes dados, é a física. Mas também há incidência de "violência psicológica ou moral e a negligência/abandono (...) provavelmente acompanhando a violência física".

Apesar dos números altos e detalhados, Waiselfisz afirma que esta pode ser apenas a "ponta do iceberg".

"Estes são os casos de violência daquelas pessoas que já tiveram que ir ao posto de saúde. Ninguém vai ao posto de saúde por causa de uma ameaça", afirmou.

Para Waiselfisz, estes casos relatados talvez sejam apenas 80% dos casos de violência física que levam os pais a procurar os serviços de saúde. Ele calcula que 20% destes casos extremos acabem na rede de saúde particular, onde o registro não é obrigatório.

Outra limitação apontada por Waiselfisz é que não existem dados a respeito dos filhos, apenas das vítimas da violência, os pais.

A falta de precisão e até de registro deste tipo de violência é uma situação que se repete em muitos países da América Latina, onde não há diferenciação nas estatísticas entre os casos de violência de filhos contra pais e outros casos de violência doméstica.

Na Argentina, por exemplo, "não existem estatísticas, pois não está tipificado como delito e este tipo de violência é englobada no nível geral, como violência familiar", afirmou à BBC Mundo Gabriel Bertino, advogado e participante do Congresso Internacional de Violência Filho-Paternal e Violência de Gênero, realizado em 2013 no país.

Por outro lado, na Colômbia, a agressão de filhos contra pais representou 11% dos 15.829 casos de violência dentro da família registrados em 2013.


Problema moderno

O Ministério Público da Espanha afirma que, junto com roubos violentos, a violência de filhos contra os pais é o crime que mais leva a detenções e medidas cautelares contra menores de idade naquele país. Em 2013 ocorreram 4.659 denúncias.

A Europa realizou em 2013 o primeiro estudo sobre o problema, o relatório Abuso Oculto dos Filhos contra os Pais, elaborado pela Universidade de Brighton, na Grã-Bretanha, e financiado pelo Programa Daphne III, que combate a violência que envolve menores de idade.

"É a forma mais escondida, incompreendida e estigmatizada de violência familiar. Milhares de pais vivem com medo, mas ainda é um tema tabu", disse Paula Wilcox, pesquisadora que participou do estudo.

O estudo acadêmico avaliou a eficácia dos modelos para tratar a violência dos filhos contra os pais na Bulgária, Irlanda, Espanha, Suécia e Inglaterra. Um dos modelos trabalha com grupos paralelos de pais e jovens, ensinando técnicas para lidar melhor com as emoções, enquanto outro modelo se concentra diretamente em como melhorar a vida dos pais.

"Não quer dizer que (a violência de filhos contra pais) não existia, mas só agora alcança uma grande dimensão, que chama atenção", disse à BBC Mundo Roberto Pereira, vice-presidente da Sociedade Espanhola para Estudo da Violência Filho-Paternal (Sevifip), pioneira no setor.


Drogas

No caso de Mariángeles - citada no início da reportagem - a violência começou a se manifestar depois do divórcio, há seis anos, e piorou depois que ela se mudou para Madri com as duas filhas. A mais velha, que pediu para ser identificada com o nome fictício de Lucía, foi a que passou por mudanças mais difíceis e reconhece que se afastou da mãe.

Aos 17 anos a jovem começou a usar drogas e foi expulsa do colégio onde estudava. Os professores e orientadores do colégio até sugeriram que a mãe a denunciasse à polícia, mas Mariángeles preferiu procurar ajuda.

A mãe afirma que seu erro foi não conversar com as filhas sobre as mudanças que viriam e também não impor limites.

Para especialistas, parte do problema é que que as famílias não têm claro o conceito de autoridade e o sistema educativo é permissivo. São mais amigos do que pais e criam "adolescentes caprichosos que não toleram a frustração", diz a psicóloga Esther Roperti.

"A falta de limites gera angústia e ansiedade, é como atravessar uma rua sem semáforo", afirmou a psicóloga.


Segredo e denúncia

Muitos pais acreditam que seja uma fase passageira, e que seus filhos os agridem porque é apenas um aspecto da personalidade dos jovens.

Mas especialistas afirmam que, em muitos casos, a violência é indicador de uma necessidade de limites ou de uma separação indispensável para que o filho possa se desenvolver como indivíduo. Por isto este comportamento ocorre mais na adolescência.

Muitas vezes, a necessidade de intervenção deve se materializar na forma de uma denúncia para as autoridades. Uma medida - segundo os terapeutas - que protege os pais e pode ajudar para que estes filhos possam se relacionar sem violência.

Mas, tomar a decisão e fazer a denúncia também não é fácil devido às consequências legais envolvidas.

A advogada María José Parras afirma que, às vezes, é um vizinho que chama a polícia e começa todo o processo até o julgamento.

"É importante assessorar bem os pais, porque denunciar também implica uma ordem de restrição. O filho não pode se aproximar da residência nem falar com os pais, se não cumprir a ordem, será um delito", afirmou.

A denúncia pode levar os jovens a centros de menores.

Mesmo assim, Mariángeles afirma que é preciso denunciar, "para ajudar outras famílias". "Tenham muita paciência e não percam a esperança", acrescentou.

Lucía, a filha de Mariángeles, passou três meses em liberdade vigiada e quase um ano em um centro de menores.

"Me impactou ver casos mais fortes. Abri os olhos e valorizei mais minha mãe", disse.

