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Curso faz participantes ficarem dentro de caixões para que reflitam sobre o suicídio


30 de novembro de 2015


Curso faz participantes ficarem dentro de caixões para que reflitam sobre o suicídio


A experiência próxima da morte tem como objetivo mostrar às pessoas que a vida fora do caixão pode ser bonita

por João Mello Bourroul

Em 2012, 39 sul-coreanos se mataram por dia. O número chama a atenção: não se trata de uma questão meramente econômica ou social – muito embora esses aspectos contribuam para o quadro geral – mas sim de algo invisível, sem nome e que fica em algum lugar bem dentro de nós.

Como uma tentativa de enfrentar esse problema de maneira objetiva e íntima, um curso está sendo ministrado em Seul, a capital do país, com a intenção de mostrar que a vida pode ser esquisita, mas também pode ser bela. E essa beleza não vem de fora, e sim desse mesmo lugar invisível e sem nome dentro de cada um de nós.

O curso acontece em uma sala com vários caixões enfileirados. As pessoas se sentam ao lado de cada um deles para ouvir a fala de Jeong Yong-mun, a mestre de cerimônias, e depois são convidadas a experimentar brevemente o interior do caixão para que uma “foto de funeral” seja tirada.

Depois do retrato elas devem escrever um texto com suas derradeiras palavras para os entes queridos. A leitura em voz alta o suficiente para que todos os colegas da sala possam ouvir o conteúdo é parte essencial do processo. Luzes se apagam e velas são acesas antes do início da última etapa, que consiste em passar dez minutos dentro do caixão fechado.

No final das contas a ideia é basicamente fazer com que as pessoas desistam de se matar. A leitura do texto em voz alta, por exemplo, escancara como o suicídio afetaria as pessoas que nós amamos e que continuarão aqui depois da nossa partida. É comum que as pessoas chorem nessa etapa.

O principal público-alvo do processo ministrado pelo Seoul Hyowon Healing Centre é de idosos que se autopenitenciam por se considerarem um fardo para suas famílias. Quando comparados aos outros 33 países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), idosos sul-coreanos cometem quatro vezes mais suicídio.

Via Agence VU

Matéria publicada na Revista Galileu, em 30 de outubro de 2015.


Glória Alves* comenta

Todos já ouvimos falar da Coreia do Sul ou República da Coréia. Se não a conhecemos pessoalmente, pelos menos conhecemos os seus produtos eletroeletrônicos que estão em nossas casas ou diariamente em nossas mãos. O país também é conhecido pelas histórias em quadrinhos (manhwas) e pela música (k-pop).

Em pouco mais de 30 anos, a Coreia deixou de ser um país subdesenvolvido e se transformou num dos chamados "Tigres Asiáticos", grupo de países, localizados na Ásia, e que tiveram grande crescimento econômico nas últimas décadas. A Coreia do Sul está entre as dez maiores economias do mundo.

No entanto, ao lado desse progresso, figura o grande número de suicídios cometidos pelos sul coreanos; conforme a notícia publicada no site da Revista Galileu, “em 2012, 39 sul coreanos se mataram por dia. Nessa estatística estão os jovens, levados por pressões do sistema educacional rígido e da alta competição do mercado de trabalho, e os idosos, “que se autopenitenciam por se considerarem um fardo para suas famílias”.

Realmente a quantidade de autocídio chama atenção, num país onde o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é o 12º do mundo; há tanto conforto, alimentação, trabalho, alta tecnologia e educação para todos, é um paradoxo. Os fatores socioeconômicos e as questões psicossociais como “a desintegração da família, a perda das tradições, a solidão em grupo social volumoso, contribuem para o aumento dos distúrbios da emoção e de transtornos psíquicos mais severos”.(1)

Ao mesmo tempo que a busca desenfreada das aspirações profissionais, resultando em ansiedades, sofre o ser humano também pelo sonho do poder, e do ter... e então, o ser desfalece diante do “vazio que as conquistas externas proporcionam ao seu interior, que não se sente preenchido de objetivos reais”,(2) pois o sentido da vida não está em conquistarmos coisas materiais ou situações de destaque passageiros.

Em consequência, vem o tédio, o desânimo, e esse sentimento de desânimo começa com uma tristeza pertinaz, silenciosa que a pouco e pouco vai enfraquecendo a vontade, e o ser se entrega a autodestruição, sem perceber que há uma luz no final do túnel do sofrimento, levando dor aos familiares e à sociedade. Esse é o algo invisível e sem nome que nos fala a matéria e que leva tantos irmãos ao suicídio, é a depressão; ela que fica em algum lugar bem dentro de nós, no Espírito. Moléstia invisível e silenciosa, toma conta da sociedade terrestre, mina as esperanças, provocando o desinteresse pela vida.

A intenção do curso, de mostrar que há dentro de nós um lugar no qual podemos buscar a beleza da vida, de fazer com que as pessoas desistam de se matar, é boa, mas não é só isso, cabe, contudo, entendermos, acima de tudo, que somos Espíritos, e dessa maneira devemos nos ver, o corpo material é apenas uma vestimenta, e quando estiver rota e não servir mais, a deixaremos, e livres voaremos na direção do Infinito. Somos responsáveis pelas nossas atitudes, perante nós mesmos, e responderemos por cada ato que cometamos contrário às leis divinas.

