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Óciofobia: quando o tédio é a melhor coisa que pode te acontecer

26 de novembro de 2015



Óciofobia: quando o tédio é a melhor coisa que pode te acontecer



Jaime Rubio Hancock


O psicólogo Rafael Santandreu começa a receber nesta época pacientes que têm pânico das férias. Passar um mês sem fazer nada é aterrorizante: muitos até precisam tomar ansiolíticos. Não é tão raro como parece. Peter Toohey insere em Boredom: A Lively History (Tédio: uma História Animada, em tradução livre) um postal que recebeu em um mês de agosto: “Passei férias maravilhosas. Choveu o tempo todo. Não tive de levar as crianças à praia nem uma única vez. Pude concluir um monte de trabalho”.


“Em nossa sociedade há fobia do tédio”, explica a Verne Santandreu, autor de Las Gafas de la Felicidade (Os Óculos da Felicidade, em tradução livre). Ele não exagera: o tempo vazio assusta tanto, que 25% das mulheres e 66% dos homens fechados em um aposento durante 15 minutos preferem receber uma leve descarga elétrica em vez de ficar sem fazer nada, segundo assinala a Scientific American. Qualquer coisa vale para matar o tempo. Como diz Toohey em seu livro, de cara há motivos para temer o tédio. O tédio crônico está associado a um maior risco de “desenvolver ansiedade, depressão, dependência de álcool ou drogas, ataques de ira, comportamento agressivo e carência de habilidades interpessoais, além de resultados ruins no trabalho e na escola”.


Encontramos um exemplo de quase tudo ao mesmo tempo em Jack Torrance, o protagonista de O Iluminado. Fechado em um hotel durante todo o inverno com sua família, é incapaz de superar seu alcoolismo e escrever seu romance, e cai vítima de um tédio que o leva às alucinações, à ira e a abrir portas com um machado.


“Não existe o excesso de tédio”, afirma Santandreu. “Existe uma má vivência do estar entediado.” O psicólogo compara isso a uma superstição: se você tem medo de que um gato preto cruze na sua frente, você passará mal quando tal coisa acontecer, mas isso não significa que um gato preto de verdade provoque má sorte.


O tédio, como o pobre gato, não tem nada de mau. Segundo Santandreu, “é muito importante recuperar o prazer de não fazer nada”. O tédio faz parte de “nossa natureza, nos põe em um estado mental de calma e de felicidade e é um grande ativador de grandes tarefas”. Santandreu recorda uma frase de Blaise Pascal que teria caído bem a Torrance e aos participantes no estudo das descargas elétricas. “Todos os males dos homens vêm de uma só coisa: não saber ficar tranquilos em um aposento.”


Temos de aprender a desfrutar esses instantes em que não fazemos nada ou não há nada que possamos fazer. Desde a infância. “As crianças são superestimuladas”, diz Santandreu. “Não sabem entediar-se e isso pode provocar um aumento ou uma piora do transtorno por déficit de atenção.” Santandreu até mesmo sugere que nas escolas as crianças deveriam dedicar tempo a “não fazer nada, a olhar a parede durante uma hora” para perder o medo do enfado. O próprio psicólogo explica que os 15 minutos que tem livres entre um paciente e outro dedica a “olhar pela janela”.


Não fazer nada serve para muita coisa. Toohey cita uma pesquisa na qual se afirma que o tédio “pode conter um potencial importante de reflexão e pode ser um estímulo à criatividade”. O fastio nos permite sonhar acordados e imaginar soluções e alternativas. É “uma oportunidade para o pensamento e a reflexão ou o relaxamento”. Lars Svendsen acrescenta em Filosofía del Tedio que essa sensação de enfado “pressupõe um momento de reflexão sobre si mesmo, de contemplação da própria situação no mundo”.


Santandreu vai mais longe: tudo isso soa muito bem, mas se nos entediamos sem obter nenhuma vantagem positiva em troca, “qual seria o problema? O objetivo da vida não é produzir constantemente bens tangíveis ou intangíveis”. O psicólogo recomenda “cortar e reduzir a velocidade”. Ou seja, “prescindir de tarefas, de meios” e “fazer as coisas mais devagar e prestando mais atenção”.


Santandreu relaciona a má fama do tédio com a sociedade do consumo e do ócio, que quer que sempre estejamos “ocupados ou fazendo coisas emocionantes”. Nesse sentido, Toohey recorda que “o tempo livre, para Adorno, é conduzido pela mesma comercialização que o tempo do trabalho: o trabalho gera benefícios e o tempo livre tem de fazer o mesmo”.


Segundo Santandreu, a Internet é um dos principais responsáveis pela óciofobia, para usar o termo cunhado pelo próprio psicólogo: “É uma fornecedora de informação avassaladora”. Em muitos casos se trata de conteúdos pensados para “durar pouco tempo, e de um uso muito limitado”.


