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Françoise Héritier - A tecnologia gera alienação

21 de maio de 2014



Françoise Héritier - A tecnologia gera alienação



Herdeira intelectual de Lévi-Strauss, a antropóloga francesa diz que os pequenos prazeres da vida foram perdidos e que os recursos modernos impedem a reflexão


por Mariana Brugger


A antropóloga francesa Françoise Héritier trilhou uma brilhante carreira acadêmica, a ponto de ter sido escolhida pelo renomado colega Claude Lévi-Strauss (1908-2009) para sucedê-lo no Collège de France. Lá, ocupou por muitos anos a cadeira de estudos comparados de sociedades africanas e tornou-se referência na área de estudos de gênero. Atualmente professora honorária, Françoise resolveu lançar-se em outra seara após receber um cartão-postal de um amigo em férias com a seguinte mensagem: “Uma semana roubada de férias na Escócia.” A frase não saía da cabeça da antropóloga. Quem estava roubando o quê? O amigo, médico e professor, entendia que estava furtando um pouco de descanso de um mundo que o devorava com tarefas e compromissos?


As reflexões acabaram virando um livro ao estilo autoajuda: “O Sal da Vida” (Valentina) – best-seller na França em 2012 que chega agora ao Brasil. A obra de 100 páginas se despe de sofisticação para falar, da maneira mais trivial possível, sobre o que é o ‘sal da vida’: não sentir culpa por se dar o direito ao descanso e de perceber os raros encantos simples da vida. Para a antropóloga, a ansiedade e o uso excessivo da tecnologia são os males do nosso tempo. Portadora de uma doença autoimune rara há 32 anos, a policondrite recidivante, que ataca todas as cartilagens do corpo e a deixou diabética, com insuficiências cardíaca e renal, e com problemas ósseos, Françoise garante que é possível ver beleza no mundo mesmo nos momentos de depressão.


Istoé - A sra. é uma antropóloga renomada e lançou um livro que se assemelha muito à autoajuda. Sentiu algum tipo de preconceito dos intelectuais?


Françoise Héritier - Ninguém falou nada para mim sobre isso, pelo contrário. Muitos amigos e pessoas que nunca vi me apoiaram e enviaram listas com as coisas que dão sabor às suas vidas. Não publiquei esse livro como antropóloga.


Istoé - O que dá sabor à vida?


Françoise Héritier - Pode ser algo extremamente ordinário, lembranças da época de criança ou coisas absolutamente pessoais. A ideia é lembrar que atravessamos a existência inundados de pequenas coisas que nos dão prazer, mas não prestamos atenção. Nosso estado civil, nossas opiniões, tudo isso forma nosso exterior e não diz nada sobre nós. São as nossas reações a essas pequenas experiências cotidianas que formam nosso interior. Embora não acredite que essas experiências comuns possam definir a personalidade das pessoas, acho que elas são fundamentais para definir a percepção de mundo que cada um tem.


Istoé - Por que paramos de prestar atenção a esses pequenos prazeres?


Françoise Héritier - Não creio que a vontade tenha sido perdida, mas, talvez, a capacidade de sentir-se realizado esteja diminuída ou até mesmo acabada. O cansaço vence muitas vezes pessoas que se encontram no sofrimento. Para outros, infelizmente, o que está em alta é o delírio da globalização e a vontade de possuir riquezas e bens materiais. Chamo isso de um “cansaço essencial” do espírito, uma renúncia.


Istoé - Como aprender a aproveitar o cotidiano?


Françoise Héritier - Com as crianças, que têm isso naturalmente – e precisamos encorajá-las a continuar assim, estimular a qualidade imaginativa delas. Perceber o que dá sabor à vida não significa esquecer dos problemas. Mesmo quando estamos infelizes podemos viver momentos memoráveis. Tudo depende da sua atitude.


Istoé - Como descobrir o que importa nos dias de hoje, quando a falta de tempo parece ser a principal queixa de todos?


Françoise Héritier - Não existe receita. É uma disposição da alma, ávida por saber aquilo que a constitui e a legitima. A presença de acontecimentos marcantes não esconde necessariamente aqueles menores. Porém, acredito que nos lembramos mais dos prazeres íntimos ou dos compartilhados com amigos do que de nossas conquistas profissionais.


Istoé - A tecnologia mudou os problemas e a maneira de enxergar o mundo?


Françoise Héritier - Os problemas fundamentais que se apresentam para os seres humanos são os mesmos. Creio no universal. A maneira de responder a esses problemas é que muda, e a maneira atual é com o uso intensivo da tecnologia. Acho que isso gera uma bestialização e uma alienação voluntárias, sem promover o fundamental, que é a busca pela emancipação do espírito.


