Espiritismo .NET

Japoneses relatam aparições de espíritos em área devastada por tsunami


17 de março de 2016



Japoneses relatam aparições de espíritos em área devastada por tsunami


Ewerthon Tobace
De Sendai, no Japão, para a BBC Brasil

A poucos dias do quinto aniversário do terremoto de 9 graus de magnitude seguido de tsunami no Japão, voltam à tona relatos de moradores da região sobre fenômenos sobrenaturais, como aparições de espíritos.

Profissionais de diferentes áreas já vinham investigando as razões desses relatos desde que eles começaram a ser divulgados pela imprensa, nos meses subsequentes à tragédia - que devastou o litoral nordeste do Japão e deixou mais de 15 mil mortos.

Para especialistas, essas pessoas podem estar sofrendo algum tipo de transtorno psicológico causado pelo trauma de ter sobrevivido a um dos piores desastres naturais já ocorridos no Japão.

Mas a graduanda de sociologia Yuka Kudo, da Universidade Tohoku Gakuin, ganhou destaque na mídia japonesa recentemente ao apresentar os resultados de uma pesquisa que fez com taxistas e moradores relatando fenômenos do tipo.

Ela conduziu, ao longo de dez meses - entre 2014 e 2015 -, mais de 200 entrevistas aleatórias na cidade de Ishinomaki, que foi devastada pelo tsunami. Quinze dessas pessoas disseram ter tido contato com fantasmas ou experimentado situações inexplicáveis.

"Não tenho interesse em discutir se é verdade ou não. Existe um fenômeno social e esse é o foco do meu estudo", contou a jovem à BBC Brasil.

Yuka tomou conhecimento dos casos por intermédio de relatos publicados em jornais e revistas. "O tema da vida após a morte já me interessava e eu tinha interesse em saber mais sobre os mortos do tsunami, então resolvi me aprofundar nessa pesquisa", disse.


Fantasmas

Um dos taxistas contou à estudante que, certa noite, encontrou uma menina sozinha e muito estranha. Perguntou onde estavam os pais dela e a garota respondeu que estava só. Ele se prontificou a levá-la para casa.

A menina ensinou o endereço e, quando chegaram ao local indicado, o motorista ajudou-a a descer do carro. A garota sorriu, agradeceu e, segundo conta o taxista, foi se desvanecendo na sua frente. "Ele garante que pegou na mão da menina e que conversou com ela", relatou Yuka.

Outro taxista contou à estudante ter pego uma passageira alguns meses depois da tragédia. Ela pediu para ser levada ao distrito de Minamihama, lugar que o taxista disse estar em destroços.

Segundo ele, a mulher disse ter perguntado então se ela havia morrido e, quando ele se virou para trás, não havia mais ninguém.

Outro motorista contou ter pego um jovem na casa dos 20 anos. Quando olhou pelo retrovisor, viu o rapaz apontado com o dedo para frente.

O taxista perguntou então insistentemente para onde ele queria ir. O passageiro teria indicado um lugar nas montanhas. Quando chegaram lá, o homem notou que não havia mais ninguém no carro.


Simpósio

O assunto dos fantasmas ganhou tanto destaque no Japão que a Universidade Tohoku Gakuin resolveu organizar um simpósio sobre o significado desses estranhos eventos na vida das pessoas, principalmente as que foram vítimas do terremoto seguido de tsunami.

Além de Yuka, participaram do encontro o jornalista e escritor Masashi Hijikata, que já publicou mais de 15 títulos sobre fantasmas e mensagens de pessoas mortas no tsunami, o monge budista Taio Kaneta e o professor e pesquisador de espiritualidade Iwayumi Suzuki, que conduz um estudo sobre fenômenos sobrenaturais e crenças.

O monge Kaneta contou ter sido consultado várias vezes sobre possessões e aparições. "Uma jovem me procurou desesperada, querendo se suicidar, porque não parava de ouvir vozes de pessoas mortas o dia todo", contou.

Ele diz que, nos atendimentos itinerantes que promove, ouve muitas histórias de espíritos que procuram por familiares, vizinhos e amigos. "O que importa não é saber se a pessoa acredita ou não em fantasmas, mas levar conforto e ouvir o que essas pessoas têm para contar", sugeriu.

Yuka disse que foi bastante criticada pelo seu trabalho, por trazer os relatos sem levar em consideração a saúde psicológica das pessoas.

"Mas a questão da minha pesquisa não é averiguar se espíritos existem ou não, ou se os motoristas estão doentes", rebateu Yuka. "Há um fenômeno sociológico aqui; existem pessoas que dizem ter visto os fantasmas".

Yuka disse esperar que sua pesquisa estimule outros profissionais a ajudar as vítimas. "Quero que essa pesquisa sobre pessoas que têm esse tipo de experiência seja reconhecida", afirmou ela.

A BBC Brasil conversou também com moradores e taxistas da região devastada pelo tsunami, mas nenhum deles disse ter visto fenômenos estranhos.

