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Número de pobres no Japão cresce; brasileiros também vivem apuros


16 de maio de 2015


Número de pobres no Japão cresce; brasileiros também vivem apuros


Ewerthon Tobace
De Tóquio para a BBC Brasil

Quando deixou Taubaté (SP), há dez anos, acompanhando o ex-marido numa jornada rumo ao Japão, Priscilla Aparecida Pereira Gonçalves, de 36 anos, vislumbrava uma vida melhor.

Após apenas um ano de trabalho em fábricas japonesas, ela conseguiu pagar as dívidas acumuladas de um pequeno restaurante que tinha na cidade paulista.

Mas hoje, separada e desempregada, os tempos de aperto voltaram e a brasileira tem dificuldades para pagar todas as contas com os cerca de R$ 2.700 que recebe mensalmente de seguro-desemprego.

Para o governo japonês, Priscilla faz parte de um contingente que vem crescendo no país: o de pobres.

Segundo um levantamento divulgado recentemente pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, 16,1% da população do Japão vive com um rendimento abaixo do considerado limite para a pobreza – estipulado no país em cerca de R$ 27 mil por ano.

Isso significa que um em cada seis japoneses vive em situação de pobreza, uma marca recorde no país.

Para Aya Abe, diretora do departamento de pesquisas empíricas do Instituto Nacional de Pesquisa da População e da Seguridade Social, a taxa de pobreza provavelmente subirá ainda por algum tempo.

"A pobreza não é apenas um problema econômico, mas também estrutural. Digo isso porque a taxa aumenta continuamente desde a década de 1980, mesmo durante os anos de prosperidade econômica", disse a pesquisadora à BBC Brasil.

O índice do Japão tem aumentado constantemente e hoje está bem acima da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Em ranking publicado em meados dos anos 2000, o Japão já estava, com 15%, em quarto lugar na lista dos países-membros com maiores taxas de pobreza, ficando atrás de México (18,5%), Turquia (17,5%) e Estados Unidos (17%). A taxa mais baixa foi registrada na Dinamarca (5%).


Mães solteiras

Na pesquisa feita pelo governo japonês, 59,9% das famílias responderam que passam por dificuldades.

Entre as causas desse fenômeno estão a queda da renda familiar, o prolongado período de deflação pelo qual o Japão passou e o aumento de lares formados por mães solteiras, que geralmente têm emprego de baixa remuneração.

Entretanto, Aya lembra que a deterioração das condições trabalhistas também colaboraram para o aumento do número de pobres. Um terço da força de trabalho no Japão é composta por trabalhadores com contratos temporários.

"Esses trabalhadores contratados ganham muito menos em comparação com os que tem emprego 'permanente' e isso é, sem dúvida, a principal causa de aumento da pobreza", afirma.

Neste contexto, entram a maioria dos trabalhadores estrangeiros, como os brasileiros.

Priscilla, por exemplo, trabalhou durante quatro anos numa fábrica e seu contrato era renovado mensalmente.

Ela deixou o emprego no começo deste ano. Fez bicos para poder sobreviver, mas não conseguia ganhar nem R$ 2 mil por mês, o que era insuficiente para pagar todas as contas.

"Por isso, completava com o dinheiro das economias que tinha feito ao longo dos anos", conta.

Mesmo assim, voltar ao Brasil não está nos planos da brasileira. "Hoje me considero pobre, mas sei que é apenas uma fase. Estou há muito tempo fora do mercado de trabalho e longe dos costumes do meu próprio país", justifica.


Pacote de estímulo

Preocupado com a taxa recorde de pobreza, o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe anunciou em agosto um pacote de políticas para enfrentar o problema.

O Japão auxiliará em custos com educação dos filhos e ajudará adultos na procura por emprego fixo.

Os críticos dizem que as ações são insuficientes, uma vez que o governo atual tem uma política clara de proteção ao empresário.

Casos como o da brasileira Priscilla são comuns nas empresas japonesas. Cerca de 80% dos que vivem na pobreza no Japão fazem parte dos chamados trabalhadores pobres, de salários baixos, empregos temporários sem garantias e poucos benefícios.

Geralmente, ganham o suficiente para sobreviver, mas não para ir a restaurantes, fazer viagens e comprar supérfluos.

"Sempre quando sobra um dinheiro eu faço algo que gosto. Mas saídas frequentes como eu fazia até o ano passado, compras de roupas, sapatos e maquiagem já são considerados um luxo", confessa Priscilla.


Sem-teto

No período pós-guerra, em que muitos japoneses lutaram para garantir comida e abrigo num país devastado economicamente, a pobreza foi sendo atenuada conforme a economia japonesa retomava os trilhos.

Pouco tempo depois, na década de 1970, havia um forte sentimento entre muitos japoneses de que estavam vivendo em um país mais igualitário, onde "todos pertenciam à classe média".

No entanto, o abismo entre classes se abriu novamente na década de 1990, após o colapso da bolha econômica. A estagnação econômica persistente levou as empresas a acabar com o chamado "emprego vitalício", do qual os japoneses tanto se orgulhavam.

