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No Sudão do Sul, ex-crianças-soldado trocam armas por livros


3 de março de 2015



No Sudão do Sul, ex-crianças-soldado trocam armas por livros



Ed Thomas
Da BBC, em Pibor (Sudão do Sul)


As cerca de 300 crianças estão uniformizadas e carregam rifles enquanto escutam o discurso de seu comandante, em Pibor, no Sudão do Sul.

Há um certa agitação no ar, porque em breve as crianças passarão aos cuidados das Nações Unidas.

Após anos de participação como soldados em uma guerra civil, as crianças enfim poderão ir para casa.

"Não vejo minha mãe e minha família desde o verão passado", explica Silva, um dos mais jovens soldados na cerimônia.

Ele tem apenas 11 anos. E assim como seus companheiros de armas, tem sua identidade preservada. Silva é um nome fictício.

"Vi muitas pessoas morrerem em minhas missões", conta Silva.

"Eu tinha um fuzil AK-47. Era pesado. Estava lutando para proteger minha família e minha aldeia".


Grito de batalha

A cerimônia é conduzida pelo general Khalid Butrus Bura, um dos comandantes de Silva na Tropa Cobra do Exército Democrático do Sudão do Sul.

Trata-se de uma poderosa milícia atuante na região de Pibor e que há mais de três anos vive em guerra com o governo do Sudão do Sul - um dos muitos conflitos desde que o país foi criado, em 2011, após conquistar sua independência do Sudão.

Porém, a situação em Pibor se tranquilizou com a assinatura de um acordo de paz entre o governo e David Yau Yau, líder rebelde que pegou em armas contra as autoridades sob a alegação de estar defendendo os interesses da minoria étnica murle. A maioria da população sudanesa do sul, estimada entre 8 e 10 milhões de pessoas, é das etnias dinka, nuer, bari e azande.

Yau Yau é uma presença forte na região de Pibor e seu nome é gritado pelas crianças-soldado antes de sua transferência para um complexo especial da ONU no vilarejo de Gumuruk.

Silva agora pensa num futuro sem guerras.

"Quero estudar. Não quero mas lutar. Tinha medo".

Ao lado de Silva está Abraham, de 12 anos.

Ele é uma criança que carrega o ar de um veterano de guerra.

"Tinha medo de morrer e senti que precisava lutar", diz Abraham.

"Duas irmãs foram mortas. Estive em missões e vi muitas pessoas morrendo também".

O conflito em Pibor é paralelo à rebelião nacional que eclodiu no Sudão do Sul em 2013 e que já matou mais de 50 mil pessoas.

A ONU acredita que milhares de crianças têm sido forçadas a lutar em ambos os lados do conflito.


Esperança

A Unicef, agência das ONU para a criança e o adolescente, diz que as crianças retiradas do conflito receberão apoio educacional e psicológico antes das tentativas de reuni-los às famílias.

No total, 3 mil crianças foram desmobilizadas, segundo um porta-voz da entidade, Jonathan Veitch.

"É a primeira operação deste tipo que realizamos. Considerando que há uma grande quantidade de soldados infantis na guerra civil do Sudão do Sul, o fato de podermos mostrar que conseguimos tirar meninos do uniforme militar e os colocar na escola é um sinal de esperança para o futuro deste país".

Mas o futuro desses meninos, muitos deles afirmando ter agido para defender familias e aldeias de ataques das forças do governo, depende também dos comandantes que os enviaram à frente de batalha.

Perguntado sobre a questão, o general Bura, que comandou as crianças mas também negociou sua liberação, promete que não vai usar os soldados infantis novamente.

"Queremos que as crianças tenham educação. Não as queremos mais em combate. Elas lutaram apenas porque era um momento especial em nossa história. Elas jamais lutarão novamente", afirma Bura.

Antes de sairmos de Pibor, vimos um ex-soldado sentado do lado de fora de uma tenda da ONU.

Ele tinha tirado seu uniforme. Peter disse ter 15 anos, apesar de parecer ter bem menos, e era um dos poucos meninos que falava inglês.

"Não tenho mais medo", disse ele.

"Quero ir para escola, virar pastor e ajudar minha aldeia e minha família".



Notícia publicada na BBC Brasil, em 28 de janeiro de 2015.




Jorge Hessen* comenta

Concebemos que há enorme compromisso “cármico” sob o ponto de vista moral e espiritual no mapa reencarnatório de cada criança renascida no Sudão do Sul. Muitas delas  sequestradas e forçadas a lutar e matar nos campos de batalha. Não seria insensibilidade, considerando aquelas indescritíveis dores, concebermos que muitos ex-colonizadores europeus do passado recente, seguramente pediram para reencarnar nessas condições, mirando, especialmente, liquidar os débitos contraídos naqueles recuados tempos de escravidão africana.

A Lei é inexorável, inobstante a suprema Bondade do Criador. Misericórdia que se consubstancia, neste caso específico, no magno projeto da ONU. O tentame da Unicef poderá resgatar amorosamente tais combatentes mirins, transformando os uniformes militares em uniformes escolares. Cada criança e adolescente retirados do conflito, após a interferência psicopedagógica da instituição, poderão se reintegrar às suas famílias. Mas não há como ignorarmos que as crianças, obrigadas a combater e matar na guerra,  invariavelmente carregarão nas memórias os resultados trágicos de cada morte e destruição protagonizada.

A respeito desses impactos de violência, cremos ser extremamente complexo dimensionar a deterioração mental das milhares de crianças, muitas delas atualmente treinadas para manusear armas poderosas e pesadíssimas impostas pelos terroristas do Estado Islâmico, e por muitos outros fundamentalistas, especialmente fanáticos religiosos, a exemplo dos líderes do Boko Haram.

A Unicef sinaliza com micro luzido no fim do túnel. Esperamos que nesses cruciantes momentos de depuração e seleção dos valores morais possamos nos dar as mãos e colaborarmos com Jesus na construção de um planeta pacificado.



* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.