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Dentista que matou leão no Zimbábue já foi condenado por caça ilegal nos EUA


14 de agosto de 2015


Dentista que matou leão no Zimbábue já foi condenado por caça ilegal nos EUA


Dois homens acusados de participar da caçada e da morte de Cecil, o leão mais famoso do Zimbábue, compareceram a um tribunal do país africano nesta quarta-feira, onde responderão por caça ilegal.

O caçador profissional Theo Bronkhorst e o fazendeiro Honest Ndlovuum podem pegar até 15 anos de prisão no Zimbábue caso sejam condenados.

O dentista norte-americano, Walter Palmer, também acusado de estar envolvido na morte de Cecil, poderá responder pelo mesmo crime.

Apesar de declarar 'desconhecimento' sobre a área de caça ilegal, o dentista já respondeu por crimes similares nos Estados Unidos.

Em 2006, ele foi condenado a pagar uma multa de US$ 3 mil após ter matado um urso-negro no Estado de Wisconsin.

Palmer havia caçado o animal fora de uma região autorizada e chegou a alegar que tinha matado o urso em outra região.

Outros registros no Conselho de Odontologia de Minnesota dão conta de que Palmer já foi acusado de assédio sexual no passado. Sua recepcionista alegou que ele fez 'comentários indecentes' para ela em 2006. O dentista não admitiu o crime, mas concordou em pagar a ela mais de US$ 127 mil.

Walter Palmer também tinha um histórico de caça a grandes animais e costumava publicar fotos deles mortos no Facebook, exibindo-os como troféus. Em uma delas, ele posa ao lado de um colega com um leão morto após um dia de caça.


Caso

Segundo ambientalistas do Zimbábue, o dentista pagou US$ 50 mil (cerca de R$ 170 mil) para matar o leão mais famoso do país.

De acordo com a Força de Preservação do Zimbábue (ZCTF, na sigla em inglês), Palmer alvejou o animal com flechas lançadas por uma besta e um rifle.

Em declaração divulgada na terça, Palmer admitiu participação na caçada, mas disse que pensava que tudo estava legalizado.

O leão, chamado Cecil, foi depois degolado e teve a pele arrancada, segundo a ZCTF.

Palmer afirma ter pensado que "tudo estava legal e devidamente gerenciado" e disse que confiou na experiência de guias profissionais para "garantir uma caça legal".

"Eu não tinha ideia até o final da caçada que o leão que abati era conhecido e estimado localmente e que usava um colar como parte de um estudo", afirma.

"Eu me arrependo profundamente que minha busca por uma atividade que amo e pratico de forma responsável e legal tenha resultado no abate desse leão."


Reação furiosa

O consultório de Palmer estava fechado na terça-feira, e um aviso na porta direcionava os visitantes a uma empresa de relações públicas, segundo a imprensa local. A página do dentista no Facebook foi apagada após ser alvo de comentários raivosos, e o site do consultório também saiu do ar.

Ainda assim, outras páginas surgiram nas redes sociais para condenar a atitude do dentista. Um grupo público no Facebook com mais de 500 membros foi criado com o nome "Walter Palmer deveria ser processado" e tem comentários de pessoas indignadas com o ocorrido.

O Zimbábue, como muitos países africanos, luta para coibir a caça ilegal que ameaça a vida selvagem da região. O leão Cecil, de 13 anos, era uma grande atração turística do parque nacional Hwange, o principal do país.

Estima-se que ele tenha sido morto no último dia 1º, mas a carcaça só foi descoberta dias depois.

A ZCTF afirmou que o grupo usou iscas para atrair o leão para fora do parque, durante uma perseguição noturna. Palmer teria atingido Cecil com flechas, ferindo o animal. O grupo só teria encontrado o animal 40 horas depois, quando Cecil foi morto com disparo de arma de fogo.

O felino tinha um colar GPS como parte de um projeto de pesquisa da Universidade de Oxford, que permitia mapear sua movimentação. Os caçadores tentaram destruir o aparelho, sem sucesso, segundo a ZCTF.

Na última segunda-feira, o chefe da ZCTF afirmou à BBC que Cecil "nunca incomodou ninguém".

"Ele era um dos animais mais belos de se observar", disse Johnny Rodrigues.

Os seis filhotes de Cecil agora deverão ser mortos pelo novo macho do grupo, disse Rodrigues, para estimular as fêmeas a cruzar com ele.

"Isso é como a coisa funciona na natureza selvagem. É a natureza seguindo seu curso", afirmou.

Notícia publicada na BBC Brasil, em 29 de julho de 2015.


