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Luto: se despedir do corpo acelera processo de aceitação da morte

14 de julho de 2014



Luto: se despedir do corpo acelera processo de aceitação da morte



Por Carolina Garcia - iG São Paulo


Falta de informações sobre as vítimas do voo da Malásia gerou confusão e sofrimento aos familiares. Especialistas falam da importância de viver ritual de despedida


A confirmação da queda do voo MH370 da Malaysia Airlines, com 239 passageiros a bordo, no Oceano Índico, causou desespero e revoltou os familiares que, por 17 dias, alimentaram a esperança de que seus entes queridos pudessem estar vivos, vítimas de um suposto sequestro.


Perder uma pessoa amada é uma das experiências mais dolorosas que o ser humano pode sofrer. Mas, e quando a notícia da morte não vem acompanhada de um corpo? O colapso emocional e a incredulidade em volta da morte podem resultar um processo de luto turbulento e marcar uma família, com danos físicos e psicológicos. Não saber como o familiar enfrentou os últimos momentos de vida e ainda não ter acesso aos restos mortais podem gerar confusão e até a fantasia de que aquilo não aconteceu.


Para especialistas em luto, é fundamental viver o tradicional ritual com o velório, enterro ou cremação, ou seja, programar os eventos e ser capaz de se despedir. Nos casos em que isso não é possível, como em desaparecimentos ou mortes violentas, o sofrimento pode perdurar por décadas. Um exemplo disso é o drama vivido pelas famílias dos 457 mortos e desaparecidos políticos, segundo a Comissão Nacional da Verdade, no período da ditadura militar no Brasil.


“[Se não tem um corpo] as pessoas se mantêm em suspensão. Elas fazem as coisas, mas é muito difícil viver sem fechar a equação. Como criar essa conclusão sem o corpo?”, explicou ao Delas Maria Helena Pereira Franco, pesquisadora especialista em luto da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Na teoria, defendida por ela, o luto é uma reação natural e acontece quando o vínculo com aquilo que se ama é rompido. Não tem fases pré-estabelecidas e muito menos pode ser programado. Ela conta que cada um vive o processo de uma maneira diferente.


A intensidade da dor da perda, no entanto, depende, além do vínculo, de como ela ocorre. Quanto mais repentina e violenta, mais difícil vai ser a superação da morte.


“Se está lidando com uma pessoa doente, acompanhar e cuidar dela já é uma despedida. Na morte violenta e inesperada, você tem que colocar na cabeça que aquilo é definitivo”, explica Maria Helena.



Lugar para velar


Maarten Van Sluys, diretor-executivo da Associação de Familiares das Vítimas do Voo 447 (AFVV447), que caiu no Atlântico em 2009, viveu a dor de ser forçado a aceitar a morte da irmã mesmo sem evidências. O corpo da jornalista Adriana Francisca só foi resgatado sete dias após a confirmação do acidente, que deixou 228 mortos.


“Foi um período cruel. Me senti confortado de ter um lugar para velar a minha irmã. É importante ter um lugar para você fechar a memória”, conta.


Para ele, existe uma grande diferença no trauma entre os familiares que receberam o corpo e os que não conseguiram. Atualmente, 74 corpos permanecem no fundo do oceano e jamais foram recuperados - entre eles estão 23 brasileiros.


“Tem uma mãe em Belo Horizonte que até hoje espera o filho entrar pela porta da frente. Se você não tem o corpo fica a ideia ‘mas e se ele não embarcou?’. Querem o impossível e o improvável”.


Após quase cinco anos da tragédia, Sluys acredita que sua dor está “diluída”. Além dos membros da AFVV447, que foram fundamentais no seu processo de luto, ele mantém uma rede de contato com outros familiares de vítimas, como os do acidente da TAM de 2007, a Afavitam. Se envolver com outras causas faz parte do seu processo de luto.


“Se eu estivesse naquele avião, a Adriana nunca deixaria na esfera do luto e perda familiar. Desenvolvi isso em homenagem à ela. É assim que preservo a memória dela”.



Luto coletivo


Ao perder a filha Eliana em um acidente de carro, em 2000, a pedagoga Alice Davanço Quadrado, de 68 anos, viu que estava sozinha. Era a única pessoa em seu círculo social que passava por aquela situação. A saída foi buscar especialistas e colocar o luto no papel. O resultado foi o livro “O perfume de Eliana” (Ed. Libro). Após isso, Alice decidiu fundar a Associação Brasileira de Apoio ao Luto, a Casulo, e promover atividades em grupo para os que dividem a mesma dor.


