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'Tenho medo do mundo lá fora', diz mulher internada por vício em internet

6 de outubro de 2014



'Tenho medo do mundo lá fora', diz mulher internada por vício em internet



Lucélia, de 26 anos, está há seis meses em clínica de Araçoiaba da Serra. Proximidade do término do tratamento, daqui a 2 meses, assusta a paciente.


Natália de Oliveira
Do G1 Sorocaba e Jundiaí


Já se passaram seis meses desde que Lucélia Cristina Paes, de 26 anos, iniciou o tratamento contra o vício em internet em uma clínica de Araçoiaba da Serra (SP). A doença, que a fez perder o emprego, o marido e 33 quilos –  por deixar de viver a vida real para se dedicar exclusivamente à online –, ainda não está totalmente controlada e, por isso, a proximidade do término do tratamento, previsto para daqui a dois meses, assusta a paciente. "Tenho medo do mundo lá fora, de como vai ser fora daqui, pois não quero mais voltar a ter a vida que eu tinha antes", conta a jovem.


Antes da internação, Lucélia havia trocado o dia pela noite e até esquecia de comer. Ela trabalhava pensando na hora do intervalo, em que poderia pegar o celular que ficava guardado no armário da empresa. Como o tempo livre não era suficiente, Lucélia saiu do emprego para se dedicar única e exclusivamente ao vício eletrônico. Já o marido, cansado de "disputar" a atenção dela com a internet e de sentir ciúmes com as conversas dela em salas de bate-papo – que geraram várias brigas – acabou pedindo o divórcio.


Como parte do tratamento, Lucélia iniciou há alguns dias a etapa de ressocialização, quando o paciente da clínica retorna à sua casa por um pequeno período na tentativa de voltar a se acostumar com o ambiente e, também, com o convívio familiar. A jovem ficou por cinco dias em casa, tempo que considerou insuficiente para saber se irá, de fato, conseguir superar o seu vício. "O computador estava lá, na minha frente, em nenhum momento usei. Só que, quando penso em sair de vez da clínica, sinto medo de sair e depois ter que voltar."


Durante os cinco dias que permaneceu em casa, que fica na cidade de Tatuí (SP), a paciente contou com o apoio da família para se manter longe da vida on-line. Principalmente da filha, de seis anos, que, apesar da pouca idade, ficou no pé da mãe o tempo todo para que ela não tivesse uma recaída. "Ela ficava falando pra mim: 'mãe, não entra na internet mais. Não chega mais perto do computador'. Até na hora que ela quis tirar uma foto comigo, não pegou o celular. Disse que era melhor usarmos a máquina fotográfica mesmo", relembra Lucélia.


Após a visita, a primeira desde a internação, a paciente admite que teve um choque de realidade, da vida que tem dentro da clínica, onde tudo é regrado e o acesso à vida on-line não depende dela, e da que terá depois do término do tratamento, quando só dependerá dela para ficar longe da tecnologia. Por conta disso, ela se preocupa e se questiona muito se conseguirá ter o autocontrole necessário para se manter longe do vício que destruiu, momentaneamente, a sua vida.



Andamento do tratamento


De acordo com a psicológa responsável pelo tratamento, Ana Leda Bella, a recuperação de Lucélia é diferente da de um paciente viciado em drogas, já que ela não irá conseguir, depois que sair da clínica, ficar totalmente longe do uso de tecnologias. "Para ela é muito mais difícil do que um usuário de entorpecentes, ela vai ter que saber usar, colocar limites. Não poderá usar como lazer a internet, apenas, se for o caso, como ferramenta de trabalho", explica.


Ana ainda acrescenta que a dependência de Lucélia na internet se deu devido ao fato de ela ser uma pessoa muito carente e ansiosa, que buscava a vida on-line para poder ter algo para dominar, diferentemente do que ocorria na sua vida pessoal. "Essa dependência foi para buscar algo novo, para se sentir bem, já que ela usava, basicamente, a internet para se relacionar com as pessoas, seja amorosamente ou para aumentar o círculo de amizades que tinha."


