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Holanda paga com cerveja alcoólatras que catam lixo nas ruas

23 de maio de 2014



Holanda paga com cerveja alcoólatras que catam lixo nas ruas



Anna Holligan
Da BBC News em Amsterdã


Um grupo de alcoólatras em Amsterdã, capital da Holanda, está recolhendo lixo das ruas e recebendo cerveja como pagamento, em um projeto parcialmente financiado pelo governo do país.


A iniciativa, encabeçada pelo grupo Rainbow, uma empresa privada que conta com verbas estatais, visa a proporcionar melhor qualidade de vida aos alcoólatras, ao mesmo tempo em que lhes estimula a contribuir para a sociedade.


É muito difícil tirar essas pessoas do álcool completamente. Nós já tentamos de tudo e isso é a única coisa que funciona. Podemos não fazer deles pessoas melhores, mas agora eles têm uma vida melhor e também é bom para a cidade, porque estão contribuindo para o meio onde vivem", afirma Janet van de Noord, coordenadora do projeto.


A Rainbow não divulga exatamente quanto o governo gasta provendo cerveja de graça para os participantes do projeto, temendo que uma eventual repercussão negativa possa prejudicar o financiamento.


Mas Van de Noord defende que a iniciativa é uma maneira eficaz de lutar contra o impacto do alcoolismo na sociedade holandesa.


"Se as pessoas estão sendo presas, isso também custa dinheiro à sociedade. Então esse projeto só pode ser uma coisa boa e não vejo porque outros países não poderiam fazer o mesmo", sugere.



Orgulho


Rene, de 52 anos, percorre as ruas catando lixo. Seus movimentos refletem um certo orgulho que ele agora tem de si mesmo. Um sentimento nada comum para um homem que já pagou tão caro por causa do vício.


"Eu tenho quatro filhos e três ex-mulheres, mas o álcool acabou com tudo", resume.


"Eu não os vejo mais, eles não sabem onde estou e nem se estou vivo. Agora eu só tenho ele. Ele está aqui há 30 anos, nas horas boas e ruins", diz ele, em referência ao hábito de beber.


Seu olhar afetuoso navega para baixo e repousa sobre uma lata de alumínio.


Os alcoólatras se reúnem em um salão comunitário, administrado pela Rainbow. A organização ainda presta assistência aos moradores de rua e viciados em drogas, além dos alcoólatras.


Rene acaba de abrir sua terceira cerveja do dia. São apenas 11h30 da manhã.


Ele e outros 19 colegas de trabalho chegam às 9h e catam lixo até às 15h. Eles fazem pausas para tomar cerveja, fumar e almoçar. Tudo de graça.


O inconfundível aroma de stamppot, um traditional ensopado de legumes holandês, predomina na cozinha.


"Eles gostam de cozinhar e acabam descobrindo qualidades que nem sabiam que tinham", diz Van de Noord.


Quando perguntei a alguns holandeses o que achavam do projeto, todos disseram que apoiavam a iniciativa inusitada do governo.



Queda na criminalidade


A dez minutos de ruas agora sem lixo está o parque Oosterpark.


Desde que o programa de limpeza por alcoólatras começou, há um ano, a polícia diz ter recebido menos ocorrências de esfaqueamentos e roubos no local.


A Rainbow está otimista de que o sucesso obtido até agora vá atrair mais financiamentos para que possam incluir mais pessoas no esquema. Outras cidades no país cogitam implantar projetos semelhantes.


Floor van Bakkum, da clínica antinarcóticos de Amsterdã, diz que a iniciativa é uma boa forma de lidar com um grupo muito problemático e associa a estratégia à prática de administrar doses controladas de heroína em viciados na droga.


"Ter um trabalho pode ajudá-los a fazer outra coisa com suas vidas", afirmou Bakkum, alertando que este tipo de iniciativa deve ser monitorada de perto para que não se torne um "convite aberto para beber no parque".


"Este esquema não é indicado para alcoólatras que ainda moram em casa e têm emprego", adverte.


Os fundadores do projeto encaram o alcoolismo como uma "realidade imutável" e resolveram enfrentá-lo com o único artifício que pode agradar os beneficiados pelo projeto.


"Eu venho aqui por causa da cerveja. Se não tivesse a cerveja, por que viria aqui?", indaga Rene.


Independentemente de suas razões, o fato é que Rene e seus amigos estão fazendo uma diferença na comunidade onde vivem e que um dia os marginalizava.


"É verdade", concorda Rene, reconhecendo a ironia. "Eles antes nos tratavam como lixo, e agora nós estamos recolhendo o lixo deles e, como consequência, não somos mais o lixo".