Foi neste período que as ruas das grandes cidades começaram a ser invadidas por sem-teto. Hoje, somente na capital japonesa, o governo estima em cerca de 1.700 pessoas que não possuem um endereço fixo.

O número já foi maior, mas o problema está longe de acabar, já que a taxa de pobreza tem somente aumentado.

Kato Shirai, 68 anos, vive há cerca de quatro anos nas ruas de Tóquio. Ele guarda cuidadosamente alguns poucos pertences embaixo de uma marquise e passa o dia todo praticamente deitado. "É para evitar ficar com mais fome", diz.

Shirai reclama da falta de ajuda do governo e diz que até gostaria de sair das ruas. "Mas como fazer isso se não há emprego?", questiona.

A idade avançada e o fato de não ter um endereço fixo são empecilhos para muitos destes japoneses que vivem nas ruas.

"Para sobreviver, conto com a ajuda de voluntários, que vêm distribuir comida toda noite", conta. "O difícil é quando chove e neva. O restante a gente aguenta", fala.

Notícia publicada na BBC Brasil, em 12 de novembro de 2014.


Cristiano Carvalho Assis* comenta

Como esta reportagem surpreende a ideia que temos do Japão, altamente tecnológico, onde todos andam com celulares na mão, sendo um país rico, desenvolvido e um sonho de consumo para se adquirir dinheiro e conseguir a tão sonhada estabilidade financeira. Por vezes, na leitura, ficamos na dúvida se estão falando do Brasil ou do Japão.

Uma coisa fica clara na leitura: devemos tomar cuidado com as ilusões alimentadas em nossa mente, pois, com o tempo, podemos nos decepcionar. Somos influenciados de forma leve ou enfática, por pessoas ou pela mídia em geral, que alguns países ou regiões são verdadeiros paraísos na Terra, enquanto outros o inferno. E quando as dificuldades da vida se apresentam é natural que busquemos ir para esses lugares com a esperança de melhora, mas quando a realidade se apresenta nos decepcionamos.

Lendo a reportagem, não deixamos de lembrar a parábola do filho pródigo, quando ele vai para outra cidade e aproveita sua herança. Este seria o momento do início do sonho, como relatado, quando as pessoas conseguiram pagar suas dívidas e se mantiveram por algum tempo estabilizados. Mais tarde, como na parábola, chega o momento de crise, iniciando os sofrimentos, passando necessidades, como frio e fome. Até chegar o momento do despertar ou da desilusão, que fará a pessoa perceber que estava melhor em sua terra.

Despertemo-nos que não são os lugares que são melhores ou piores e não são eles os responsáveis pelo nosso sucesso ou insucesso. O que dita é nossa realidade íntima no enfrentamento das dificuldades. Se observarmos bem, em todos os países do mundo há sua porção de belo e outra de mazelas. Poderemos observar lado a lado a riqueza ou a pobreza extrema em todas as cidades tidas como paraíso financeiro. Uma pequena análise nos mostra que não pode ser diferente, já que o modelo capitalista se mantém nas diferenças financeiras discrepantes, uma minoria tendo muito e a maioria pouco. Nos iludimos com a imagem que nos é vendida pelos meios de comunicação.

Muitos irão dizer que isso não é verdade, pois nestes lugares ganhamos mais ou que muitos que foram conseguiram sucesso. No entanto, o que realmente vemos é que a minoria consegue e, pelo tanto que fizeram nestes lugares, provavelmente iriam conseguir em sua terra. Não é necessariamente o lugar que fez a pessoa obter sucesso, mas sim sua mudança de pensamentos e atitudes. Coisas que por aqui eles não fariam, lá eles fazem. No Brasil, era vergonhoso ser babá, trabalhar em restaurante ou lanchonete, mas quando é no exterior não há problema.

Ganhar em dólares ou ienes não quer dizer que será melhor que em reais, pois nesses países irão ter que gastar com a mesma moeda que recebem seus salários. Para dar certo, precisarão conter muito os gastos para mandar para o Brasil. Esforço de guardar dinheiro ou de trabalhar em 2 ou 3 subempregos, não fazem no Brasil, mas no Japão ou EUA sim.

Desta forma, podemos observar e sofrer menos desilusões desta natureza se nos conscientizarmos que não há paraísos na Terra e nosso sucesso financeiro, e porque não dizer espiritual, não está relacionado com nada externo (local, pessoas ou a moeda valorizada), mas sim em nós mesmos, através de nosso esforço pessoal, força de vontade, pensamentos bem direcionados, fé em Deus e mudanças de atitudes para melhorar nossa situação. Pois saibamos que “o homem possui admiráveis recursos interiores não explorados, que lhe dormem em potencial, aguardando o desenvolvimento”. (Joanna de Ângelis, do livro O Homem Integral.)

Despertando este potencial interior, poderemos estar em qualquer lugar do mundo, que suportaremos e venceremos as atribulações da vida.

* Cristiano Carvalho Assis é formado em Odontologia. Nasceu em Brasília/DF e reside atualmente em São Luís/MA. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Maranhense e colaborador do Serviço de Atendimento Fraterno do Espiritismo.net.