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A chama da inveja também brilha no Rio


18 de agosto de 2016


A chama da inveja também brilha no Rio


O campeão da maratona de Atenas e o ex-padre que derrubou Vanderlei de Lima reclamam para eles a fama do corredor que acendeu a pira

Carlos Arribas
Rio de Janeiro

Os valores olímpicos não são como o desprezo, absolutos, estão mais para relativos, muito subjetivos e até negativos, como demonstra a história de Vanderlei de Lima que acendeu a pira, e que, aos olhos de Stefano Baldini, o atleta que o derrotou na maratona de Atenas 2004, e de Neil Horan, o ex-padre lunático irlandês que o derrubou na corrida com um movimento típico do rúgbi, não é mais que um aproveitador da fama que os dois proporcionaram. A história poderia ser contada não como uma parábola do espírito olímpico, a razão que levou o Rio a escolhê-lo como o último carregador da tocha, mas como uma alegoria da inveja.

Faltavam apenas cinco quilômetros dos 42,195 da maratona olímpica de Atenas e Vanderlei de Lima, o atleta brasileiro, ia em primeiro e se destacava, mais ou menos meio minuto à frente de Baldini e do norte-americano Meb Keflezighi. O histórico estádio de Panathinaikos se aproximava a cada passo, gigantesco ao longe, mas antes outra imagem enorme e monstruosa apareceu na frente e investiu contra ele. Quase sem perceber, Lima acabou no chão ao lado de uma figura bizarra que queria anunciar a aproximação do fim do mundo e da segunda vinda de Cristo vestido com um colete verde e uma boina também verde com reflexos alaranjados da bandeira irlandesa. Lima tentou recuperar o tempo que demorou para ficar de pé, mas quase tão rapidamente se adiantaram Baldini e Keflezighi, que não tinham visto o atropelo e disputaram a vitória no estádio de mármore. Venceu o italiano.

Lima foi recebido no Brasil como herói, vítima de um destino injusto que o privou de uma vitória certa, uma personalidade com tanto caráter que simbolizou a luta tenaz do ser humano contra o impossível e o destino, que é a essência, para muitos, do espírito olímpico. A emoção que o país sentiu na sexta-feira à meia-noite quando o velho Lima acendeu a chama olímpica no Maracanã mostrou que a escolha não estava errada. As razões, sim, de acordo com os outros protagonistas da escura noite ateniense.

Baldini escreveu no domingo em La Gazzetta Sportiva, que parecia muito bem a homenagem a Lima e ficou emocionado ao vê-lo, porque sua reação depois que foi jogado no chão, voltando a correr em vez de ficar na calçada sentado se lamentando, pareceu magnífica, mas que ninguém deveria entender que a cerimônia da pira olímpica serviria para devolver a glória roubada. “Mas”, diz o campeão olímpico italiano, “isso de que ia ganhar não é verdade. Íamos alcançá-lo com certeza. Teria ficado em terceiro da mesma forma, por isso, no fundo, tem que agradecer ao louco, porque caso contrário, ninguém se lembraria dele”.

A mesma interpretação prática da vida e do espírito olímpico – o que importa é o resultado, a fama e o brilho – aparece, curiosamente, no demônio de Atenas, Neil Horan que em um jornal australiano reclama para si o sucesso de Lima. “O brasileiro é uma má pessoa”, disse ele. “Eu escrevi várias vezes para ele em português pedindo desculpas e dizendo que queria visitá-lo e conhecer sua família, mas nunca me respondeu. E isso não se faz. É um insulto contra mim e contra Cristo. Ele não percebe que fui a providência naquele dia. Sem mim ninguém saberia quem é Lima. Sem mim, ele nunca teria acendido a pira...”.

Notícia publicada no Jornal El País, em 8 de agosto de 2016.


Jorge Hessen* comenta

Em face do histórico colapso econômico e político brasileiro, creio que esta não tenha sido a melhor ocasião para a realização dos Jogos Olímpicos no Brasil. Reconheço que a festa da abertura foi espetaculosa, talvez uma das mais “coloridas”.  Mas quero meditar um pouco sobre o fantasma da inveja de um olímpico (parece que não tem nada a ver, porém, vejamos abaixo).

