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A ilha em que todos os habitantes descendem de um único homem

15 de abril de 2014



A ilha em que todos os habitantes descendem de um único homem



Thomas Martienssen
BBC Radio 4


A ilha de Palmerston, situada no Oceano Pacífico, abriga uma das comunidades mais isoladas do planeta. Visitada por um navio de suprimentos duas vezes ao ano - quando muito -, ela fica tão longe de outras regiões habitadas do mundo que apenas os mais intrépidos aventureiros conseguem pisar em seu solo. Curiosamente, a maioria dos seus 62 habitantes descende de um único homem: um inglês que se instalou ali há 150 anos.


Palmerston pertence a um grupo de ilhas conhecidas como Cook Islands, conectadas por um recife de corais que circunda as águas calmas de uma lagoa central.


Os recifes, no entanto, são altos demais, impedindo que hidroaviões pousem na lagoa. Do lado de fora, as águas muito agitadas também dificultam o pouso de aeronaves. A ilha é distante demais de outros pontos habitados, o que também impossibilita o acesso por helicópteros convencionais.


Portanto, só se pode chegar a Palmerston pelo mar. E são nove dias, por barco, da terra habitada mais próxima.



Mar Bravio


Voamos de Londres, via Los Angeles, para o Taiti. De lá, seguimos em um pequeno iate.


Depois de cinco dias velejando, nuvens negras se formam no céu. Começa a chover forte, raios explodindo no mar. A força do vento empurra a vela e o barco tomba 60º para o lado. À mercê dos elementos, somos arrastados pelas águas.


A ilha só pode ser avistada a três quilômetros de distância. E quando o tempo está ruim, não dá para vê-la. Ao longo dos anos, dezenas - senão centenas - de barcos se chocaram contra os recifes que se escondem sob as ondas, deixando muitos marinheiros presos na ilha.


O naufrágio mais recente aconteceu há três anos. O barco ainda pode ser visto, na praia, com um imenso buraco na carcaça. Peças desses navios - motores, madeira, mastros - tudo isso é reaproveitado pelos ilhéus. Nada é desperdiçado em Palmerston.


Navegar em segurança por entre as barreiras naturais que cercam a ilha é algo que só se aprende com anos de prática. Nosso barco, com apenas dez metros de comprimento, terá de ficar ancorado a 500 metros da praia.


Um pequeno barco vem ao nosso encontro, ziguezagueando para desviar dos recifes, com o motor trabalhando duro.


"Olá, sou seu anfitrião", diz o piloto, Rob Marsters. "Ancorem seu barco aqui, vamos levar vocês para a terra e poderão almoçar. Daqui em diante, eu tomo conta de vocês".


Bob é o cabeça de uma das três famílias que vivem na ilha. Elas competem entre si para chegar até os poucos iates que visitam a ilha anualmente. Quem vence a corrida toma conta dos visitantes. Os ilhéus se orgulham de sua hospitalidade e se deliciam em ter companhia extra.


Essa generosidade, a etiqueta da ilha, seu sistema legal e suas tradições foram passados oralmente entre gerações. E são um legado de um único homem, nascido no condado de Leicestershire, na Inglaterra, há mais de 16 mil km de distância.


William Marsters foi o primeiro homem a habitar Palmerston permanentemente, 150 anos atrás.


Ele viveu nas Cook Islands a partir de 1850 e, por volta de 1860, foi nomeado o administrador de Palmerston pelo então dono da ilha, o mercador britânico John Brander. Ele se mudou para a ilha em 1863 acompanhado da esposa e duas primas, todas nativas da Polinésia.


Marsters cobriu a ilha de coqueiros e, durante os primeiros anos, os navios de Brander paravam no local a cada seis meses para coletar o óleo de coco que ele produzia. Aos poucos, as visitas se tornaram mais raras, seis meses se transformaram em três anos. Até cessarem por completo: John Brander tinha morrido.


A rainha Vitória deu a Marsters a posse da ilha. Ele se casou com as primas da esposa e, juntas, as três famílias tiveram 23 crianças. Antes de morrer, em 1899, ele dividiu a ilha em três partes, uma para cada esposa. Hoje, apenas três dos residentes de Palmerston não são descendentes diretos de William Marsters.


