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A morte poderá deixar de ser tabu num futuro próximo. Nos últimos anos, houve grandes esforços para promover o diálogo sobre o fim da vida, tanto em espaços privados como públicos. Um exemplo são os ‘cafés da morte’ criados na Suíça, em 2004. Jorge Hessen comenta.

  • Data :14/05/2016
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18 de maio de 2016

Saiba como pensar na morte afeta a mente humana

Jonathan JongDa Universidade de Coventry A morte poderá deixar de ser tabu num futuro próximo. Nos últimos anos, houve grandes esforços para promover o diálogo sobre o fim da vida, tanto em espaços privados como públicos. Um exemplo são os “cafés da morte” criados na Suíça, em 2004, em que as pessoas discutem seu medo da mortalidade entre goles de café e mordidas em bolinhos. Nossa relutância em falar sobre a morte é frequentemente interpretada como evidência de que estamos com medo, e por isso reprimimos os pensamentos sobre ela. No entanto, há poucas evidências diretas para endossar tal argumento. Mas o que é uma ansiedade “normal” sobre a morte? E como ela se manifesta? Estudos usando questionário mostram que estamos mais incomodados com a possibilidade de perdermos entes queridos do que com nossas próprias mortes. Esses estudos mostram também que estamos mais preocupados com o processo de falecimento - a dor e a solidão envolvidas, por exemplo - do que com o fim da vida em si. Em geral, quando perguntados se temos medo de morrer, muitos de nós negam e falam em níveis apenas moderados de ansiedade. A minoria que relata altos níveis de ansiedade em relação à morte é até considerada psicologicamente anormal - de acordo com a literatura médica, sofrem de tanatofobia.

Imortalidade No entanto, a posição da maioria pode ser resultado de uma relutância em admitir o medo - para os outros e si mesmo. Com base nessa hipótese, psicólogos há quase 30 anos têm examinado os efeitos mentais e sociais causados por pensar na morte. Em mais de 200 experimentos, indivíduos foram instruídos a imaginar que estavam morrendo. O primeiro estudo deste tipo foi conduzido nos EUA, com juízes participando de uma simulação em que teriam que determinar fiança para uma prostituta. Em média, juízes que tinham sido instruídos, antes, a refletir sobre a mortalidade determinaram fianças muito maiores (US$ 400) que os colegas que não participaram do exercício (US$ 50). Desde então, muitos outros efeitos foram descobertos em outros grupos populacionais mais gerais em países diferentes. Além de nos tornar mais punitivos, pensar na morte nos torna mais nacionalistas, mais preconceituosos e reforça atitudes paroquiais. Os estudos mostram que sermos lembrados da morte reforçam os laços com os grupos a que pertencemos, em detrimento das pessoas que são diferentes de nós. As lembranças também afetam nossas crenças políticas e religiosas. Por um lado, ficamos polarizados e mais fervorosos em convicções e fés. Mas os estudos também concluíram que pensar na morte também nos deixa mais inconscientemente religiosos, ainda que de maneira sutil. E quando a lembrança da morte é suficientemente poderosa, participantes tendem a endossar ideias e candidatos conservadores. Alguns pesquisadores, por exemplo, apontam para a guinada dos EUA à direita após os ataques de 11 de setembro. Mas por que a morte nos deixa mais punitivos, conservadores e religiosos? De acordo com estudiosos, a lembrança da morte nos tenta a buscar a imortalidade. Muitas religiões oferecem isso, mas afiliações seculares, como países e grupos étnicos, acenam com uma imortalidade bem mais simbólica. Esse grupos e tradições são parte do que somos e vivem mais do que nós. Defender nossas normas culturais pode impulsionar nossa sensação de pertencimento. Ser mais punitivo contra transgressores - como prostitutas - é uma consequência disso. Pesquisadores também descobriram que lembranças da morte alimentam nosso desejo por fama e por crianças, ambos comumente associados a uma imortalidade simbólica - queremos viver para sempre em nosso trabalho e DNA. O que devemos pensar dos novos esforços para desmistificar a morte? É difícil dizer. Pensar mais na morte pode nos tornar mais punitivos e preconceituosos, mas tais efeitos talvez ocorram justamente porque estamos desacostumados a pensar e falar sobre a morte. Na terapia de exposição, pacientes são colocados próximos à fonte de sua ansiedade - um objeto, animal, ou mesmo um a memória - para que seu medo seja reduzido. Da mesma maneira, uma maior discussão sobre a morte pode nos inocular psicologicamente e nos deixar mais fortes diante da mortalidade. Notícia publicada na BBC Brasil , em 19 de abril de 2016.

