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Relembre casos polêmicos de imóveis que foram palco de tragédia

28 de outubro de 2014



Relembre casos polêmicos de imóveis que foram palco de tragédia



Em São Paulo, Rafa Brites vai atrás de locais que foram cenários de crimes


Você vê problema em morar em uma casa considerada mal-assombrada ou em moradias que foram cenários de crimes? Tem gente que não se importa com isso. O ex-jogador David Beckham, por exemplo, comprou recentemente a mansão que pertenceu ao estilista Gianni Versace, em Miami. Versace foi assassinado na casa em 1997 e outros três donos morreram de forma violenta no local.


"O nosso objetivo não é se aprofundar no crime, mas saber especificamente sobre venda e aluguel dos imóveis", explica Ana Maria. O que se sabe também é que, muitas vezes, o proprietário desse tipo de casa tem que reduzir o valor do imóvel para conseguir vender ou alugar. Beckham desembolsou 60 milhões de dólares pela mansão.



Ana Maria começa a manhã na casa assombrada do personagem Barnabé


O Mais Você deu um giro por São Paulo atrás de casas marcadas pelo passado. A repórter Rafa Brites foi ao prédio em que morou a família Nardoni para saber se o apartamento está ocupado. E como será que anda a casa em que Suzane Richthofen morava com os pais? Já no caso da família Pesseguini, Rafa foi até à rua onde o crime ocorreu para saber se os vizinhos têm medo de morar próximo ao local da tragédia. E será que a repórter teve coragem de entrar no castelinho abandonado da rua Apa, outro local marcado por crime? "Se eu disser que não dá frio na barriga, estaria mentindo", diz Rafa.


Ela contou tudo: no prédio dos Nardoni, os funcionários foram orientados a não dar informações sobre o imóvel. A casa dos Von Richthofen está fechada, assim como a casa que era dos Pesseguini, que, segundo um morador, recebe manutenção.


Em enquete aberta no site durante o programa, 68,75% não comprariam um imóvel que tenha passado por uma tragédia, e apenas 31,25% não se importariam em morar em um lugar desses.


Matéria publicada na página do Programa Mais Você, em 16 de julho de 2014.



André Henrique de Siqueira* comenta


O ano era 1977. As férias escolares estavam em pleno vapor e já contávamos três dias de convivência na casa de um primo querido, no antigo bairro do Hipódromo, na capital pernambucana. A noite já caíra desde algumas horas. Um bando de meninos brincávamos desassossegados em frente à casa de meu tio, buscando, insistentemente, o que fazer...


- "Vamos criar uma casa mal-assombrada!"


Ideia dada, ideia realizada. Aproveitando uma casa abandonada, cujas ruínas debilitavam a estética da rua, munimo-nos de uma faca de cozinha, um pouco de paciência e uma vela acesa no meio da abóbora recordada e a penduramos no meio de lençol inutilizado para formar a figura do nosso fantasma. Com a ajuda dos adultos, fixamos o fantasma no meio da casa, de modo que pudéssemos ver sua sombra do lado de fora das ruínas... E aí começou a brincadeira! Quem teria coragem de entrar sozinho na casa em ruínas? Quem tinha coragem de apagar a vela na cabeça do fantasma? A noite correu entusiasmada com as querelas infantis e todos nos divertimos muito...


Mas na noite seguinte...


Todos sabíamos que existia uma cabeça de abóbora no meio das ruínas imitando um fantasma. Todos sabíamos que ele não tinha luz própria... Mas quem disse que havia coragem para entrar naquela casa mal-assombrada? A brincadeira tornara-se real, a ideia passou do imaginário para o mito e do mito para o enervante suplício de olhar a noite para uma casa mal-assombrada... Todos sabiam não existir fantasma na rua do Hipódromo, mas, por via das dúvidas, ninguém frenquentou mais as ruínas fantasmagóricas, férias após férias, até que a casa foi derrubada e em seu lugar uma nova construída... Mas ainda tem gente que julga ver uma luz noturna gerando uma sombra de um fantasma nas noites que o vento sopra.