O barco Bob Marsters nos leva até a praia. Com suas areias brancas, ela é absurdamente bonita. No mar, centenas de peixes nadam nas águas límpidas.


"Bem-vindos ao meu mundo, uma terra de areias brancas e coqueiros. Nada dá errado em Palmerston", diz o anfitrião, ao nos aproximarmos de sua casa com telhado de metal.


"Menino, pega um coco para o pessoal. Bebam, bebam", ele diz, enquanto o filho abre um coco com um facão.


"Eu adoro esse lugar, todas as pessoas fazendo guerras (no mundo) deveriam vir para Palmerston e sair para nadar, ou jogar voleibol", ele diz. "Ninguém briga aqui".



Pop e internet


De repente, o sussurrar do vento nas folhas dos coqueiros é abafado pelo som agressivo de uma canção da banda europeia Vengaboys.


Oficialmente, Palmerston é um protetorado da Nova Zelândia e dela depende para muitos dos confortos tidos como banais em outros lugares. Moradia, energia e internet (durante duas horas por dia) e, para alguns mais sortudos, sinal de telefone celular.


Mas não existem lojas na ilha. Há apenas dois banheiros. Os ilhéus bebem água da chuva. E dinheiro é usado apenas para comprar suprimentos do mundo exterior, nunca entre os moradores.


"Trabalhamos juntos, amamos uns aos outros e compartilhamos tudo", diz Bob.


"Por exemplo, se fico sem arroz ou farinha, bato na porta ao lado. Se eles têm, me dão".


"Acho bom que as pessoas não vendam coisas aqui. O navio de suprimentos não vem há seis meses mas não choramos por causa do arroz ou da carne. Nós nos viramos com coco e peixe. Agora, quando o navio chega, é como se fosse Natal!", ele ri.


Bob é o prefeito de Palmerston e mora em uma das extremidades da rua principal. É uma faixa de terra com menos de cem metros de comprimento e abriga meia dúzia de prédios.


Em um dos lados da rua está a igreja. Ela é central para a vida da comunidade. Também é uma das construções mais novas - e mais robustas - da ilha. O sino pintado de branco é tudo o que resta da igreja anterior.


Sem qualquer outra terra por perto, Palmerston recebe a força total de qualquer tempestade. Então, os moradores amarram as construções às árvores. Em 1926, um tufão atingiu a ilha, arrancando a antiga igreja do solo.


"As ondas vieram quebrar sobre as casas aqui", explica Bob, apontando para a antiga casa de William Marsters, com mais de seis metros de altura.


"A igreja foi arrastada 200m para dentro da ilha. Nossos pais e mães a trouxeram de volta, empurrando-a por sobre troncos de coqueiro."


Aos domingos, o sino toca às dez da manhã, chamando a comunidade para a missa. Nesse dia, não se trabalha nem se brinca até as 2h da tarde.


Depois da missa, é hora de comer. Como convidado, tenho uma mesa só para mim. Quatro panelas estão alinhadas à minha frente com peixe, arroz, frango e pão doce. Os quatro filhos de Bob têm os olhos fixos na direção da minha mesa. A família inteira tem de esperar até que eu me sirva.


Comida é parte fundamental da vida na ilha. Para a maioria dos palmerstonianos, a pesca toma grande parte do dia. Como visitante, é impossível eu sair de casa sem receber convites para quatro almoços diferentes.


O irmão de Bob, Bill, é pescador.


"O peixe está diminuindo", ele diz. "Antes, os cardumes continham centenas de peixes, hoje não".


Em pé no seu pequeno barco de alumínio que já recebeu vários remendos, Bill navega para além dos recifes, onde as ondas são gigantes, em busca de outras variedades de peixe. Os bolsos de suas calças estão cheios de linha e iscas.


Depois de duas horas usando quatro anzóis longos, só conseguimos pescar dois peixes - entre eles, uma barracuda.


O peixe preferido dos ilhéus é o Calotomus zonarchus, conhecido popularmente como parrotfish (ou peixe-papagaio).


