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Professores recebem formação para prevenir suicídio nos jovens


24 de abril de 2016


Professores recebem formação para prevenir suicídio nos jovens


Ana Maia

Projetos-piloto. Alertam para sinais de risco e ensinam o que fazer. Experiências avançam em Aveiro, Setúbal (meio escolar), Évora e Porto (saúde infantil). Faltam psiquiatras e pedopsiquiatras

Professores e profissionais de saúde vão receber formação para detetar e encaminhar para acompanhamento crianças e jovens com sinais de sofrimento ou de depressão. A medida faz parte do plano de prevenção do suicídio em meio escolar e é também uma das áreas que a coordenação nacional de Saúde Mental quer ver reforçada.

O pedido de prolongamento do Plano Nacional de Saúde Mental até 2020, com especial enfoque nos cuidados comunitários e prevenção, já foi feito ao Ministério da Saúde. Este é dos temas a ser debatido nos dois dias da Conferência Nacional de Saúde Mental, que começa hoje com a presença do ministro da saúde, Adalberto Campos Fernandes.

"Queremos ter melhor capacidade de fazer diagnóstico e tratamento da depressão e apostar na promoção e prevenção nas escolas com o aprofundamento de dois projetos de saúde escolar e saúde infantil e juvenil que começaram em dezembro de 2015 e que já têm financiamento garantido para este ano, com cerca de 40 mil euros cada", disse ao DN Álvaro de Carvalho, coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental.

O primeiro é um trabalho desenvolvido com a direção-geral da educação, o segundo com os cuidados de saúde primários. O objetivo é o mesmo: "Capacitar os professores e os profissionais de saúde a encontrarem e valorizarem sinais de sofrimento emocional nas crianças. Ainda há muita iliteracia nesta área. São manifestações que podem resultar em perturbações do sono, da alimentação, comportamento, autoinfligir lesões." Aveiro e Setúbal são as zonas escolhidas para o projeto em meio escolar, Évora e Porto para os projetos-piloto na saúde infantil.

"Tiveram muito êxito. A ideia é estender o projeto a todos os agrupamentos de centros de saúde", adiantou, referindo que estão a ser desenvolvidos estudos para perceber a prevalência de perturbações mentais em crianças e adolescentes e para avaliação de prescrição de psicofármacos infantil, por causa do consumo de alguns medicamentos para a hiperatividade.

Há uma outra questão que preocupa Álvaro de Carvalho. O envelhecimento dos psiquiatras e pedopsiquiatras. De acordo com inventário de pessoal da saúde da Administração Central do Sistema de Saúde, em 2014, existiam no SNS 799 psiquiatras (incluindo internos), mas a maioria (222) entre os 50 e os 59 anos. Já pedopsiquiatras eram 161, com a maioria dos profissionais entre os 40 e os 59 anos.

"Existem 40 serviços de saúde mental em hospitais, 36 com unidades da infância. Algumas só têm um pedopsiquiatra, pelos mesmos motivos de faturação. Procuro que esta seja uma das áreas de prioridade de formação. Só temos dois centros com capacidade formativa", refere.

"Vários psiquiatras saíram em poucos meses de Beja porque outros países ofereceram residência, mais férias, viagens ao país. Santiago do Cacém tem um serviço de psiquiatria criado desde 1998 e apesar de várias tentativas nunca conseguiu profissionais. Portalegre tem carência e o Algarve não chega para as encomendas. Vila Real, Bragança, Castelo Branco têm um ou dois psiquiatras. Se existisse garantia de equipas multidisciplinares não seria tanto um problema", aponta. As normas indicam um psiquiatra por cada 25 mil habitantes e um pedopsiquiatra por 65 mil.


Nova forma de pagar saúde mental

Outro tema em debate na conferência é o financiamento. Os hospitais não estão a apostar tanto nos cuidados na comunidade em saúde mental como a lei prevê por causa da forma como são pagos, diz o coordenador do Programa Nacional de Saúde Mental. É por isso que vai propor uma nova forma em que os hospitais não recebem apenas por consulta ou internamentos, mas um valor médio pelos cuidados previsíveis que o doente vai precisar, incluindo continuados.

A lei da saúde mental coloca os cuidados na comunidade como uma prioridade - aponta para equipas comunitárias por cada 50 mil habitantes (zonas menos povoadas) a 200 mil (zonas urbanas) - e os hospitais apenas como uma referência para internamento e urgências. Mas a aposta não tem acontecido como desejado. "Há uns anos a Administração Central do Sistema de Saúde reforçou o preço das consultas para apoiar o trabalho não médico, mas nos hospitais não se encontram psicólogos ou enfermeiros porque só os médicos faturam. Os hospitais não recebem por atos não médicos e por isso evitam o trabalho comunitário. Os hospitais em parceria público-privada, por exemplo, não fazem consultas na comunidade", frisou Álvaro de Carvalho.

