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Dalai Lama sobre Paris: "não esperem ajuda de Deus"

8 de dezembro de 2015



Dalai Lama sobre Paris: "não esperem ajuda de Deus"



'Nossos problemas vão aumentar se não posicionarmos princípios morais à frente do dinheiro", disse o líder espiritual


Após os ataques terroristas em Paris, o líder espiritual tibetano disse à DW que não se pode esperar que Deus resolva os problemas criados pelos homens, e pede mais atenção a valores humanistas do que ao dinheiro.


Para seus milhões de devotos no mundo todo, o Dalai Lama, líder espiritual do povo tibetano, é a personificação da humanidade e da compaixão. Hoje aos 80 anos, Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama, foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 1989 e é conhecido por suas décadas de luta pela autonomia do Tibete.


Ele acredita que a sua tática do "caminho do meio", que evita extremismos, é a melhor maneira de resolver pacificamente a questão tibetana e promover a coexistência entre tibetanos e chineses. Dalai Lama fugiu para a Índia em 1959 e, desde então, vive no exílio em Dharamsala, uma cidade no estado indiano de Himachal Pradesh.


Em entrevista à DW, ele fala sobre seu papel como o Dalai Lama, a questão tibetana e o aumento da violência global.


DW: Como você avalia os ataques terroristas em Paris?
Dalai Lama:
  O século 20 foi violento, mais de 200 milhões de pessoas morreram devido a guerras e outros conflitos. Vemos agora o sangue derramado no século passado transbordar para este. Se dermos mais ênfase à não violência e à harmonia, poderemos proclamar um recomeço. A menos que façamos sérios esforços para alcançar a paz, continuaremos a ver uma reprodução do caos que a humanidade vivenciou no século 20.


As pessoas querem levar uma vida pacífica. Mas os terroristas têm vista curta, e esta é uma das causas dos desenfreados atentados suicidas. Não podemos resolver esse problema apenas através de orações. Eu sou budista e acredito na oração. Mas foram os seres humanos que criaram esse problema, e agora estamos pedindo a Deus para resolvê-lo. É ilógico. Deus diria: resolvam-no sozinhos porque vocês mesmos o criaram.


Precisamos de uma abordagem sistemática para fomentar valores humanistas, que promovam unidade e harmonia. Se começarmos agora, há esperança de que este século possa ser diferente do anterior. É do interesse de todos. Por isso, vamos trabalhar pela paz em nossas famílias e na sociedade, em vez de esperar pela ajuda de Deus, de Buda ou de governos.


Sua mensagem principal sempre foi de paz, compaixão e tolerância religiosa, mas o mundo parece estar indo na direção oposta. A sua mensagem não ressoou nas pessoas?
Eu discordo. Acho que apenas uma pequena porcentagem das pessoas adotaram o discurso da violência. Nós somos seres humanos, e não há base ou justificativa para matar outras pessoas. Se você considera os demais como irmãos e irmãs, e respeita seus direitos, não resta espaço para a violência.


Além disso, os problemas que estamos enfrentando hoje são resultado de diferenças superficiais entre crenças religiosas e nacionalidades. Somos um só povo.


Vemos líderes políticos obcecados com o crescimento econômico, mas que não se importam com a moralidade. Você se preocupa com essa tendência?
Nossos problemas vão aumentar se não posicionarmos princípios morais à frente do dinheiro. A moralidade é importante para todos, inclusive para religiosos e políticos.


Você diz que a abordagem do "caminho do meio" ("middle way") é a melhor maneira de resolver a questão tibetana. Você acha que sua estratégia acabará sendo bem sucedida?
Eu acredito que seja o melhor caminho. Muitos dos meus amigos, incluindo líderes indianos, americanos e europeus, acreditam que seja o caminho mais realista. No Tibete, ativistas políticos, intelectuais e estudantes chineses apóiam a nossa política do "caminho do meio".


Quando encontro estudantes chineses, digo-lhes que não estamos buscando a independência da China. Eles entendem a nossa abordagem e sentem-se próximos da nossa causa. Não é apenas no caso do Tibete; vivemos no século 21, e todos os conflitos devem ser resolvidos pelo diálogo, e não pela força.


Quem vai sucedê-lo como Dalai Lama?
Eu não estou preocupado com isso. Em 2011, anunciei oficialmente que seria uma escolha dos tibetanos manter ou não a instituição do Dalai Lama. Se as pessoas acharem que essa instituição deixou de ser relevante, ela deve ser abolida. Eu não estou mais envolvido em questões políticas, estou apenas preocupado com o bem-estar do Tibete.