Jorge Hessen* comenta

A Safari Club International é uma organização que luta pelos “direitos dos caçadores”. Qual o objetivo e o que determina alguma pessoa a gastar muito dinheiro para caçar um animal selvagem? Será apenas para demonstração de poder e prestígio? Isso é psicopatia e selvageria! O antropólogo Michael Gurven, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, estuda tribos de caçadores e coletores na Amazônia e ressalta o paradoxo entre caças “esportivas” e as caças para sobrevivência. Os nativos caçam animais porque não tem escolha para se alimentar. Portanto, há uma brutal diferença com caçadores que chegam a pagar US$55 mil dólares para matar um animal da selva meramente por prazer.(1)

Allan Kardec, ao indagar dos Benfeitores sobre o “direito” de destruição sobre os animais, foi esclarecido que tal “direito” [caça] se acha regulado pela necessidade, que o homem tem, de prover ao seu sustento e à sua segurança. O abuso jamais constitui direito.(2) Quando a caça ultrapassa os limites que as necessidades e a segurança traçam e quando não objetiva senão o prazer de destruir sem utilidade, há “predominância da bestialidade sobre a natureza espiritual. Toda destruição que excede os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus. Os animais só destroem para satisfação de suas necessidades; enquanto que o homem, dotado de livre-arbítrio, destrói sem necessidade. Terá que prestar contas do abuso da liberdade que lhe foi concedida, pois isso significa que cede aos maus instintos.”(3)

Compondo aqui uma síntese de O Livro dos Espíritos a respeito do universo animal e humano, inteiramo-nos que os animais possuem uma espécie de inteligência instintiva e limitada. Eles detêm a consciência de sua existência e de suas individualidades. Alguns animais agem denotando acentuada vontade, porque apresentam inteligência, embora restrita. Há seres “irracionais” que praticam atos combinados que denunciam vontade de agir em determinado sentido e de acordo com as circunstâncias. Há, pois, neles, uma espécie de inteligência, mas cujo exercício quase que se circunscreve à utilização dos meios de satisfazerem às suas necessidades físicas e de proverem à própria conservação.

Os animais se comunicam entre si, conservando uma espécie de linguagem circunscrita às suas necessidades. Até mesmo os peixes se entendem entre si. Como pronunciei, a linguagem do animal é instintiva e circunscrita pelas suas necessidades biológicas. Os peixes que, como as andorinhas, emigram em grupos (cardumes), obedecem ao guia que os conduz. Certamente possuem meios de se avisarem, de se entenderem e combinarem ações conjugadas. É possível que disponham de uma vista mais penetrante e esta lhes permita perceber os sinais que reciprocamente façam.

Portanto, os animais não são simples máquinas, a despeito de a liberdade que têm permanecer limitada aos atos da vida material. Porém, após a morte, os animais conservam a sua individualidade, no entanto, não mantêm a consciência de si mesmos, inobstante sua vida inteligente lhe permanece em estado latente em face da ausência do livre-arbítrio. Desta forma, eles permanecem numa espécie de erraticidade após a morte, sendo distribuídos pelos Espíritos incumbidos dessa tarefa e “aproveitado” (no processo reencarnatório) quase imediatamente. Não lhe sendo dado tempo de entrar em relação delongada com outras criaturas no além.

Outro aspecto importante sobre os animais é que eles evoluem tanto quanto os homens, embora não por ato da própria vontade (não têm livre-arbítrio), mas pela força das circunstâncias, razão por que não estão sujeitos à expiação. Em verdade os animais só possuem a inteligência rude da vida material, enquanto no homem, a inteligência essencialmente proporciona a vida moral.(4) Para maiores detalhamentos sobre o tema, os próprios Espíritos estão longe de tudo saberem e ressalte-se que acerca do que não sabem também podem ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas. É assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma quanto às relações existentes entre o homem e os animais no aspecto evolutivo.

Considerando a lei de evolução, para alguns Espíritos, o princípio espiritual não chega ao período humano senão depois de se haver elaborado e individualizado nos diversos graus dos seres inferiores da Criação. Segundo outros Benfeitores espirituais, o Espírito do homem teria pertencido sempre à raça humana, sem passar pela fieira animal. Diante disso, cabe a indagação: Qual a origem do Espírito? Onde o seu ponto inicial? Forma-se do princípio inteligente individualizado?

Para Allan Kardec tudo isso são mistérios que fora inútil querer devassar e sobre os quais nada mais se pode fazer do que construir hipóteses. Quanto às relações misteriosas que existem entre o homem e os animais está nos mistérios de Deus, como muitas outras coisas, cujo conhecimento atual é pouco importante para o progresso humano e sobre as quais seria inútil determo-nos.


Referências bibliográficas:


(2) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed. FEB, 2001, questão 734;

(3) Idem, questão 735;

(4) Idem, pergs. 585 a 602.

* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.