"Na década de 90, os membros do conselho proibiram a pesca do peixe-papagaio por dois anos", ele conta. "Seis meses depois, alguém disse que precisávamos de dinheiro para o Natal e pronto, o assunto foi esquecido".


"Não podemos fazer nada. Qualquer coisa que a gente diga, vão simplesmente ignorar".


O peixe é o alimento principal em Palmerston e também é o único produto de exportação da ilha. Entre uma e duas toneladas de peixe-papagaio são congeladas e coletadas pelo navio de suprimentos que, duas vezes por ano, vem trazer produtos básicos, como arroz e combustível.


Bem, pelo menos, essa é a teoria. Às vezes, o navio simplesmente não vem. Dois anos atrás, ele ficou sem aparecer durante 18 meses.



Casamentos consanguíneos


A localização remota da ilha também cria outros desafios. Ir ao dentista, por exemplo, torna-se um grande empreendimento. Quando a moradora mais idosa da ilha, Mama Aka, com 92 anos, foi receber tratamento dentário em Rarotonga, capital das Cook Islands, levou quatro dias para ela chegar lá. Mas após a consulta, que foi rápida, ela teve de esperar seis meses por um navio que a trouxesse de volta.


E se, para alguns, o isolamento é o grande atrativo da vida em Palmerston, para outros, ele pode ser uma ameaça. Particularmente porque, com exceção de dois professores e uma enfermeira, todos na ilha são parentes.


Bill teve seis filhos com sua primeira esposa, uma mulher que ele pensava ser sua prima de segundo grau.


Mas quando ela era muito nova, tinha sido entregue a outra família pelos pais - prática comum na ilha. Na verdade, Bill e a esposa eram primos de primeiro grau.


"Tinha ouvido dizer que, se você se casa com um primo, isso pode ter um efeito sobre o bebê", diz Bill. "Mas não acreditei até o nascimento do nosso segundo filho. Ele era um bebê normal até os seus seis meses de idade, mas ficou doente. Fomos procurar tratamento na Nova Zelândia, mas não havia nada a fazer".


"Não tem ninguém (que não seja da família) em Palmerston, por isso os casamentos (consanguíneos) acontecem".


O isolamento leva muitos a deixar a ilha. Entre 1950 e 1970, a população de Palmerston chegou a 300.


Um terço da população são crianças, todos parecem saudáveis e felizes ao participar das aulas na escola da ilha.


Mas muitos esperam partir para as cidades a centenas de quilômetros de distância. Eles sonham com mais conforto, melhores salários e, quem sabe, um marido ou uma esposa.


"Pouquíssimos deles voltam. E não ficam em contato com as famílias", disse Mama Aka.



Educação


Shekinah Marsters tem 16 anos e quer ser advogada. Se isso acontecer, ela será a primeira aluna da escola de Palmerston a ir para a Universidade.


Atualmente, ela estuda inglês, matemática, história americana e a vida de Cristo na escola da ilha.


Shekinah já estudou na Nova Zelândia. "Você tem muito mais oportunidades lá, mais coisas para fazer, mais amigos."


"Não fico entediada aqui, mas fico desmotivada. Nado, pesco, toco violão, converso - nada mais".


Nem todos escolhem visitar Palmerston. Na década de 1950, o barco do tenente Victor Clark naufragou nas imediações da ilha e ele teve de viver no local durante nove meses. Anos mais tarde, a filha de Clark, Rose, veio à ilha trazer as cinzas do pai, que tinha morrido aos 92 anos de idade.


"Foi o período favorito da vida dele", conta Rose, que é de Devon, na Inglaterra. Rosa pretendia fazer uma visita curta, mas um ano após chegar, continua na ilha. Ela é professora especializada em crianças com necessidades especiais e cuida de um menino que não consegue frequentar a escola da ilha.


"São uma comunidade muito focada na família, é muito bonito", ela diz. "Aprendi muito observando a maneira como eles são próximos uns dos outros".


Quando não está dando aula, Rose se junta às outras mulheres para fazer chapéus e cestas com folhas de coqueiro.


O delicado trabalho manual, que as mulheres aprenderam com suas mães, não está sendo transmitido para a próxima geração, já que não existem jovens adultos na ilha.