Mas muitos deles sabiam do assunto ou tinham ouvido relatos de pessoas que viram fantasmas.

"Eu não vi e não gosto de falar no assunto, pois tenho de dirigir à noite em lugares totalmente escuros", despistou um dos taxistas, aos risos. "Tenho medo e logo trato de esquecer essas conversas".

Segundo dados oficiais do governo japonês, 15.894 pessoas morreram no terremoto seguido de tsunami, que devastou o litoral nordeste do Japão no dia 11 de março de 2011. Outras 2.572 pessoas continuam listadas como desaparecidas.

Notícia publicada na BBC Brasil, em 26 de fevereiro de 2016.



Claudio Conti* comenta

Neste evento, entre mortos e desaparecidos, somam-se mais de dezoito mil pessoas. Após tanto tempo, podemos considerar que os desaparecidos devam ter morrido, porém, ainda não encontraram o corpo. Desta forma, mais de dezoito mil desencarnações simultâneas, ou quase simultâneas, em uma área relativamente pequena, concentrado em um local.

Uma conclusão, muito comum no movimento espírita atual, que vêm à mente diante de um quadro como este, é se tratar de uma expiação coletiva. Se este fosse o caso, um demorado planejamento deveria ter tido início há muitos anos, pois, dentre os mortos, haviam pessoas de todas as idades, desde as mais idosas até as mais jovens. Além do fato de que o terremoto também seria fruto deste mesmo planejamento.

Supondo, para fins do raciocínio que se pretende abordar, que a pessoa mais idosa a desencarnar neste evento tivesse completado setenta anos de idade. Assim, a Providencia teria iniciado há setenta anos um plano mórbido de direcionar espíritos para encarnar naquela região; setenta anos de um planejamento maquiavélico para que, em 11 de março de 2011, atingisse o ápice com a desencarnação destes mais de dezoito mil espíritos, além, não podemos nos esquecer, do trauma causado naqueles que sobreviveram e daqueloutros que tiveram toda sua família dizimada.

Confesso que eu, particularmente, não sou muito a favor deste tipo de teoria, pois, caso se tratasse realmente de expiação coletiva, estaríamos falando de pena de morte, mais precisamente de Deus aplicando a pena de morte em mais de dezoito mil espíritos de uma só vez, sem a possibilidade de se reformarem diante das tribulações da vida.

Toda a humanidade encarnada e desencarnada que esteja ligado à um mundo de expiação e provas, tal como a Terra, está sob processo expiatório. Desta forma, se vamos considerar o caso de expiação coletiva, devemos, na verdade, englobar toda humanidade terrena neste tipo de processo, no qual todos estão sujeitos aos dissabores que o mundo propicia, sejam eventos naturais ou criados pelo homem.

Tomemos a seguinte questão de O Livro dos Espíritos:

526. Tendo, como têm, ação sobre a matéria, podem os Espíritos provocar certos efeitos, com o objetivo de que se dê um acontecimento? Por exemplo: um homem tem que morrer; sobe uma escada, a escada se quebra e ele morre da queda. Foram os Espíritos que quebraram a escada, para que o destino daquele homem se cumprisse?

“É exato que os Espíritos têm ação sobre a matéria, mas para cumprimento das leis da Natureza, não para as derrogar, fazendo que, em dado momento, ocorra um sucesso inesperado e em contrário àquelas leis. No exemplo que figuraste, a escada se quebrou porque se achava podre, ou por não ser bastante forte para suportar o peso de um homem. Se era destino daquele homem perecer de tal maneira, os Espíritos lhe inspirariam a ideia de subir a escada em questão, que teria de quebrar-se com o seu peso, resultando-lhe daí a morte por um efeito natural e sem que para isso fosse mister a produção de um milagre.”

Devemos nos questionar que tipo de espírito inspiraria o homem a subir na escada que se quebraria: um bom espírito ou um mau, tal qual um obsessor? Podemos realmente imaginar um bom espírito sendo utilizado pela Providência para inspirar um encarnado à uma situação que culminaria em sua desencarnação? Como ficaria, então o seguinte aviso: “Ai do mundo por causa dos escândalos; pois é necessário que venham escândalos; mas, ai do homem por quem o escândalo venha.”?

Por fim, espíritos ligados ao planeta Terra são confusos, apresentam a mente em desalinho, e, por isto, podem se manter ligados ao plano físico, buscando, mesmo após a perda do corpo físico, os interesses da matéria, mesmo que tenham percebido a desencarnação.

Acredito que imputar-lhes faltas para justificar uma “expiação coletiva” somente servirá para dificultar ainda mais o estado em que se encontram.

* Claudio Conti é graduado em Química, mestre e doutor em Engenharia Nuclear e integra o quadro de profissionais do Instituto de Radioproteção e Dosimetria - CNEN. Na área espírita, participa como instrutor em cursos sobre as obras básicas, mediunidade e correlação entre ciência e Espiritismo, é conferencista em palestras e seminários, além de ser médium pscógrafo e psicifônico (principalmente). Detalhes no site www.ccconti.com.