Com reportagem de Flavia Nogueira, da BBC Brasil em São Paulo

Notícia publicada na BBC Brasil, em 18 de março de 2015.


Humberto Souza de Arruda* comenta

Agressões de filhos a pais

Esta é uma noticia que realmente nos deixa muito preocupados, alarmados, assustados e outros sentimentos até de repulsa. Principalmente pelo fato de estarmos relativamente “acostumados” a ver este assunto de forma contrária, como os casos em que pais agridem filhos por motivos mais variados e inimagináveis.

Esta postura violenta vem de uma análise equivocada do padrão de educação que tem um modelo vertical, onde diz que o mais velho na família tem mais autoridade. Com isso, alguns entendem que possam fazer o que quiser. Inclusive de forma violenta. Cultura que vem de muitas gerações e naturalmente passada de pai para filho.

Mas chegou um momento em que a sociedade foi ficando tão incomodada com esta situação que passou a ver esta prática como uma forma brutal e ineficiente de ensinar uma criança. E junto com a proibição legal e social desta prática de violência, começamos a conviver, ainda que timidamente, com um novo modelo de educação. O modelo horizontal, onde já não existe uma pessoa com mais autoridade na casa. Como o próprio nome sugere, não há hierarquia. Todos ao mesmo nível: O adulto com mais conhecimento e experiência pergunta ao filho de três anos se não está na hora deste dormir. Ou, na hora do almoço, pergunta se este quer brincar ou almoçar. Chegando à situação de perguntar a criança se quer ou não tomar um determinado remédio diante de uma patologia qualquer.

De um extremo a outro, vemos que nesta forma equivocada também de educação alguns pais passam para um modelo também ineficiente. Um modelo em que deixa a desejar o exemplo de limites, respeito e bem viver em sociedade.

Mas não podemos afirmar que filhos contrariados por terem sofrido violência dos pais, ou por não terem encontrado os limites que gostariam e necessitariam, possam futuramente agredir os seus pais, uma vez que existem casos em que pais deram a mesma educação para todos os filhos e uns são muito diferentes dos outros, chegando a casos extremos, como os citados na matéria.

Vemos que a forma de educar não é fator determinante para prevermos como será o perfil futuro do indivíduo na sociedade.

Mas vamos então colocar nesta reflexão a imortalidade da alma, a reencarnação, afinidade espiritual e causa e efeito. Assim, um espírito que quando encarnado está em uma família, não está por acaso.

Quando nós estamos nos educando como espíritos imortais que somos ou quando educamos crianças também como espíritos imortais, vemos que este conhecimento a ser adquirido é interessante que seja analisado mediante três fases bem distintas de um aprendizado completo.

A primeira fase, quando entendemos uma informação oferecida. A segunda, quando internalizamos a informação entendida, que acontece quando podemos até ensiná-la. E, por último, vem a vivência, que é o momento de experimentar realmente o que entendemos e ensinamos. É o momento de colocar à prova o que aprendemos. Esta plenitude de aprendizado é complexa e pode não ser concluída em uma existência.

Esta análise pode nos trazer o conforto de fazermos todo o possível, sem medo ou culpa de não ter alcançado o ápice do ensino. Vejamos a analogia a seguir.

Um espírito de pouca elevação que torturava e matava os inimigos e parentes quando estava em uma pretérita encarnação. Se em uma existência futura ele só matar uma pessoa, o veremos como um ser vitorioso. Praticamente mudou em apenas duas existências. Mas e se víssemos a noticia da morte de um pai trabalhador por um filho mimado? Será que faríamos a mesma análise? E se depois soubéssemos que este espírito que luta para se livrar do vício da vingança é o mesmo protagonista das duas histórias? Mas se somente um morreu por suas mãos nesta última existência, este que desencarnou não deve ser um espírito qualquer. Por que ainda continua o ódio por este último?

Estas são indagações pertinentes quando começamos a estudar a reencarnação. Pois ainda não teríamos desenvolvido conceito como a afinidade espiritual; independente se seria para uma aproximação amorosa ou não, os espíritos são atraídos por pensamentos e atitudes em comum. Mas por mais atraente que seja uma situação que esteja querendo nos fazer sucumbir, temos o livre-arbítrio que nos deixa livres para mantermos na nossa caminhada.

Então, este mesmo espírito que tinha diversos motivos, adquiridos em outras existências, para fazer uma brutalidade por vingança, tem também motivos para não o fazer. Pois, com a maturidade e conhecimento da Lei de Causa e Efeito, o Espírito pode optar em aprender por experiência própria que muitos equívocos contraídos em uma existência são potencializados em outra pelo fato deste desvio ser somado a sentimentos como culpa por tempo perdido e promessas não cumpridas.

Assim, com ressalvas à palavra pecado, podemos “condenar” um pecado, mas não um pecador.

Considerando a Lei Divina do Progresso, um espírito não regride. Ele pode estacionar em uma determinada existência. Por isso a complexidade do julgamento não nos caber. Deixemos esta tarefa a Deus. Cada um será julgado pelas suas próprias obras.

Que a experiência de agredir os pais seja algo que o mais breve possível seja tocado na consciência destes filhos equivocados e merecedores de compaixão.

* Humberto Souza de Arruda é evangelizador, voluntário em Serviço de Promoção Social Espírita (SAPSE) e colaborador do Espiritismo.net.