O apoio em casa torna-se ainda mais importante quando a aposta foi desinstitucionalizar os doentes. É por isso que vai propor um novo modelo de financiamento e gestão dos serviços de saúde mental, criado no âmbito do EEA-Grants [programa de financiamento europeu]. "O dinheiro segue o doente e os hospitais não recebem por ato (internamento ou consulta) como acontece agora. Este projeto vai propor - a decisão será depois da tutela - um modelo de financiamento que tem em conta a realidade prática da saúde mental. A ideia é que não seja por ato nem per capita, mas uma espécie de preço compreensivo dos cuidados previsíveis a que cada doente tenha direito e que inclua cuidados continuados. O objetivo é que seja aplicado a todas as doenças mentais", concluiu.

Notícia publicada no Diário de Notícias, em 22 de março de 2016.


Jorge Hessen* comenta

A juventude é uma grande fase de descobertas, de experiência de novas emoções e sensações. É compreensível, neste período de transição entre os estágios infantil e adulto, que o vendaval dos mais diversos anseios e pensamentos se torne presente na mente do jovem, erguendo opiniões, preconceitos, tabus e outros temas que eram tidos como certos e inalteráveis. A estrada sedimentada com a presença dos pais até então vai se dissipando sob seus passos, estabelecendo que ele, depressa, construa os alicerces do seu próprio caminho.

Nesse contexto de deliberação e meditação, o jovem ingênuo ou o adolescente imaturo, que jamais teve um calçamento firme e estruturado por onde pudesse caminhar, se desorienta e busca, em atitudes extremas, debelar sua perturbação e tédio com o mundo. Diante do desafio de viver com as diferenças, pode brotar então a conduta suicida, que se consubstancia através de acenos psicológicos aos ensaios para a morte.

A depressão é, seguramente, o diagnóstico psiquiátrico mais notado em jovens que tentam o autoextermínio. Desfalecimento, consumo de drogas, desarmonia no lar, desordens de conduta, fatos estressantes, violências físicas, sexuais ou psicológicas e causas fisiológicas podem ser avaliados como os fundamentais agentes geradores desse distúrbio. Mesmo com o avanço significativo da ciência médica, algumas manifestações permanecem obscuras no campo da psicologia. A mente humana guarda mistérios ainda não desvendados.

Quase sempre o jovem que pensa em suicídio dá sinal dessa ideia através de um comportamento diferente no seu modo de viver, passando a buscar refúgio na solidão, isolando-se de tudo e de todos. A maioria das tentativas e das realizações de suicídio entre jovens acontece sobretudo em lares desarmonizados, com famílias desestruturadas, ou procedentes de grupos familiares que apresentam herança de enfermidades somáticas e/ou mentais. Os atos dos jovens buscando a autoeliminação podem ser formas desesperadas de pedir carinho, de chamar a atenção para si. Desse modo, a função da família deve funcionar como decidido antídoto contra o suicídio.

O autocídio é transgressão às leis de Deus, considerado dos mais graves que o ser humano pratica ante o seu Criador. Muitas são as consequências para os que atentam contra a própria vida; são, porém, variáveis para cada espírito, pois há de se levar em conta os pretextos da opção pelo autoextermínio e as formas empregadas para praticá-lo.

Os espíritos de suicidas são enfáticos e unânimes em declarar a intensidade dos sofrimentos que experimentam, a agonia da situação em que se abalam, decorrentes do seu impensado gesto. Como atitude de suprema rebeldia ante o Criador, ainda que com atenuantes ou agravantes, nenhum suicida se liberará do resultado sinistro da ação que praticou em face da desobediência às leis da Criação, e fatalmente uma nova reencarnação o esperará, seguramente em condições mais problemáticas do que aquela em que destruiu a si mesmo.

O suicídio é circundado de complexos e sutilezas imprevisíveis, cercado por circunstâncias e consequências gravíssimas, embora possam variar de grau e intensidade diante das ocorrências. As leis de Deus são incorruptíveis e ajuizadas, solicitando de cada um de nós o máximo bom senso para analisá-las e aprendê-las sem decompô-las através de nossos desejos e paixões.

Sob o ponto de vista espírita, recordamos que a obsessão espiritual igualmente se constitui numa das causas de jovens matarem-se. Quase sempre a perseguição espiritual exprime a desforra que um espírito exerce e que, com obstinação, se enraíza nas relações que o obsidiado manteve com o obsessor em vidas pregressas. Portanto, a ideia recorrente de autocídio, que vez por outra surge na mente de muitos jovens, pode ser reflexo de experiências de encarnações antecedentes.

No debate, garantimos que o Espiritismo é um dos maiores preservativos contra o suicídio. Quando o jovem consegue assimilar as lições dos Bons Espíritos, o suicídio deixa de fazer sentido para ele, mormente quando o adolescente reflete de forma madura a máxima “Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sem cessar, tal é a lei”. Sim! O moço perceberá que está diante de um Código Divino que encerra a transcendência da vida, sendo, portanto, o maior defensivo contra o suicídio.

* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.