Daqui a duas semanas, a paciente deve voltar para casa, mas, dessa vez, ficará fora da clínica por sete dias. Porém, terá que seguir todos os procedimentos estipulados dentro do seu tratamento, como, o mais óbvio, não usar nenhum tipo de equipamento com acesso à internet e não ficar sozinha em nenhum momento. "Se a Lucélia completar todas as etapas corretamente, daqui a dois meses ela encerra o tratamento. Mas, caso isso não ocorra, ela poderá ficar mais tempo com a gente", finaliza a psicológa.


Notícia publicada no Portal G1, em 19 de julho de 2014.



Claudio Conti* comenta


O ser humano, em geral, apresenta tendência para o vício e, consequentemente para a dependência.


A dependência química se caracteriza pela necessidade do consumo de uma ou mais substâncias, seja por qual meio for (inalação, ingestão ou intravenosa). A lista de combinações é muito longa em decorrência da imaginação para criar ou descobrir algo novo e da fragilidade humana para o seu uso. É curioso verificar que os profissionais que trabalham diretamente com muitos dos compostos químicos utilizados na fabricação de drogas recebem uma compensação financeira por serem obrigados a estar em contato com substâncias potencialmente perigosas, todavia, milhões de pessoas fazem uso inadequado destas mesmas substâncias por opção e, ainda pagam por elas.


Mas não existe apenas dependência química. Um outro tipo de dependência é a emocional. Joanna de Ângelis aborda esta questão no livro “Amor, Imbatível Amor”: "De alguma forma, no amor, há uma natural necessidade de aproximação física, de contato e de contiguidade com a pessoa querida.”, “Quando se é carente, essa necessidade torna-se tormentosa, deixando de expressar o amor real para tornar-se desejo de prazer imediato, consumidor. Se for estabelecida uma dependência emocional, logo o amor se transforma e torna-se um tipo de ansiedade que se confunde com o verdadeiro sentimento. Eis porque, muitas vezes, quando alguém diz com aflição eu o amo, está tentando dizer eu necessito de você, que são sentimentos muito diferentes."


No livro “O Ser Consciente”, Joanna de Ângelis afirma: "o estado de infância psicológica decorre da ausência de realizações evolutivas".


Desta forma, espíritos no nível evolutivo idêntico aos que estão ligados à Terra podem ser considerados como ainda estando no estado de infância psicológica, buscando sempre meios de fuga para as responsabilidades que necessitam assumir para o avanço como seres imortais. A tecnologia disponível na atualidade fornece condições para que o espírito em fuga das responsabilidades se ocupe com interesses diversos, estando muitas das possibilidades, literalmente, ao alcance dos dedos. Antes, eram necessários vários equipamentos para o entretenimento (aparelho televisor, aparelho de som, telefone), que estavam "fixos" em locais específicos devido às suas dimensões. Atualmente, os equipamentos não são apenas portáteis, mas todos estão combinados em um único aparelho: o celular; não se restringindo apenas ao que foi mencionado, mas em variedade muito maior com o advento da internet móvel. Algumas opções adicionais também estão disponíveis que ampliam ainda mais as possibilidades, tais como notebooks e tablets. Assim, a tecnologia pode se tornar mais um mecanismo de fuga.


Ao espírito que deseja trabalhar em prol de sua evolução cabe sempre questionar qual a utilidade daquilo a que se detém em fazer, seus interesses. Considerando que os momentos de lazer são necessários e precisam estar presentes na medida certa, é fundamental refletirmos sobre a máxima de Paulo: “Tudo me é lícito mas nem tudo me convém”.


* Claudio Conti é graduado em Química, mestre e doutor em Engenharia Nuclear e integra o quadro de profissionais do Instituto de Radioproteção e Dosimetria - CNEN. Na área espírita, participa como instrutor em cursos sobre as obras básicas, mediunidade e correlação entre ciência e Espiritismo, é conferencista em palestras e seminários, além de ser médium pscógrafo e psicifônico (principalmente). Detalhes no site www.ccconti.com.