A Índia está passando por um aumento da intolerância religiosa. O que pensa sobre isso?
Não é a imagem real da Índia. Apenas alguns indivíduos estão causando esse problema. As eleições no estado de Bihar provam que a maioria dos hindus acredita na harmonia e na coexistência.


Deutsche Welle


Notícia publicada no Portal Terra, em 17 de novembro de 2015.



Glória Alves* comenta


As palavras do Dalai Lama nessa entrevista à DW nos levam a profundas reflexões sobre Deus, as Leis Divinas e a eficácia da prece.


Nosso irmão, ao comentar sobre os ataques terroristas em Paris, diz que “foram os seres humanos que criaram esse problema, e agora estamos pedindo a Deus para resolvê-lo. É ilógico”. E ainda comenta: “Não podemos resolver esse problema apenas através de orações”.


Através dos ensinamentos e esclarecimentos da Doutrina Espírita, sabemos que “Deus é a Inteligência Suprema, causa primeira de todas as coisas”.(1)


Temos ainda grande dificuldade de compreender a Natureza íntima de Deus. A nossa imperfeição espiritual e a inferioridade das nossas faculdades não permitem que compreendamos o mistério da Divindade, e embora tenhamos avançado intelectualmente e moralmente, muitos de nós, ainda trazem em si uma concepção antropomórfica do Criador, atribuindo à Sua Natureza paixões e vícios que são humanos. Contudo, à proporção que vamos nos elevando acima da matéria, podemos formar ideia de algumas de suas perfeições pelo pensamento.


Deus é a Inteligência Cósmica que cria e sustenta a vida em todas as suas manifestações, tudo é criado pelo seu Pensamento Divino; “Ele está em toda a parte, tudo vê, a tudo preside, mesmo às coisas mais mínimas”.(2) Estamos sob o comando de Deus, nada fica fora do seu controle e sua ação providencial cuida de nós, seus filhos amados.


Vivemos mergulhados no Fluido Cósmico Universal (ou Plasma Divino) como peixes no oceano. “Em Deus nos movemos e existimos.”(3) Dessa maneira, “achamo-nos então, constantemente, em presença da Divindade; nenhuma das nossas ações lhe podemos subtrair ao olhar; o nosso pensamento está em contato ininterrupto com o seu pensamento, havendo, pois, razão para dizer-se que Deus vê os mais profundos refolhos do nosso coração. Estamos nele, como ele está em nós, segundo a palavra do Cristo”.(4)


Nós, criaturas em construção, a caminho da angelitude, podemos entrar em contato com a Fonte da Vida através da prece, nos colocarmos em sua presença pela elevação do pensamento, pela elevação da nossa alma. Podemos orar por nós mesmos ou por outrem, pelos vivos ou pelos mortos. Levarmos a Ele nossas aflições, nossas dores, nossas súplicas, sejam elas quais forem.


Quantas vezes nossa imprudência nos arruína! Estamos chegando no final do ano e, sabemos que as lojas ficam lotadas, as pessoas correm de um lado para o outro, em busca dos seus objetos de desejo. Compramos, compramos e compramos... Gastamos todo o crédito do cartão. No mês seguinte vem a conta para ser paga e não conseguimos quitar a dívida. Desesperados, pedimos a Deus e aos Bons Espíritos que nos ajudem a resolver o nosso problema.


Assim, os males da vida podem ser divididos em duas partes: os males que o homem não pode evitar e os que são consequência do seu caráter e do seu modo de proceder, pela sua incúria ou por seus excessos. Observamos, então, que a segunda, em quantidade, excede de muito a primeira. Portanto, se torna evidente que “o homem é o autor da maior parte das suas aflições, às quais se pouparia, se sempre obrasse com sabedoria e prudência”.(5) Derivam as nossas misérias das infrações às leis de Deus, se somos infelizes é porque delas nos afastamos.


Apesar disso, temos o direito de pedir a Deus que resolva os nossos problemas? Deus não resolve os problemas para nós, e principalmente da maneira que desejamos ou achamos que deva ser feito. Não basta pedir ajuda a Deus, é preciso buscar, conforme o ensino de Jesus: “Buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á.” Devemos, portanto, fazer a nossa parte, que Deus nos ajudará no que não estiver ao nosso alcance resolver.


“Deus é soberanamente justo e bom. A providencial sabedoria das leis divinas se revela nas mais pequeninas coisas, como nas maiores, não permitindo essa sabedoria que se duvide da sua justiça, nem da sua bondade. Só o nosso bem, portanto, pode ele querer, donde se segue que devemos confiar nele: é o essencial.”(6)


“E, tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis”, disse Jesus.(7)


E então, diante da dor, do sofrimento, de um problema qualquer gerados por nós mesmos, podemos orar e pedir o auxílio de Deus para a solução das nossas aflições, e Ele pode nos conceder o que pedimos, quando o pedido tenha um fim útil e sério. O Senhor atende àquele que ora com fervor, enviando sempre os bons Espíritos para nos intuir, nos inspirar a ideia necessária para nos desembaraçarmos por nós mesmos das dificuldades que enfrentamos.