Mas com frequência, o grupo pode ser ouvido rindo e cantando. E de maneira geral, os palmerstonianos têm uma boa vida.


Os dias são longos e a jornada de trabalho é curta.


À tardinha, as crianças nadam ou jogam vôlei. Alguns dos homens se reúnem em torno da única TV da ilha para assistir aos melhores momentos do rúgbi. As mulheres relaxam na rede, rindo e conversando.


Nossa temporada em Palmerston chega ao fim.


Enquanto nos preparamos para partir, Bob chega com uma cesta de peixe e nos oferece dois - para a primeira etapa da nossa viagem.


Olhando para a lagoa, ele diz: "Fomos feitos para desfrutar do mundo, do ar fresco, do sol, das coisas que Deus colocou na Terra. Ele não nos colocou aqui para brigar e odiar uns aos outros".


Seguimos em meio aos recifes, uma jornada que muitos jovens habitantes da ilha farão nos próximos anos. Fica a pergunta: quantos vão retornar?


Notícia publicada na BBC Brasil, em 6 de janeiro de 2014.



Claudio Conti* comenta


O que mais chama a atenção no artigo em análise é a forma como essas pessoas vivem e se relacionam entre si.


Partindo do princípio que são uma comunidade isolada e, por isso, dependentes uns dos outros para a própria sobrevivência, compartilham o que possuem, especialmente alimentos, e, pelo que foi apresentado, existe o respeito mútuo para as oportunidades que se fazem presente, tal como o estabelecimento de uma ordem para o atendimento dos visitantes. Isto sem contar, obviamente, a fraternidade entre todos.


Como seres vivos, todos possuem necessidades para a manutenção da própria vida e somente através deste entendimento é que poderá haver a verdadeira fraternidade, onde cada um respeitaria as conquistas dos outros, viabilizando a ajuda mútua e não a usurpação.


Como uma comunidade isolada e de poucos membros, não haveria outra possibilidade de sobrevivência.


Considerando sob certo ponto de vista, o planeta em que habitamos também não passa de um pedaço circunscrito de terra, lar para uma comunidade de espíritos de determinada categoria, onde os recursos são limitados e escassos. A limitação e escassez não são tão claros por que alguns têm muito mais que necessitam, enquanto que outros não possuem o mínimo para uma vida saudável.


Com o comportamento extrativista que caracteriza a "comunidade" da Terra, os recursos estão cada vez mais menores e precisamos aprender a compartilhar o mais rápido possível.


Se não considerarmos a existência da providência divina, poderíamos dizer que a espécie humana seria a única capaz de ser a causa da sua própria extinção. Isto é decorrente do egoísmo reinante.


A questão que permance é identificar se este grupo de espíritos que vive na Ilha de Palmerston aprendeu a compartilhar por não terem o egoísmo exacerbado ou se a mentalidade humana, em decorrência da capacidade limitada de entendimento e análise, somente é capaz de reconhecer a necessidade da fraternidade quando numa situação em que enxergam o fim iminente.


Se reconhecemos a segunda opção como a verdadeira, seremos forçados a considerar que as condições de habitabilidade do globo se tornarão cada vez mais difíceis, com a escassez e limitações de toda ordem e que, talvez, não haja mais possibilidade de abundância para ninguém.


A humanidade precisa avançar muito e rapidamente para ser capaz de estabelecer um sistema de governo global onde haja honestidade, respeito e a conscientização da interdependência de todos para que a vida se desenrole de forma tranquila e honesta, onde os medos e desconfianças desapareçam.


A bandeira deste sistema de governo não deverá ser outra do que: "Amar ao próximo como a si mesmo".


* Claudio Conti é graduado em Química, mestre e doutor em Engenharia Nuclear e integra o quadro de profissionais do Instituto de Radioproteção e Dosimetria - CNEN. Na área espírita, participa como instrutor em cursos sobre as obras básicas, mediunidade e correlação entre ciência e Espiritismo, é conferencista em palestras e seminários, além de ser médium pscógrafo e psicifônico (principalmente). Detalhes no site www.ccconti.com.