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Mendiga saudita deixa 'herança' milionária

17 de agosto de 2014



Mendiga saudita deixa 'herança' milionária



Após a morte de uma mulher que passou décadas mendigando nas ruas de Jeddah, na Arábia Saudita, as autoridades tiveram uma surpresa. Eles descobriram que Eisha, como era conhecida, tinha uma fortuna secreta em moedas de ouro, joias e imóveis.


Segundo o jornal local Gazeta Saudita, ela acumulou uma fortuna equivalente a US$ 800 mil (R$ 1,8 milhão), incluindo quatro prédios na cidade.


A notícia chocou a grande maioria dos moradores que vivem nos bairros em que Eisha, que tinha 100 anos, costumava mendigar, exceto por Ahmed Al-Saeedi, um amigo de infância da mulher que a ajudava a cuidar de seus bens.


Segundo ele, boa parte da riqueza da amiga foi acumulada quando ela mendigava ao lado da mãe e da irmã – ambas já mortas. "As pessoas se solidarizavam com elas. E elas acabavam recebendo muitas doações, especialmente durante o Eid (feriado religioso muçulmano)", disse.


Saeedi disse ainda que ele tentou por diversas vezes convencer a amiga de deixar a mendicância. "Eu pedia para ela desistir de pedir esmolas, já que ela tinha muito dinheiro, mas ela sempre se recusava, dizendo que estava se preparando para tempos difíceis."


Várias famílias que moram nas propriedades de Eisha disseram que ela nunca lhes cobrou aluguel. Ainda não está claro se eles serão expulsos, já que toda sua "herança" – incluindo os imóveis – está agora na mão das autoridades.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 20 de março de 2014.



Breno Henrique de Sousa* comenta


A mendicância


Se você for uma pessoa que tem por hábito ajudar o próximo, em algum momento deve ter-se feito a pergunta: devo ou não dar esmolas? Essa é sem dúvida uma discussão polêmica. A esmola é a forma mais simples e descompromissada de doação material, e, para que se caracterize como esmola, é preciso a figura do mendicante, que é uma pessoa que vive de pequenas doações de desconhecidos e que geralmente pede pelas ruas da cidade.


A esmola é diferente da doação. A doação pode ser feita de maneira oficial a uma instituição, ou mesmo quando oferecemos uma ajuda a alguém que, por uma razão qualquer, necessita circunstancialmente de apoio, mas que não vive da mendicância. Geralmente doamos quando temos conhecimento da necessidade daquele que recebe a doação, já no caso da esmola quase sempre desconhecemos as reais necessidades do pedinte.


Dito isso, fica mais fácil tratar sobre o tema, pois, do ponto de vista do Espiritismo, não há polêmica quanto ao fato de que devemos ser doadores. Doemos a quem necessita, doemos não apenas bens materiais, mas sobretudo carinho, atenção, afeto. Podemos até mesmo doar-nos ao outro, abraçando em nossas vidas um ideal em prol da humanidade. Doar é um ato de amor, de caridade, e fora da caridade não há salvação. E sobre doar, não devemos ser exclusivistas e doar somente aos nossos entes queridos. É aqui que cabe a máxima “fazer o bem sem olhar a quem”, ou seja, sem exclusivismos ou distinção de raça, credo, gênero, etc.


O equívoco sobre essa máxima do “dar sem olhar a quem” é quando ela é interpretada no sentido de que não devemos nos importar se a nossa ajuda fará bem ou mal a quem recebe. É comum ouvirmos: "Eu fiz a minha parte e dei algum dinheiro; se quem recebeu vai fazer bom uso do que lhe dei, não é problema meu. Não me importa se era um viciado e vai usar o dinheiro para comprar drogas, eu dei sem olhar a quem." É verdade que não podemos controlar completamente o destino de nossas esmolas ou doações e isso não deve servir de desculpa para não ajudar o próximo, porém será essa a maneira correta de dar sem olhar a quem? Dessa forma mal interpretada, o “fazer o bem sem olhar a quem” torna-se apenas uma “caridade fácil”, que certamente tem sua utilidade quando recebida pelos que realmente necessitam, mas nos poupa do trabalho da caridade verdadeira e ao mesmo tempo podemos nos iludir achando-nos bons e praticantes da verdadeira caridade.


Vejamos o que diz o Evangelho Segundo o Espiritismo sobre a caridade material, em seu Cap. XVI, Item 11:


Qual, então, o melhor emprego que se pode dar à riqueza? Procurai - nestas palavras: "Amai-vos uns aos outros", a solução do problema. Elas guardam o segredo do bom emprego das riquezas. Aquele que se acha animado do amor do próximo tem aí toda traçada a sua linha de proceder. Na caridade está, para as riquezas, o emprego que mais apraz a Deus. Não nos referimos, é claro, a essa caridade fria e egoísta, que consiste em a criatura espalhar ao seu derredor o supérfluo de uma existência dourada. Referimo-nos à caridade plena de amor, que procura a desgraça e a ergue, sem a humilhar. Rico!... dá do que te sobra; faze mais: dá um pouco do que te é necessário, porquanto o de que necessitas ainda é supérfluo. Mas, dá com sabedoria. Não repilas o que se queixa, com receio de que te engane; vai às origens do mal. Alivia, primeiro; em seguida, informa-te, e vê se o trabalho, os conselhos, mesmo a afeição não serão mais eficazes do que a tua esmola. Difunde em torno de ti, como os socorros materiais, o amor de Deus, o amor do trabalho, o amor do próximo. Coloca tuas riquezas sobre uma base que nunca lhes faltará e que te trará grandes lucros: a das boas obras.