A Internet não está só: “A obsessão de nossa cultura com fontes externas de entretenimento – a televisão, a Internet, os videogames – poderia desempenhar um papel no incremento do tédio”, escrevia Anna Gosline na Scientific American. De fato, a Internet tem a vantagem da ubiquidade. Pegamos o celular tão logo chegamos no ponto do ônibus ou buscamos algo para fazer com nosso tablet enquanto transcorrem as horas do domingo. Fazemos isso com tanta frequência que o Google até completa a busca com referências ao tédio quando começamos a lhe perguntar por coisas que podemos fazer.


E isso apesar de que a Internet nem sempre nos diverte. Às vezes é como uma descarga elétrica em um cômodo vazio: só é um meio com o qual tentamos matar o tempo. Segundo dados do Google e da Microsoft citados por Nicholas Carr em What Should We Be Worried About (Sobre o que Deveríamos nos Preocupar, em tradução livre), começamos a abandonar uma página se levar mais de 250 milissegundos para ser baixada e deixamos de ver um vídeo se leva dois segundos para começar. Temos tanto pânico de nos entediar que fugimos quando vemos uma tela escura.


“À medida que uma rede se torna mais rápida, nós nos tornamos mais impacientes”, escreve Carr. “O fenômeno se amplifica pelo zunido constante do Facebook, Twitter, as mensagens de texto e as redes sociais em geral.” É cada vez menos provável que “experimentemos qualquer coisa que requeira uma espera, que não nos proporcione uma gratificação instantânea”.


Não sabemos esperar porque não queremos viver em um presente constante, como sugere Douglas Rushkoff em Present Shock: When Everything Happens Now (Choque Presente: Quanto Tudo Acontece Agora, em tradução livre): nosso objetivo ilusório é estar em dia com todas as atualizações de redes sociais e correios eletrônicos “para estar finalmente no agora”. Não nos permitimos um instante vazio: se não estamos olhando o celular, é o próprio telefone que requer nossa atenção com vibrações e alertas sonoros. Como escreve Svendsen, nós nos negamos a abandonar o mundo mágico da infância, “cheio de coisas novas e emocionantes. Ficamos suspensos em um estado intermediário entre a meninice e a maturidade, em uma puberdade sem fim”, esquecendo que “a puberdade está cheia de tédio”.


O poeta russo-norte-americano Joseph Brodsky escreveu uma exaltação ao tédio que talvez seja o texto mais citado sobre o tema. Sua solução para o medo que o tédio nos produz é nos rendermos: “Sempre que fores atingido pelo tédio, deixa-te ser esmagado por ele; submerge, bate no fundo. Em geral, com as coisas desagradáveis a regra é: quanto mais cedo bateres no fundo, mais rápido voltas à tona”. O tédio “representa o tempo em toda sua pureza, em toda sua repetição, supérfluo e monótono esplendor”. “Põe a tua existência em perspectiva e o resultado líquido é precisamente o conhecimento e a humildade.”


Matéria publicada no Jornal El País, em 15 de setembro de 2015.



Claudia Cardamone* comenta


A questão do ócio/trabalho é uma questão sociocultural. Antigamente, até próximo da Idade Média, os homens trabalhavam para produzir algo, e este produto era administrado por ele. O trabalho manual era visto como algo degradante, pois ele negava a possibilidade do ócio, do tempo livre e do lazer. Após a reforma protestante o ócio passou a ser visto como a negação de Deus, era preciso honrar a Deus com o trabalho.


Com o avanço tecnológico, o homem passou a trabalhar cada vez mais, ele não tem mais tempo a perder, como se os momentos de lazer e de ócio não fossem algo, mas apenas a ausência de trabalho. Para a doutrina espírita, o trabalho é uma lei natural, tudo trabalha na natureza, porém o homem tem também a necessidade de repouso, pois é necessário reparar as forças e também dar um pouco de liberdade à inteligência.


É fundamental pararmos para refletir, perceber o que estamos fazendo e como. Lembremos do que disseram os Espíritos na questão 254 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec: “[...] o espírito repousa, no sentido de não permanecer numa atividade constante[...]”. Quando falamos em ócio não queremos falar em não se fazer absolutamente nada, mas em fazer outras coisas.


Infelizmente as coisas acontecem num tal ritmo que não percebemos o quanto estamos imersos nesta constante e torturante necessidade de fazer algo. Parar nos angustia; pensar e refletir, se enxergar é algo que buscamos evitar cada vez mais. Proporcione a si momentos de ócio criativo, pare para ler, pintar ou simplesmente contemplar esta magnífica natureza.


* Claudia Cardamone nasceu em 31 de outubro de 1969, na cidade de São Paulo/SP. Formada em Psicologia, pelas FMU, e em Pedagogia, pela UNISUL. Reside atualmente em Santa Catarina, onde trabalha como professora. É espírita e trabalhadora do Grupo União e Amor de Formação Espiritual, em Paulo Lopes/SC.