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Padres presidem escola de samba e ensaio é após a missa


15 de fevereiro de 2015


Padres presidem escola de samba e ensaio é após a missa


ROBSON RODRIGUES
DE SÃO PAULO

Nos tempos mais primórdios, o Carnaval nascia entre o sagrado e o profano. Que o diga a escola de samba Dom Bosco, em Itaquera, zona leste, cujo presidente é o padre salesiano Rosalvino Moràn Viñayo, 73.

O vice da agremiação, Renato Tarcísio de Moraes Rocha, 37, também é sacerdote - e ainda toca repinique (tambor com baquetas) na bateria.

Além de rezar missas, celebrar casamentos e coordenar projetos sociais, a dupla participa dos ensaios da agremiação religiosamente, todas às quartas, sextas e sábados, às 20h.

Na noite de quarta (28/1), emendaram a missa com o samba: eram 500 pessoas na quadra, com quatro puxadores embalando a comissão de frente e as passistas. De chapéu-panamá e camisa da escola, padre Renato tirou a batina e entrou no meio dos 70 ritmistas da bateria com seu repinique. Já Rosalvino se divertiu cantarolando e balançando os braços. "Ainda não entendem um padre metido no meio do mulheril. Deus não me deixa ver."

Os religiosos pretendem levar 1.200 componentes ao Sambódromo do Anhembi, entre eles baianas, passistas (seminuas, inclusive), velha-guarda e destaques. O enredo homenageia o fundador da congregação salesiana: "Dom Bosco: 200 Anos de Amor ao Próximo... Um Presente para o Mundo".

A escola nasceu no ano 2000, "com a Bíblia numa mão e um tambor na outra, para atrair a juventude que não se adaptava", afirma Rosalvino. Segundo ele, fundar a agremiação foi a solução encontrada para arrebanhar um grupo de jovens "mais arredio e indisciplinado, que não queria saber de estudar nem tinha interesse nas atividades educativas" oferecidas pela obra social, como cursos profissionalizantes e oficinas preparatórias.

Hoje, o programa coordenado por eles atende diariamente a 5.000 pessoas em 15 endereços em Itaquera e Guaianases, entre centros de cultura, casas-abrigo e creches.

O método de Rosalvino para atrair a juventude não é apreciado por alguns fiéis e superiores da Igreja Católica. "Disseram que eu era um padre louco, mas funcionou." Algumas lideranças mais tradicionais chegaram a recomendar que Rosalvino deixasse os projetos carnavalescos, mas ele conta que conseguiu mostrar que a experiência era benéfica para os jovens. O sacerdote não chegou a receber aprovação, embora não tenha sido mais incomodado.

O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Dom Bosco será a 11ª escola a desfilar pelo Grupo 1 do Carnaval paulistano, na segunda (16/2).

Para 2015, o objetivo é subir para o Grupo de Acesso, espécie de série B do samba paulistano. Rosalvino sairá à frente do carro abre-alas, com seu inseparável jaleco branco. "Fazemos um Carnaval diferente, sem álcool. A letra do nosso samba-enredo é recheada de elementos teológicos", afirma o padre Renato, que vai na bateria.

Notícia publicada no Jornal Folha de S.Paulo, em 1º de fevereiro de 2015.


Jorge Hessen* comenta

Com o risco de sermos taxados de moralistas, num tempo em que se perdem as noções de moralidade, não podemos deixar de analisar criticamente alguns absurdos do mundo de Momo. Sem determinar regras de falsa santidade e árduos sermões impulsionados pelas cantilenas morais, não deixaremos de comentar sobre os prejuízos espirituais decorrentes das comemorações do Carnaval.

Há muitos séculos o Carnaval era marcado por grandes festas, em que se comia, bebia e participava de frenéticas celebrações e busca incessante dos prazeres.(1) Prolongava-se por sete dias (no mês de dezembro) nas ruas, praças e casas da antiga Roma. Todas as atividades e negócios eram suspensos nesse período; os escravos ganhavam liberdade temporária para fazer o que quisessem e as restrições morais eram relaxadas. Um rei (saturnalicius princeps) era eleito por brincadeira e comandava o cortejo pelas ruas.

Não fossem os exageros, o carnaval, como festa de relação sociocultural, poderia se tornar um evento compreensível, até porque não admitir isso seria incorrer postura de intolerância. Há pessoas que buscam fazer do carnaval um momento de esperança, oportunizando empregos, abrigando menores, e isso tem o seu valor social. Entretanto, a bem da verdade, o grande saldo da homenagem a Momo se resume em três palavras: violência, ilusão e sensualidade.

Reza a tradição que o folguedo de Momo surgiu permeando o mundo “sagrado” e o orbe profano. Sinceramente! Não conseguimos compreender algo de “abençoado” nas folias momescas. Entretanto, em São Paulo há a escola de samba Dom Bosco, em Itaquera, zona leste da cidade, cujo presidente é um padre salesiano de 73 anos e o vice-presidente é um sacerdote de 37 anos que toca inclusive repinique (tambor com baquetas) na bateria.