A riqueza da inteligência deves utilizá-la como a do ouro. Derrama em tomo de ti os tesouros da instrução; derrama sobre teus irmãos os tesouros do teu amor e eles frutificarão. (Grifo nosso).


Observe que nessa passagem somos chamados a ir às origens do mal e verificar que muitas vezes nossos conselhos valem mais que nossas esmolas. Dar do que nos sobra é bom, mas pesa bem pouco na balança dos valores espirituais, porém o pouco já é um começo e está em melhor condição quem faz pouco do que quem não faz nada.


Mas, e a esmola? É condenável dar esmolas? Vejamos o que nos dizem os espíritos a esse respeito em O Livro dos Espíritos:


888. Que se deve pensar da esmola?


Condenando-se a pedir esmola, o homem se degrada física e moralmente: embrutece-se. Uma sociedade que se baseia na lei de Deus e na justiça deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação. Deve assegurar a existência dos que não podem trabalhar, sem lhes deixar a vida à mercê do acaso e da boa-vontade de alguns.”


a) - Dar-se-á reproveis a esmola?


Não; o que merece reprovação não é a esmola, mas a maneira por que habitualmente é dada. O homem de bem, que compreende a caridade de acordo com Jesus, vai ao encontro do desgraçado, sem esperar que este lhe estenda a mão.


(...) “Deve-se distinguir a esmola, propriamente dita, da beneficência. Nem sempre o mais necessitado é o que pede. O temor de uma humilhação detém o verdadeiro pobre, que muita vez sofre sem se queixar. A esse é que o homem verdadeiramente humano sabe ir procurar, sem ostentação.


(...) Sede, pois, caridosos, praticando, não só a caridade que vos faz dar friamente o óbolo que tirais do bolso ao que vo-lo ousa pedir, mas a que vos leve ao encontro das misérias ocultas. Sede indulgentes com os defeitos dos vossos semelhantes. Em vez de votardes desprezo à ignorância e ao vício, instruí os ignorantes e moralizai os viciados. Sede brandos e benevolentes para com tudo o que vos seja inferior. Sede-o para com os seres mais ínfimos da criação e tereis obedecido à lei de Deus.” (grifo nosso).


Fica claro que não há condenação ao ato de dar esmolas, apesar de o ser humano que se encontra nessa condição degradar-se física e moralmente. A mendicância torna-se mesmo um vício e nada produz de bom para o próprio pedinte. Além disso, ele se torna um peso para a sociedade. É certo que alguém, em determinadas circunstâncias, pode necessitar pedir esmolas. Não endureçamos nossos corações, ajudemos, sobretudo nas emergências, mas tendo o cuidado de não viciar o pedinte e sempre que possível busquemos conhecer melhor a situação e saber que tipo de ajuda seria mais útil.


É preciso um pouco de sensibilidade social; trocar duas ou três palavras já nos permite perceber muita coisa. Eu, particularmente, tenho muito cuidado com algumas situações, onde visivelmente a doação de dinheiro pode ser prejudicial, como no caso de crianças pedindo nas ruas ou pessoas visivelmente embriagadas. Dependendo do contexto social de onde você se encontra, cidade, estado, região ou país, observando o estado de pobreza ou ausência do estado, é possível saber se trata-se de um profissional da mendicância ou de um verdadeiro necessitado. Porém, nossas observações são sempre limitadas; assim, não endureçamos nossos corações, porque esse, às vezes, é o pretexto fácil dos egoístas.


Algumas pessoas dizem que não dão esmolas, mas que doam apenas para instituições de caridade. É muito bom e correto doar para instituições de caridade, elas se ocupam de fazer uma triagem e saber quem são os verdadeiros necessitados, algo que, convenhamos, nem sempre temos tempo de fazer. Mas as coisas não devem ser tomadas de maneira muito absoluta.


Eu vivo na região Nordeste do Brasil. Pelo meu ramo de atividade profissional, conheço bem a zona rural e sei que por lá ainda existe muita miséria. E estou falando de miséria, e não de pobreza. Não estou dizendo que todos por lá são miseráveis, porque temos também muita fartura e boa qualidade de vida na zona rural nordestina, mas a miséria está por lá, sim, ela persiste e é mais abundante do que se pensa. Quem vive apenas nos grandes centros urbanos, apesar da pobreza que também existe por lá, desconhece o que eu estou falando. A essas pessoas falta-lhes o essencial para sobreviver, e, para alguns, um prato de comida representa e diferença entre a vida e a morte. Seria muita dureza de coração negar uma esmola a uma dessas pessoas sob o pretexto de ajudar apenas as instituições de caridade, instituições que, por mais que se esforcem, não alcançarão a esses indigentes. Quem achar que estou exagerando, pode perguntar a qualquer extensionista rural que trabalhe no interior do Nordeste brasileiro.


Naturalmente o caso dessa senhora da reportagem é um caso excepcional. Raro e incomum pela fortuna que amealhou. Temos notícias de pedintes que possuem um bom patrimônio, mas uma notícia como essa não se ouve todos os dias. Essa senhora usou da boa fé das pessoas que acreditavam que ela era necessitada e, se um dia ela de fato o foi, há muito tempo havia deixado de sê-lo. Sua obrigação moral seria deixar a mendicância, porém ela provavelmente acomodou-se a essa situação, viciou-se como pedinte ou simplesmente foi isso que ela fez durante toda a sua vida e não queria fazer outra coisa. Cabe a Deus julgar e cada um responderá por suas escolhas.


Em qualquer circunstancia, não desistamos da caridade, pois os primeiros a serem beneficiados são aqueles que a praticam. Sejamos generosos e não mesquinhos. Deus sabe a intenção que anima os nossos corações.


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.