Istoé - Onde a internet entra nesse contexto?


Françoise Héritier - Para uma pequena parte da humanidade, a mais jovem evidentemente, a internet diminui certos momentos dedicados ao pensamento e a outras atividades. Os mais velhos, como eu, não se sentem à vontade com essas tecnologias e as usam menos. Mas seria isso o que nos impede de conhecer as coisas insignificantes da vida para extrair prazer? Não, porque essa comunicação imediata e sobre o nada se tornou ela mesma um prazer. A crença de que dividimos tudo com todos o tempo todo se transformou em um grande prazer coletivo.


Istoé - Quais são os prazeres da vida com tecnologia?


Françoise Héritier - Existem alguns, mas eles são reduzidos frequentemente a experiência da primeira vez ao usar algo novo. Todo adulto se lembra do prazer ao andar de bicicleta sozinho pela primeira vez. O hábito e a saciedade fazem esse sentimento de domínio de uma atividade desaparecer muito rápido, exceto quando perdemos tempo para nos deliciarmos com aquele momento. Porém, nesse caso, mudamos o registro: não é mais o prazer de dominar a técnica, é o hedonismo que permite aproveitar um instante com todos os seus componentes.


Istoé - Faz bem se entediar?


Françoise Héritier - O tédio se tornou condenável. Mas o tédio é o motor da reflexão, da inovação, da descoberta e da contemplação. Ao nos esforçarmos para satisfazer as frustrações com auxílio das tecnologias modernas, fazemos desaparecer essas possibilidades.


Istoé - A medicação tem a função de suprir a incapacidade humana de aproveitar as pequenas alegrias da vida?


Françoise Héritier - É simplista demais responder apenas sim. As doenças mentais que levam alguém a tomar remédios psicotrópicos são dolorosas e complexas. Eu mesma tive depressões, mas, mesmo sem enxergar nada com senso de humor, elas não me impediram de manter os olhos abertos para o mundo. A psicologia em massa se tornou um recurso diante do vazio da vida, da solidão, da incompreensão. Mas não saberia estabelecer uma ligação direta entre isso e a perda da capacidade de degustar a vida.


Istoé - Qual é o símbolo mais forte da sociedade moderna?


Françoise Héritier - O símbolo mais forte é certamente o uso do Facebook e sua rede de falsos amigos, que amam todas as mesmas coisas ao mesmo tempo. Esse grande sentimento falso de pertencimento cria um mundo desmaterializado. Não ver mais as pessoas em carne e osso talvez não impeça o surgimento de laços mais fortes, mas fundir-se aos outros não significa encontrar-se. Isso constitui uma grande armadilha: a despersonalização em vez da afirmação de si.


Istoé - É a ansiedade que gera esse comportamento?


Françoise Héritier - Sem dúvida é ela que leva as pessoas para esse falso lugar de pertencimento. E aí voltamos à questão da origem da ansiedade como fenômeno maior do nosso tempo. Ela é gerada pela insegurança política e econômica, pelos relacionamentos, pelo aumento da expectativa de vida, pela necessidade incessante de proclamar que vai “dar certo” na vida, entendendo isso como a acumulação da maior quantidade de riquezas, honras e reconhecimento dos outros.


Istoé - A chegada de um novo ano suscita emoções que nos permitem criar esperanças?


Françoise Héritier - Na verdade, não. As loucuras e alegrias, familiares ou nacionais, são úteis, mas, além da excitação, elas não têm muito efeito sobre nossa estrutura interna e nossa capacidade de harmonizar a vida.


Istoé - A sra. conhece o Brasil? Acredita que o povo é tão feliz como é proclamado mundo afora?


Françoise Héritier - Já fui a algumas universidades brasileiras, mas nunca passei muito tempo no País. Não acredito que as pessoas sejam mais felizes do que em qualquer outro lugar do mundo. Me informo sobre o País pela imprensa francesa e sou sensível à questão indígena e à das favelas. Também aprecio a política do projeto Bolsa Família, que me parece excelente. Visto daqui, o Brasil parece ter encontrado boas saídas, apesar de ainda ter problemas como a falta de respeito ao direito dos indígenas, o desmatamento consentido e a importância dada à hierarquia social calcada na cor da pele.


Istoé - Por que, mesmo com tantos problemas, o brasileiro é alegre?


Françoise Héritier - Por que sorriem apesar de tudo? Porque guardam, mesmo em tempos complicados, a capacidade de aproveitar o instante, sem reservas.


Istoé - Os franceses são conhecidos por ser um povo antipático e mal-humorado. Existem povos que aproveitam mais a vida do que outros?