Jorge Hessen* comenta O homem contemporâneo, que investiga desde o micro ao macrocosmo, cambaleia, ante os vestíbulos da sepultura com a mesma amargura dos egípcios, dos gregos e dos romanos de épocas recuadas. Os milênios que arrasaram civilizações e refundiram povos não transformaram a emblemática expressão do túmulo. Infinitos ponto de interrogação, a morte continua ferindo sentimentos e torturando inteligências. O homem tem sentido perturbação e temor perante a expectativa da desencarnação. E esse receio tem sido alimentado por uma mistura de falsos conceitos religiosos, senso comum e crenças pessoais arraigadas. O problema do medo da morte é que ele pode impedir que se tenha encanto na vida e minar a confiança de que a vida tenha maior significado. As religiões textualistas são especialmente responsáveis de gerar uma série de fobias e mitos a respeito da viagem ao túmulo. A má formação religiosa tem deixado muitas pessoas confusas a respeito da situação dos mortos no além-tumba. Os destinos, que incluem o céu, inferno, purgatório, limbo, vão desde o misterioso até o absolutamente assombrador. Por outro lado, a obra Death - The Final Stage of Growth afiança que a morte é uma parte integrante da nossa vida, é normal, é o fim natural de todos os organismos vivos. Tal crença materialista, por sua vez tem fomentado uma filosofia niilista e o comportamento pessimista. Há pessoas que sofrem de tanatofobia (receio mórbido da morte). Psicólogos têm examinado os efeitos mentais e sociais causados por pensar na morte. Segundo alguns, pensar na morte nos torna mais nacionalistas, mais preconceituosos e reforça atitudes igrejeiras ou inconscientemente religiosas, bem como afetam as crenças políticas. Narram que a morte nos deixa mais punitivos e conservadores. A lembrança da morte alimenta o desejo por fama comumente associado a uma imortalidade simbólica, daí a busca pela imortalidade nas tais academias de letras. Articulam alguns que pensar mais na morte pode nos tornar mais punitivos e preconceituosos, entretanto tais efeitos quem sabe ocorram justamente porque estamos desacostumados a pensar e falar sobre a morte. Entendemos que pensar diariamente sobre a inexorável lei da desencarnação pode nos tornar mais sóbrios diante dos desafios do dia-a-dia. Reconhecemos também que o viver tentando ocultar na consciência a futura desencarnação demonstra uma evidente pusilanimidade diante dos necessários obstáculos da reencarnação. O problema do medo da morte é que ele pode impedir que tenhamos prazer de viver. Daí o conforto que a Doutrina Espírita nos traz, ao nos instruir sobre a vida do espírito aqui e no além. Somos espíritos eternos, nossa vida não principia nem termina em uma única existência. Da mesma forma, as afeições são para sempre. As afeições não morrem com a desintegração do corpo físico. Os sentimentos não pertencem ao corpo, mas ao espírito, e os transportamos conosco. A morte apenas dilata as concepções e nos aclara a introspecção, iluminando-nos o senso moral, sem resolver, obviamente, de maneira absoluta, os problemas que o Universo nos propõe a cada passo, com os seus espetáculos de grandeza. A desencarnação é a única regra para a qual não há exceções. Todos pereceremos, portanto não há como iludirmos o pensamento tentando esconder esse impositivo da natureza. Em face disso, permitamos que o pensamento sobre a “morte” componha de forma ininterrupta e serena nossos estados mentais, reflexão sem a qual estaremos desaparelhados para a desencarnação ou despreparados para enfrentarmos com quietação a “morte” dos nossos entes queridos. A “morte” física não é o extermínio das aspirações e anseios no bem, porém o ingresso para a existência autêntica, para a vida real. Sim! A existência física é ilusória, fugaz, transitória demais. A separação do corpo pela “morte” não é uma anomalia da natureza. Simplesmente transfere-se da dimensão física, para o ambiente espiritual. Todavia, efetivamente, “morrer” (término da vida biológica) e desencarnar (desligamento do perispírito) são fenômenos que nem sempre acontecem simultaneamente. Os intervalos de tempo para desligar-se do corpo variam para cada Espírito. Para uns pode ser mais dilatado, para outros é uma passagem rápida. Nossos atos tecem asas de libertação ou algemas de cativeiro, para a nossa vitória ou nossa perda. A maior surpresa da morte carnal é a de nos colocar face a face com própria consciência, onde edificamos o céu, estacionamos no purgatório ou nos precipitamos no abismo infernal; nesse sentido a ninguém devemos o destino senão a nós próprios. O intervalo de tempo entre a “morte” biológica e a desencarnação tem relação direta com os pensamentos e ações praticados enquanto encarnado. Ninguém topará com o “céu” ou o “inferno” do lado de “lá”, porquanto o “empíreo” e a “geena” são conteúdos mentais construídos aqui no plano físico. Após o fenômeno da desencarnação cada Espírito irá deparar com o cárcere ou a liberdade de consciência a que faz merecer como fruto do desleixo ou disciplina mental que cultivou durante a experiência física. São indescritíveis flagelações no além, que vão da inconsciência descontínua à loucura completa, senhoreiam as mentes torturadas, por tempo variável, conforme as atenuantes e agravantes da culpa, induzindo as autoridades superiores a interná-las no plano físico (reencarnação), quais enfermos graves, em celas físicas de breve duração, para que se reabilitem, gradativamente, com a justa cooperação dos Espíritos reencarnados, cujos débitos com eles se afinem. Os que vivem com mais dedicação às coisas do Espírito, esses encontram maiores elementos de paz e felicidade no futuro; para eles, que sofreram mais, em razão do seu afastamento da vida mundana, a morte é um remanso de tranquilidade e de esperança. Encontrarão a paz ambicionada nos seus dias de lágrimas torturantes (eis aí a metáfora do céu). Enfim, para os que alcançaram aproveitar a encarnação, sem viciações e apegos, os que cumpriram a lei de amor, tornam-se menos densos os laços magnéticos que prendem o Espírito ao corpo. Nesse caso, a desencarnação será rápida, proporcionando adequada liberdade, até mesmo antes de sua consumação. Todavia, os indisciplinados que se afundaram nos excessos, nas viciações, nos prazeres mundanos, cunham intensas impressões e vínculos magnéticos na matéria, e unicamente alcançarão a liberação desses laços após um intervalo de tempo considerável. Lembrando que mesmo após a ruptura dos embaraços magnéticos, que o algemavam à vida física, padecerão no além, por tempo indefinido, os tormentos disseminados nas vias de suas experiências no mal (eis aí a símbolo do inferno).

  • Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.