Notícia publicada na BBC Brasil, em 6 de janeiro de 2014.



Jorge Hessen* comenta


O alcoolismo, embora um dos mais graves problemas sociais, tem sido tema reiteradamente utilizado nas piadas de inquietos comediantes. Lamentavelmente se faz muita “gracinha” com assunto extremamente sério. Diversas piadas sobre dipsomaníacos são anunciadas em jornais, rádios, TV e Internet. Muitas alcunhas burlescas e de mau gosto foram boladas, tais como pinguço, manguaça, chapado, cachaceiro, pudim-de-cana , bebum e papudim, entre outros.


Os tratamentos para o alcoolismo são bastante variados porque existem múltiplas perspectivas para essa condição. Aqueles que possuem um alcoolismo que se aproxima de uma condição médica ou doença são recomendados a se tratar de modos diferentes dos que se aproximam desta condição como uma escolha social. Mormente a terapia é complexa, multiprofissional e de longa duração, dependendo da persistência do paciente e sua rede social de apoio para o processo de cura.(1)


Por efeito das inusitadíssimas terapêuticas dos bêbedos das ruas de Amsterdã, capital da Holanda, alguns alcoólatras [moradores de rua](2) estão recolhendo lixo das ruas para receberem latas de cerveja como pagamento pelo serviço. É isso mesmo! O salário dos garis alcoolistas é convertido em muitas latas de cerveja! Segundo os coordenadores, o objetivo do plano é proporcionar “melhor qualidade de vida” aos alcoólatras, estimulando-lhes a contribuir para a sociedade.(3)


Os idealizadores do singular esquema encaram o alcoolismo como uma "realidade imutável" e resolveram enfrentá-lo com o único artifício que pode “acariciar” os beneficiados pelo projeto, ou seja, beber cerveja. Sob a tese da impossibilidade de afastar um alcoólatra da bebida, oferecem-lhes cervejinhas diárias, à guisa de salário, embora convictos de que  os garis-alcoólatras não se tornam pessoas melhores, todavia a cidade fica limpa. Na jornada de trabalho, os garis-alcoólatras  chegam ao serviço às 9h e catam lixo até às 15h, fazem pausas para tomar inofensivas “cervejinhas”, fumar e almoçar. Tudo de “graça” (infelizmente ignoram o altíssimo preço que estão pagando).


O álcool é a droga “lícita” mais consumida no mundo contemporâneo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Imaginem se a ideia holandesa vira moda no Brasil. Seria trágico, afinal de contas o nosso país suplanta a média mundial de consumo de alcoólicos. Os dados são da OMS, publicados em 2012. Segundo a Organização, não apenas a bebida pode gerar dependência, mas também pode levar ao desenvolvimento de outras 200 (duzentas) doenças. Entre os 194 países avaliados, a Organização Mundial da Saúde chegou a conclusão de que o consumo médio mundial para pessoas acima de 15 anos é de 6,2 litros por ano. No caso do Brasil, os dados apontam que o consumo médio é de 8,7 litros por pessoa por ano.


O alcoolismo é um problema crônico e não preserva nenhuma pessoa. As vítimas desta infernal moléstia podem ser celebridades ou anônimos. Alguns famosos conseguiram combater a doença com o tratamento, e hoje estão recuperados. Porém, outros não lograram êxito e acabaram com a carreira e a reputação. Tornaram-se verdadeiros farrapos humanos. A bebida arruína e despedaçou a vida de jogadores de futebol como Garrincha e Sócrates; de cantores como Maysa Monjardim, Whitney Houston, Amy Winehouse, Britney Spears, Raul Seixas, Ozzy Osbourne; atores como Macaulay Culkin, Lindsay Lohan, Keanu Reeves, Mel Gibson; escritores como Nelson Rodrigues, Alexandre Dumas, Mario Quintana, Edgar Allan Poe.


São inúmeras e graves as doenças provocadas pelo álcool. Das 200 (duzentas) doenças, normalmente é o fígado o primeiro órgão a lamentar-se, porém outros podem ser igualmente afetados, com maior ou menor gravidade. Vejamos: fígado gordo, hepatite, fibrose hepática, cirrose, gastrite, pancreatite, anemia, trombose, atrofia cerebral.