Françoise Héritier - Não acredito que existam povos naturalmente mais inclinados a saborear a vida. Porém, encontramos mais vontade nos povos empreendedores, jovens e ávidos por experiências. Talvez os franceses estejam muito cheios de experiências para saber como saborear a vida. Acredito que essa reputação nos foi atribuída de forma justa. Os franceses são irritadiços, estão sempre decepcionados, desinteressados, rabugentos... Atualmente, eles me decepcionam muito. Esse tipo de pobreza intelectual ao qual nos resignamos me entristece. O motivo? Nesse espírito progressista, a saciedade imediata dos desejos é colocada como prioridade no lugar da vivência de momentos inesquecíveis.


Istoé - A sra., que sucedeu Claude Lévi-Strauss, poderia imaginar como ele veria a sociedade hoje?


Françoise Héritier - Ele tinha uma visão muito pessimista do nosso mundo atual, pensava que ele faliria por conta da superpopulação e da devastação do meio ambiente. Ele via um mundo saturado de tudo: imagens, palavras, indivíduos, tecnologias... Uma espécie de “veneno interno” com efeitos nocivos e prazo de validade próximo.


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 10 de janeiro de 2014.



Claudio Conti* comenta


Sem sombra de dúvidas que passamos por momentos interessantes e, também, críticos para a nossa vida como espíritos imortais que somos.


Ao mesmo tempo em que a quantidade de espíritos encarnados vem aumentando grandemente, a distância entre eles encurtada proporcionalmente com os meios de comunicação disponíveis, o ser humano desenvolveu meios para ficarem mais distanciados uns dos outros. A tecnologia, cada vez mais, simula o contato entre as pessoas e, com isso, este vai sendo substituído sem que nos apercebamos do que vem acontecendo.


A disponibilidade de informação, tanto sobre os acontecimentos importantes no mundo e que merecem atenção, quanto sobre banalidades do dia a dia sobre os considerados famosos e sobre o indivíduo comum, ocupa tempo importante que poderia ser usado de tantas outras formas.


Já tivemos oportunidade de comentar aqui no site sobre a necessidade de tempo disponível para que o indivíduo possa desenvolver sua capacidade criativa e de análise sobre os acontecimentos em sua vida. (Pesquisadora sustenta que crianças ociosas se tornam mais criativas, http://www.espiritismo.net/content,0,0,3148,0,0.html).


A busca desenfreada, por parte dos pais, em ocupar todos os momentos do dia de seus filhos com atividades, sejam elas quais forem, inclusive com a tecnologia, levam, forçosamente, ao vício. Hoje em dia, muitos dos automóveis já trazem como acessório de fábrica telas de vídeo para fins de entretenimento; "gadgets" são dados as crianças durante as refeições para se manterem entretidas; e tantos outros exemplos disponíveis, basta olhar em volta em um restaurante ou agrupamento qualquer.


Sem querer parecer saudosista, mas sendo, pois não tem como evitar, algum tempo atrás havia paisagem pelas janelas dos automóveis ou ônibus, hoje em dia há, nas grandes cidades, o engarrafamento, carros e ônibus enfileirados, parecendo não ter fim; os alimentos eram preparado em casa e, por isso, tinham um sabor específico, que hoje é denominado de "caseiro", atualmente os alimentos são comprados prontos, normalmente congelados e com sabor específico de "comida congelada".


Contudo, isto não significa que tudo era uma maravilha, muitos erros e equívocos assim como muita alienação também ocorriam. Estamos apenas contabilizando uma nova modalidade e que, em decorrência do seu surgimento, necessita ser trabalhada.


A tecnologia quando bem utilizada pode ser uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento individual e coletivo, com grande oportunidade de desenvolvimento da criatividade e grande facilitador para estudantes e professores. Donde decorre a conclusão que o verdadeiro problema é o mau uso e esta conclusão serve para tudo e todas as coisas.


O que podemos apreender do que foi dito é que esta e outras questões são dificuldades do espírito ainda ligado ao mundo de expiação e provas. Vivemos dificuldades que surgem para podermos trabalhar nossos valores. Enquanto continuarmos neste mecanismo de fuga, qualquer coisa será apenas mais um motivo.


* Claudio Conti é graduado em Química, mestre e doutor em Engenharia Nuclear e integra o quadro de profissionais do Instituto de Radioproteção e Dosimetria - CNEN. Na área espírita, participa como instrutor em cursos sobre as obras básicas, mediunidade e correlação entre ciência e Espiritismo, é conferencista em palestras e seminários, além de ser médium pscógrafo e psicifônico (principalmente). Detalhes no site www.ccconti.com.