Há 12 anos a saga do maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima, que liderava , à época, a maratona da Olimpíada da Atenas em 2004, quando a 6 quilômetros da chegada, Cornelius Horan, um ex-padre irlandês, ultrapassou as faixas de segurança e agarrou-o conduzindo o atleta para a lateral da pista. Atordoado, Vanderlei conseguiu se recuperar e terminar a corrida, mas por causa dessa interrupção, em vez do plausível “ouro” naquele dia no pódio recebeu a medalha de bronze. Logicamente o imprevisto episódio ganhou destaque em todos os meios de comunicação da Terra.

Doze anos transcorridos e Vanderlei mais uma vez protagonizou um momento apoteótico quando foi o encarregado de acender a pira da primeira olimpíada realizada no Rio de Janeiro. Foi um sentimento de júbilo que o país reconheceu, demonstrando que a escolha desse protagonismo de Vanderlei não foi injusta. No entanto, avesso a esse momento apoteótico, Stefano Baldini, o vencedor da maratona da Olimpíada da Atenas em 2004, afirmou que aquela homenagem não devolveria a Cordeiro de Lima a suposta glória (medalha de ouro) roubada. Para Stefano o brasileiro não iria ganhar a maratona de 2004, porque ele (Stefano) e Mebrahtom Keflezighi iriam alcançá-lo e Lima  teria ficado com o “bronze” da mesma forma.

Não é de hoje que Baldini tem afirmado que Vanderlei deve se contentar com o bronze. Sob o abalo da inveja, Baldini tem dito que Cordeiro de Lima deveria agradecer à fatalidade de ter encontrado no seu caminho Cornelius Horan [o ex-padre lunático irlandês], porque caso contrário, afirma Baldini – “ninguém se lembraria dele (Cordeiro de Lima)”. Entretanto, há exatos dois anos o maratonista brasileiro respondeu elegantemente a Stefano como notaremos adiante.

No dia 8 de agosto, em matéria sobre o episódio supramencionado, o jornal El País tratou a reação do ex-atleta italiano [Stefano Baldini] como… inveja. Pura e simplesmente inveja. “A história poderia ser contada não como uma parábola do espírito olímpico, (…) mas como uma alegoria da inveja”, escreveu o jornal espanhol. No dia 28 de agosto de 2014, Vanderlei Cordeiro de Lima comentou sobre quem teria ganho a prova de Atenas se o incidente não tivesse acontecido: Disse o brasileiro que “o impacto físico e psicológico do que ocorreu foi muito grande. Em situação normal, eu poderia não ganhar o ouro, mas a disputa iria para a final da prova, com certeza. Eu jamais vou dizer que seria o campeão. Não vou usar de um palavreado que o próprio Baldini adotou e foi infeliz. Jamais vou subestimar os demais adversários, ainda mais se tratando de uma situação que não aconteceu”.

Constata-se no testemunho do medalhista de ouro (Stefano), um depoimento desairoso, uma combinação de lamúrias invejosas e carência de ética esportiva, totalmente oposta aos valores olímpicos. Em verdade, doze anos após o incidente de Atenas, Vanderlei Cordeiro de Lima humildemente se mantém à frente dos que querem impedi-lo de chegar em primeiro.(1)

Nos dias que seguirão normalmente após as Olimpíadas do Rio, poderemos ansiar pelas excelsas competições da humildade, da fraternidade entre os povos, da indulgência, da beneficência, socorrendo-nos mutuamente, a fim de que a inveja, o despeito, a maldade, o ciúme, a miséria moral de qualquer casta fuja humilhada, cedendo lugar ao ingente desempenho do afeto, do respeito, do amor segundo o Messias de Nazaré o viveu e nos instruiu.

A lição nos induz a refletir que poderemos estabelecer em nós mesmos o treinamento preparatório para o vínculo respeitoso, fraterno, solidário, dando início às futuras Olimpíadas do Evangelho, cujo escopo do amor ao próximo será consagrada nas arenas do Orbe inteiro.


Referência:


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.