Camille Flamarion, discutindo a questão das casas mal-assombradas, afirma:


Haverá quem acredite em casas mal-assombradas? Os espíritos fracos e os crédulos, talvez, pois tudo isso não passa de contos de vovozinha, para intimidar crianças.


É o que comumente se pensa e diz. E de fato, parece que outro não deve ser o veredicto do senso comum. Que haverá nisso de falso ou de verdadeiro? Quod gratis asseritur gratis negatur (o que é afirmado sem razão pode ser negado sem motivo), dizia-me Renan, certa feita em que versávamos o dogma da infalibilidade papal, recentemente proclamado pelo concílio do Vaticano (1870). O que se afirma, sem provas, é simples e naturalmente negado. Se as casas mal-assombradas não fossem identificadas por observações irrefutáveis, estaríamos no direito de negá-las; e com isso, cumpriríamos até um dever. Velho provérbio diz que não há fumo sem fogo. Certo, muitas vezes, pode suceder haja mais fumo que fogo. Mas o adágio não deixa de ser verdadeiro. As lendas mais absurdas têm uma origem.


A questão persistente da veracidade dos fenômenos é decorrente, em parte, da mistura entre fatos e mitos, entre as histórias vivenciadas e as experimentadas. Os fenômenos relacionados à interação com o mundo espiritual, desde tempos remotos, têm se misturado com temores e invenções, com vivências e supertições. O resultado mais vísivel é o da tragicomicidade de que se revestem as histórias das casas mal-assombradas.


A ideia de casas mal-assombrados não é nova. Em um de seus mais famosos contos, A queda da Casa de Usher, de 1839, Edgard Alan Poe, descreve o cenário de uma casa mal-assombrada, pintando no imaginários os detalhes icônicos de um conto de terror. O sucesso da narrativa inspirou outras histórias, sendo uma das mais famosas na atualidade, o caso da mansão Winchester, localizada na 525 South Winchester Boulevard, San Jose, Califórnia, nos Estados Unidos.


Em 1862, Sarah Pardee casa-se com William Wirt Winchester dono das fábricas de rifles Winchester, fabricante do mais famoso rifle do final do século XIX. O casal passa por dificuldades logo após o nascimento de Anne Pardee Winchester, a primeira filha do casal que morreu logo depois, deixando a mãe inconsolável. Logo em seguida, em 1881, morre William, deixando a esposa sob uma forte depressão emocional. Desesperada com as perdas, a Sra. Winchester  procura uma médium - que segundo os relatos, teria recebido uma comunicação do Sr. Winchester dizendo que os espíritos atormentados que foram mortos pelo famoso rifle estariam vagando pela mansão WInchester, rogando vingança e que teria sido deles a ação para matar Anne Pardee (a filha) e o próprio William.


Sarah decide mudar de residência e compra uma nova casa de 6 comôdos - aquela que se tornaria a mansão Winchester, em Santa Clara. A história - verídica ou inventada (?) - descreve que as reformas da nova casa foram feitas sob orientação de um médium com o propósito de afugentar os espiritos atormentadores que circundavam a família. E a obra nunca parou... A reforma era feita com orientações pela manhã para as atividades do dia e durante 36 anos inúmeros carpinteiros e trabalhadores mudaram, aumentaram, destruíram e reconstruíram até que no ano de 1922, depois de uma sessão espírita no quarto azul, Sarah foi se deitar e morreu durante o sono aos 83 anos de idade, deixando uma casa com aproximadamente 160 cômodos, 47 lareiras, mais de 10.000 janelas, incontáveis escadas e portas, muitas delas sem nenhum outro propósito além de confundir os espíritos... A casa foi vendida para investidores que passaram a usar a casa como atração turística - daí a dificuldades de diferenciar as verdades dos mitos convenientes. Na primeira contagem, os novos compradores identificaram 148 cômodos, mas na conferência deste número contaram 160 e a cada nova contagem se chegava a um número diferente. A mansão, construída para confudir os espíritos, confundiam também os investidores... O lugar é tão cheio de labirintos que os investidores demoraram mais de 6 semanas para retirar a mobília da casa.