A civilização, obra de Deus, é o progresso ainda incompleto, não é culpada pelos nossos sofrimentos, pela violência, pelos crimes hediondos, pelas corrupções, pelo terrorismo, pelo descaso dos governantes, pelo mal em nosso mundo. O problema está em nós, criaturas humanas, que ainda não sabemos amar. Educados para o ter e o poder, vivemos numa guerra silenciosa uns contra os outros, buscando prestígio, bens materiais, comodidade e prazeres imediatos, e esquecemos que a nossa existência na Terra é passageira, nossa verdadeira vida é a espiritual e não estamos aqui a passeio. Temos uma missão conosco mesmo, progredir, adquirir a sabedoria e o amor.

“O progresso é a aspiração pelo melhor, pelo belo, pelo bem; é a prova da existência em nós de um princípio superior, de alguma coisa grandiosa, quase divina, que nos encaminha para destinos mais altos, que nos lança sempre para frente, nos domínios do pensamento e da consciência.”(3)

Somos Espíritos imortais, ainda imperfeitos, a caminho da angelitude, e para alcançarmos a pureza espiritual precisamos sofrer a prova de uma nova existência. A reencarnação é a Justiça de Deus, é a porta aberta que o Pai Onipotente nos deixa, para que através do arrependimento possamos alcançar a felicidade plena, felicidade que não encontramos aqui na Terra.

Deste modo, colocados pelo Criador num mundo de provas e expiações, mundo condicente com a nossa evolução moral, é que passo a passo vamos concluindo o aprendizado das Suas leis. Esclarecem os Espíritos Superiores a Allan Kardec que “todos temos que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal e nisso está a expiação”.(4)

Eles ainda ressaltam que a encarnação tem ainda outro fim: “o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação”. (O Livro dos Espíritos, pergunta 132.) Portanto, depreendemos que a vida é um dom divino e não temos o direito de interromper essa dádiva, pois “só a Deus assiste esse direito; o suicídio voluntário importa numa transgressão desta lei”.(5) Nem mesmo o sofrimento mais atroz, os desgostos da vida, são escusas para cometermos o ato infame do suicídio, mesmo no caso dos nossos irmãos sul coreanos, idosos relegados à própria sorte.

Destacamos da matéria também que esses idosos se consideram um fardo para as suas famílias. A Doutrina Espírita nos ensina que “o homem tem o direito de repousar na velhice”. (O Livro dos Espíritos, pergunta 685.) E que “o forte deve trabalhar para o fraco; e não tendo este, família, a sociedade deve fazer as vezes desta. É a lei de caridade”.(6)

Porém o orgulho e o egoísmo, que causam a secura do coração, muita vez andam de braços dados com alguns filhos, visto tantos pais abandonados em asilos ou em suas próprias casas.

“O mandamento: “Honrai a vosso pai e a vossa mãe” é um corolário da lei geral de caridade e de amor ao próximo”, e “não consiste apenas em respeitá-los; é também assisti-los na necessidade; é proporcionar-lhes repouso na velhice; é cercá-los de cuidados como eles fizeram conosco, na infância. Sobretudo para com os pais sem recursos...”(7)

Não nos esqueçamos: ontem fomos filhos, hoje somos pais. “Ai, pois, daquele que olvida o que deve aos que o ampararam em sua fraqueza, que com a vida material lhe deram a vida moral, que muitas vezes se impuseram duras privações para lhe garantir o bem-estar. Ai do ingrato: será punido com a ingratidão e o abandono; será ferido nas suas mais caras afeições, algumas vezes já na existência atual, mas com certeza noutra, em que sofrerá o que houver feito aos outros.”(8)

“Os motivos de suicídio são de ordem passageira e humana; as razões de viver são de ordem eterna e sobre-humana. A vida, resultado de um passado completo, instrumento de futuro, é, para cada um de nós, o que deve ser na balança infalível do destino. Aceitemos com coragem suas vicissitudes, que são outros tantos remédios para as nossas imperfeições, e saibamos esperar com paciência a hora fixada pela Lei equitativa para termo da nossa permanência na Terra.”(9)


Referências bibliográficas:

(1) Entrega-te – Pandemia depressiva;

(2) Idem;

(3) O Progresso – Léon Denis;

(4) O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - Pergunta 132;

(5) O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - Pergunta 944;

(6) O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - Pergunta 685 (a);

(7) O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec – Cap. XIV – Honrai a vosso pai e a vossa mãe;

(8) Idem;

(9) O Problema do Ser, do Destino e da Dor – Léon Denis.

* Glória Alves nasceu em 1º de agosto de 1956, na cidade do Rio de Janeiro. Bacharel e licenciada em Física. É espírita e trabalhadora do Grupo Espírita Auta de Souza (GEAS). Colaboradora do Espiritismo.net no Serviço de Atendimento Fraterno off-line e estudos das Obras de André Luiz, no Paltalk.