Além de celebrar missas, casamentos e coordenar projetos sociais, a dupla de sacerdotes obviamente participa dos ensaios da “Dom Bosco”. Ambos desejam arrastar 1.200 componentes ao Sambódromo do Anhembi, e entre os sambistas constam baianas, passistas (seminuas, portanto, nada beatas), velha-guarda e destaques. O enredo homenageia o fundador da congregação salesiana: "Dom Bosco: 200 Anos de Amor ao Próximo... Um Presente para o Mundo".

Para os clérigos, idealizadores da escola de samba, a concepção da agremiação foi a saída encontrada para unir um grupo de jovens mais desregrado, que não estudava e era bastante desinteressado nas atividades educativas oferecidas pela obra social da igreja. Entretanto, tal artifício para atrair a juventude não tem sido apreciado por alguns fiéis e superiores da Igreja romana.

Isso nos remete a recordar a escola de samba Unidos do Viradouro que em 2011 levou para a Sapucaí um carro alegórico carregando uma imagem do Chico Xavier. O médium de Uberaba foi representado por uma escultura (psicografando) cercada por 60 componentes, alguns deles “espíritas” (!?), que fizeram uma performance de “trabalho mediúnico” (!?). Santo Deus! Nada mais burlesco.

Será que o Carnaval é apenas um festival de alegria, de paz e louvor? A princípio, o Espiritismo não estimula nem recrimina o Carnaval e respeita todos os sentimentos humanos. Porém, será que a farra carnavalesca, vista como uma manifestação popular, consegue satisfazer os caprichos da carne sem deteriorar o espírito? Será lícito confundir “diversão” passageira com alegria legítima? O carnaval é um desses delírios coletivos, cuja reverência a Momo representa a ocasião em que pessoas projetam o que há de mais irracional e de mais incivilizado em si mesmas.

É verdade! O Espiritismo nada proíbe, nada obriga, nem censura o carnaval; porém igualmente, não defende sua realização. Sabe-se que durante a folia de Momo são perpetrados abusos de todos os tipos e, mormente, desregramentos da carga erótica de adolescentes, jovens, adultos e até idosos (mal resolvidos); há consumo exagerado de álcool e outras drogas, instalação da violência generalizada, excessos esses que atraem espíritos vinculados ao deletério parasitismo magnético, semelhantes aos urubus diante de carcaças deterioradas (carniças).

Os foliões de plantão reafirmam que o carnaval é um extravasador de energias reprimidas. Entretanto, nos três dias não são atenuadas as taxas de agressividade e nem as neuroses. O que se observa é um somatório da selvageria urbana e de desgraça doméstica. Após os festivais de erotismos surgem as gravidezes desatinadas e a consequente propagação de criminosos abortos, acontecem graves acidentes de trânsito, aumento da criminalidade, estupros, suicídios, aumento do consumo de várias substâncias estupefacientes, alcoólicos, assim como o surgimento de novos drogados, disseminação das enfermidades sexualmente transmissíveis (inclusive a AIDS).

Em síntese, se o Carnaval é uma ameaça concreta ao bem-estar social, nós espíritas temos muito a ver com ele, porque uma das tarefas primordiais de cada espírita é a de lutar por dispositivos de preservação dos valores mais dignos da Sociedade, sem que se violente, obviamente, o direito relativo do livre-arbítrio coletivo e individual, jamais nos esquecendo que no Carnaval ocorre a obsessão nos seus vários matizes como conseqüência da invigilância e dos desvios morais. Somente poderemos garantir a vitória do Espírito sobre a matéria, se fortalecermos a nossa fé, renovando-nos mentalmente, praticando o bem nos moldes dos códigos propostos por Jesus Cristo, e não esquecendo os divinos conselhos do Mestre: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação".(2)

Em suma, cremos que inexista outro caminho que não seja o da abstinência sincera das folias de Momo. O bom senso nos convida a aproveitar o feriadão para entrosamento com os familiares, leitura de livros instrutivos, frequência a reuniões espíritas. Aliás, será coerente fechar as portas dos centros espíritas nos dias de Carnaval, ou mudar o procedimento das reuniões? Existem alguns centros que fecham suas portas nos feriados do Carnaval sem motivos racionais. Em verdade, o espírita pode   participar de eventos educacionais, culturais ou mesmo descansar em casa, já que o ritmo frenético do dia a dia exige, cada vez mais, preparo e estrutura físico-psicológica para os embates pelo ganha-pão.

Em face do determinismo da Lei de Evolução, um dia tudo isso passará, todas as manifestações ruidosas que marcam nosso estágio de inferioridade desaparecerão da Terra. Em seu lugar, então, predominarão a alegria pura, a jovialidade, a satisfação e o júbilo real, com o homem despertando para a beleza e a arte, sem violência, nem degeneração moral.


Referências:

(1) A Festa do deus Líber em Roma; a Festa dos Asnos que acontecia na igreja de Ruan no dia de Natal e na cidade de Beauvais no dia 14 de janeiro, entre outras inúmeras festas populares em todo o mundo e em todos tempos, têm esta mesma função;

(2) Mt, 26:41.

* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.