“Naquele momento tão dolorido eu queria conversar com quem me entendesse, falar com os meus iguais e viver o luto coletivamente”, explica Alice. Segundo ela, não há limites para expressar os sentimentos durantes as reuniões, que une pais que perderam os filhos em circunstâncias diversas. Ali é permitido chorar, esbravejar e falar o que quiser.


“Você só enfrenta os próprios sentimentos quando quebra a cadeia do silêncio”. Negar o sofrimento pode estender o processo melancólico.


As profissionais explicam que não há um processo de cura, mas momentos de oscilação entre restauração e reestruturação, quando a pessoa encontra momentos de paz. Todos têm o direito de ficarem tristes e sem vontade de viver ou levantar da cama. Faz parte do processo, garante Maria Helena. Mas, muitas vezes, amigos podem cometer um erro e enquadrar o enlutado como depressivo.


“Luto não significa depressão, são situações diferentes. Ele precisa ser vivido com seus iguais e de um jeito positivo. A perda é eterna, mas pode ser vivida”.


Notícia publicada no Portal IG, em 26 de março de 2014.



Claudio Conti* comenta


Muito simplificadamente, podemos dizer que existem duas formas de abordagem para o direcionamento da própria vida: 1) privilegiar as questões do espírito ou; 2) privilegiar as questões materiais. Ambas podem ser empregadas em todos os aspectos da existência humana, inclusive com relação a própria desencarnação quanto a dos seres amados.


A encarnação atrela o espírito à matéria; em decorrência, sua visão fica limitada e as impressões mais ostensivas são aquelas relacionadas com os sentidos físicos, por serem mais pungentes. Todavia, também está sujeito a variada gama de impressões relacionadas as questões do espírito, ou melhor, que exercem influência espiritual diretamente, contudo, como é uma possibilidade não reconhecida por muitos, passam despercebidas ou não compreendidas.


As ocasiões em que nos deparamos com o fenômeno material da morte, evento em que o espírito encarnado se liberta da veste corporal, especialmente quando relacionados com amigos e familiares, são momentos de enfrentamento da realidade mortal do corpo em contraposição da realidade imortal do espírito.


Como todo enfrentamento daquilo que relegamos à obscuridade mental, a vivência da morte de entes queridos causa conflito e, por este motivo, demanda tempo para assimilação ou adequação mental que pode, via de regra, ocasionar o desenvolvimento de artifícios de fuga.


O espírito Joanna de Ângelis, sob a psicografia de Divaldo P. Franco, no livro O Ser Consciente, cap. 26, nos fala sobre os diversos mecanismos de fuga e diz: “Habituado ao não enfrentamento com o self, o ego camufla a sua resistência à aceitação da realidade profunda, elaborando mecanismos escapistas, de forma a preservar o seu domínio na pessoa. Desse modo, podemos enumerar alguns desses instrumentos do ego, para ocultar-lhe a realidade, facultando-lhe a fuga do enfrentamento com o eu profundo, tais como: compensação, deslocamento, projeção, introjeção e racionalização.”


Já no cap. 27, após apresentar cada um dos mecanismos de fuga, Joanna de Ângelis esclarece sobre o medo da morte. Após discorrer sobre o tema, diz: “Conforme o eu profundo considere a morte, povoando-a de incertezas, gênios do mal, regiões punitivas ou aniquilamento, dessa forma a enfrentará. O oposto igualmente se dá. Vestindo a morte de esperança de reencontros felizes, de aspirações enobrecidas, de agradável despertar, ocorrerá o milagre da vida.”


Podemos, portanto, terminar o comentário sobre a reportagem em análise com a seguinte afirmação de Joanna de Ângelis, ainda no mesmo capítulo mencionado no parágrafo anterior: “O medo da morte decorre da ignorância da realidade espiritual e do apego ao transitório físico". Este medo e apego fazem com que necessitemos de rituais de encerramento ou “fechar a equação”, como citado na reportagem, todavia, o único fechamento eficiente é o esclarecimento sobre a sua realidade, desenvolvendo, desta forma, a aceitação e a esperança com relação a própria morte e a de outrem.


* Claudio Conti é graduado em Química, mestre e doutor em Engenharia Nuclear e integra o quadro de profissionais do Instituto de Radioproteção e Dosimetria - CNEN. Na área espírita, participa como instrutor em cursos sobre as obras básicas, mediunidade e correlação entre ciência e Espiritismo, é conferencista em palestras e seminários, além de ser médium pscógrafo e psicifônico (principalmente). Detalhes no site www.ccconti.com.