O álcool também aumenta o risco de cancro do cólon, que é a terceira causa principal de morte por cancro. Mesmo quando não mata, desfigura e afeta a qualidade de vida. Os tratamentos incluem a remoção de parte do cólon e o uso, temporário ou permanente, de uma bolsa de plástico para recolher os dejetos intestinais (fezes). O que se vê nos hospitais, durante a autópsia do cadáver de um alcoólatra crônico, é algo horripilante. O panorama interno do cadáver pode ser comparado ao de uma cidade completamente destruída por um bombardeio atômico.


Há dois mil anos, Paulo escreveu para os cristãos de Efésio: “e não vos embriagueis com vinho, no qual há devassidão, mas enchei-vos do Espírito.”(4) Como podemos entender o vício? Cremos ser toda dependência química ou psíquica geradora de solicitudes insustentáveis, capazes de levar o dependente a repetir, incessantemente, a ação que sacia, temporariamente, essa “aflição.”(5) Geralmente, decorre de uma ação repetitiva, que nem sempre proporciona prazer imediato, mas que ao longo do tempo torna-se objeto de necessidade exacerbada, inconveniente e prejudicial ao indivíduo.


Para o dependente do álcool, a deterioração física, mental e social é evidente. Basta observar a figura ictérica, inchada, sem controle dos esfíncteres, perambulando pelas ruas, vítima de tremores, de delírios e alucinações, capaz de beber desodorante, álcool etílico, combustível, perfume e até urina [porque sabe que, através dela, parte do álcool ingerido será eliminada].


Desde 2003, os Cientistas já afirmavam ter descoberto um gene importante para a explicação dos inúmeros efeitos do álcool no cérebro, e esperavam poder produzir “um medicamento que desligasse alguns dos efeitos de prazer ligados à ingestão do álcool, e talvez tentar combater o alcoolismo com remédio.”(6) Uma droga alucinógena, popular na década de 60, pode ajudar cientistas a encontrar um tratamento para o alcoolismo. A hipótese é de um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia. “De acordo com os cientistas, pesquisas feitas com ratos, utilizando ibogaína, mostraram que a substância foi capaz de bloquear o desejo de consumir álcool, por meio do estímulo a uma proteína cerebral.”(7)


Estudos feitos recentemente sobre o uso do topiramato em voluntários alcoólatras revelaram que essa droga, comumente usada no tratamento da epilepsia, melhora a saúde geral e reduz o desejo de beber – “embora seus efeitos colaterais preocupem o especialista britânico em psiquiatria do vício, Jonathan Chick, do Royal Edinburgh Hospital, afirmam que os resultados são positivos, especialmente os dados que mostram melhoria na saúde.”(8)


O evangelista Lucas, preocupado com o vício da bebida, escreveu: "Ele [João Batista] será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte."(9) (grifei) Na hostes espíritas, há incautos "líderes" que costumam justificar suas tragadinhas na vil taça com infundados argumentos, como: “todo mundo bebe”; “uns pouco goles não fazem mal”; “só bebo em ocasiões sociais”; (...) “beber moderadamente é até bom para a saúde." Não recomendamos tais tapeações!


Seria plausível a cura de um alcoólatra? Allan Kardec indagou à Espiritualidade se o homem poderia, pelos seus próprios esforços, vencer suas inclinações más [assento aqui os viciados]. Os Espíritos, de maneira objetiva, responderam afirmativamente, explicando que o que falta nos homens [sobretudo nos viciados] é a força de vontade.(10)


Em suma: exoremos ao Senhor da VIDA para que tenha misericórdia dos escravos do álcool.



Notas e Referências bibliográficas:


(1) Disponível em http://www.psicosite.com.br/tra/drg/alcoolismo.htm>, acessado em 13/05/2014;


(2) O Programa não é indicado para alcoólatras que ainda moram em casa e têm emprego;


(3) Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/01/140106_amsterda_ lixeiros_cerveja_fl.shtml>, acessado em 13/05/2014;


(4) Efésios, 5:18;


(5) Do ponto de vista médico, o alcoolismo é uma doença crônica, com aspectos comportamentais e socioeconômicos, caracterizada pelo consumo compulsivo de álcool, na qual o usuário se torna progressivamente tolerante à intoxicação produzida pela droga e desenvolve sinais e sintomas de abstinência, quando a mesma é retirada;


(6) A pesquisa foi publicada na revista científica Cell, Cf. http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2003/12/031212_ alcoholfn.shtml>;


(7) Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2005/01/050119_ alcoolismobg.shtml>;


(8) Cf. revistas científicas Archives of Internal Medicine e Proceedings of the National Academy of Sciences disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/06/080610_ alcoolismo_tratamentos_mv.shtml>;


(9) Lucas, 1:15 e 7:33;


(10) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 909, Rio de Janeiro: Ed. FEB.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.