Hoje ela é registrada como a maior casa da Califórnia com número desconhecido de cômodos e a maior casa mal-assombrada já conhecida (http://www.winchestermysteryhouse.com).


Diante da indistinção que se faz entre fatos e mitos, não é de admirar que muitas pessoas sérias não deem importância aos fenômenos das casas mal-assombradas. O que não signficia que os fatos não existam.


Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec trata do assunto à luz do Espiritismo. No CAPÍTULO IX, dedicado ao tema DOS LUGARES ASSOMBRADOS, ele afirma:


As manifestações espontâneas, que em todos os tempos se hão produzido, e a persistência de alguns Espíritos em darem mostras ostensivas de sua presença em certas localidades, constituem a fonte de origem da crença na existência de lugares mal-assombrados.


E passa a questionar os Espíritos relativamente ao assunto. O resultado dos questionamentos indica que:


- Alguns Espíritos podem apegar-se aos objetos terrenos, devido à imaturidade de seus sentimentos e raciocínios.


- "Os Espíritos que já se não acham apegados à Terra vão para onde se lhes oferece ensejo de praticar o amor. São atraídos mais pelas pessoas do que pelos objetos materiais. Contudo, pode dar-se que dentre eles alguns tenham, durante certo tempo, preferência por determinados lugares. Esses, porém, são sempre Espíritos inferiores."


E um destaque especial deve-se às questões de número 4 e 5:


4ª) Tem qualquer fundamento a crença de que os Espíritos frequentam de preferência as ruínas?


"Nenhum. Os Espíritos vão a tais lugares, como a todos os outros. A imaginação dos homens é que, despertada pelo aspecto lúgubre de certos sítios, atribui à presença dos Espíritos, o que não passa, quase sempre, de efeito muito natural. Quantas vezes o medo não tem feito que se tome por fantasma a sombra de uma árvore e por espectros o grito de um animal, ou o sopro do vento? Os Espíritos gostam da presença dos homens; daí o preferirem os lugares habitados, aos lugares desertos."


a) Contudo, pelo que sabemos da diversidade dos caracteres entre os Espíritos, podemos inferir a existência de Espíritos misantropos, que prefiram a solidão.


"Por isso mesmo, não respondi de modo absoluto à questão. Disse que eles podem vir aos lugares desertos, como a toda parte. É evidente que, se alguns se conservam insulados, é porque assim lhes apraz. Isso, porém, não constitui motivo para que forçosamente tenham predileção pelas ruínas. Em muito maior  número os há nas cidades e nos palácios, do que no interior dos bosques."


5ª) Em geral, as crenças populares guardam um fundo de verdade. Qual terá sido a origem da crença em lugares mal-assombrados?


"O fundo de verdade está na manifestação dos  Espíritos, na qual o homem instintivamente acreditou desde todos os tempos. Mas, conforme disse acima, o aspecto lúgubre de certos lugares lhe fere a imaginação e esta o leva naturalmente a colocar nesses lugares os seres que ele considera sobrenaturais. Demais, a entreter essa crença supersticiosa, aí estão as narrativas poéticas e os contos fantásticos com que o acalentam na infância."


Convidando o leitor à leitura do capítulo IX de O Livro dos Médiuns - o qual é muito esclarecedor em torno do assunto, salientamos a necessidade de não se deixar levar pelas frivolidades com os quais os temas são tratados. E, em matéria de fenômenos, vale sempre lembrar a recomendação do Espírito Erasto:  Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea. (O Livro dos Médiuns, cap. XX, item 230.)


* André Henrique de Siqueira é bacharel em ciência da computação, professor e espírita.