A prece não esconde, porém, as nossas faltas. Coloquemo-nos humildemente diante do Pai e reconheçamos as nossas fraquezas e a nossa inferioridade. “Desde que o culpado clame por misericórdia, Deus o ouve e lhe concede a esperança. Mas, não basta o simples pesar do mal causado; é necessária a reparação, pelo que o culpado se vê submetido a novas provas em que pode, sempre por sua livre vontade, praticar o bem, reparando o mal que haja feito.”(8)


Precisamos nos autoconhecer para combatermos em nós os vícios e as paixões más que ainda trazemos em nossa alma, pois Deus nos concede o perdão das faltas que cometemos se nos arrependermos e mudarmos de conduta.


“Não podemos resolver esse problema apenas através de orações”, diz o Dalai Lama, referindo-se ao problema do terrorismo. “As boas ações são a melhor prece, porque os atos valem mais do que as palavras.”(9) Sobre essa afirmativa do Dalai Lama, vejamos essa mensagem de Joanna de Ângelis:


“Narra Leão Tolstoi que um sacerdote convidou um lavrador a orar, e este, que se encontrava na gleba laborando, respondeu não poder acompanhá-lo à oração porque arava. Após meditar, obtemperou o ministro da fé religiosa: fazes bem, pois que arar é também orar...


A estória criada pelo eminente filósofo e moralista cristão tem plena aplicação na atualidade. Ante um mundo aturdido qual o dos nossos dias, a cada instante espíritos desarvorados bradam: mais ação, menos oração. Deixemos a prece, usemos o trabalho. A miséria necessita de pão e socorro, não de palavras e orações... Hoje, no entanto, como em todos os tempos, o utilitarismo esquece a previdência e o instantâneo é responsável pelas consequências funestas e graves, que advirão mediatas.


Sem dúvida, a ação edificante é geratriz da mecânica do progresso e da felicidade dos povos. Todavia, convém não olvidarmos que a oração é o lubrificante da máquina da vida. Nem oração sem ação, nem atividade sem prece. A medida ideal, evidentemente, será orar antes de atuar para que a ação imprevidente não conduza o desassisado à oração do desespero.


Com ponderação afirmamos que nada pior do que o idealismo desenfreado a estrugir nas mentes imaturas de muitos homens. Nesse sentido, faz-se recomendável a reflexão e em particular a oração que enseja intercâmbio com as fontes luminosas da vida, produzindo equilíbrio e inspiração para o desenvolvimento da ação. Arar, pois, é orar também”.(10)


A oração é um benefício que só atingirá o objetivo que desejamos quando aliada à ação. Desejamos um mundo melhor, de paz e fraternidade. Devemos, então, trabalhar em nós, em primeiro lugar, a paz e o amor, para em seguida esparzirmos os dons divinos do amor em benefício do próximo e vivermos a paz tão sonhada para o nosso mundo.


“A sua paz interior é capaz de neutralizar o ódio de muitas criaturas. Se você mantiver acesa a chama da paz em sua intimidade, então podemos acreditar que a paz mundial está bem próxima. Porque, na verdade, a paz do mundo começa no íntimo de cada um de nós.”(11)



Referências bibliográficas:


(1) “O Livro dos Espíritos” - Q.1;


(2) “A Gênese”, cap. II – Deus - Item 20;


(3) “Atos” - Paulo de Tarso, 17:28;


(4) Idem 2, item 24;


(5) “O Evangelho Segundo o Espiritismo” – cap. XXVII – item 12;


(6) Idem 2, Item 30;


(7) Mateus, 21:22;


(8) Idem 5 – item 21;


(9) Idem 1 – Q.641;


(10) “Arar orando” - “A Prece Segundo os Espíritos” – Divaldo Franco - Diversos Espíritos;


(11) Equipe de Redação do Momento Espírita, com base em mensagem do Espírito Emmanuel, do livro “Urgência”, psicografia de Francisco C. Xavier.


* Glória Alves nasceu em 1º de agosto de 1956, na cidade do Rio de Janeiro. Bacharel e licenciada em Física. É espírita e trabalhadora do Grupo Espírita Auta de Souza (GEAS). Colaboradora do Espiritismo.net no Serviço de Atendimento Fraterno off-line e estudos das Obras de André Luiz, no Paltalk.