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Brasileiro sofre racismo da própria torcida na Espanha

20 de fevereiro de 2013



Brasileiro sofre racismo da própria torcida na Espanha



Depois de ser expulso, Paulão viu parte da arquibancada imitar um macaco


Um caso de racismo envolvendo um jogador brasileiro marcou a rodada de domingo do Campeonato Espanhol. No clássico da cidade de Sevilha, o zagueiro Paulão foi alvo de ofensas da sua própria torcida ao ser expulso de campo, aos 42 minutos do primeiro tempo, e deixar o Betis com um a menos. No fim, a equipe acabou perdendo para o Sevilla por 4 a 0.


Jogando em casa, o Sevilla ganhava por 1 a 0, com o gol de Bacca aos dois minutos, quando Paulão foi expulso. Enquanto ele saia de campo chorando, alguns torcedores do Betis imitavam gestos de macaco. Aos 31 anos, o zagueiro brasileiro está no clube desde janeiro de 2012, depois de passagens pelo futebol francês e português - no Brasil, ele jogou na equipe do Gama.


Depois da expulsão de Paulão, o Sevilla garantiu a goleada. M'Bia ampliou ainda no primeiro tempo, enquanto Vitolo e Iborra marcaram os gols na segunda etapa. Com a vitória, a equipe chegou aos 19 pontos, na oitava colocação do campeonato - o líder é o Barcelona, com 40. E deixou o Betis na lanterna, com apenas nove pontos em 14 rodadas.


(Com Estadão Conteúdo)


Notícia publicada na Revista Veja, em 25 de novembro de 2013.



Jorge Hessen* comenta


O atleta Paulão, que defendeu a equipe do Gama, aqui de Brasília, sofreu o insulto de racismo por alguns torcedores do Betis, na Espanha. O ex-lateral-esquerdo da seleção brasileira Roberto Carlos saiu agastado de campo, durante uma partida, logo após torcedores russos jogarem uma banana em campo. Em 2005, durante partida da primeira fase da Libertadores, o atacante são-paulino Grafite acusou o zagueiro Leandro Desábato de chamá-lo de “macaco”.(1) Na Semana passada, o jogador Tinga, do Cruzeiro, foi humilhado pela torcida do Real Garcilaso, que fazia coro (imitando voz de macaco) toda vez que o atleta tocava na bola, durante o jogo realizado no estádio de Huancayo, no Peru.


Em que pesem as atuais e severas leis anti-racistas, o racismo continua a ser um grave problema em muitos países, mesmo onde teoricamente não existe, como no caso dos EUA (sobretudo nas zonas do Sul). A crise econômica e a pressão demográfica costumam ser motivo de problemas raciais mais ou menos graves, como sucede na Grã-Bretanha com os imigrantes, na França com os norte-africanos, na Alemanha com os turcos ou na Espanha com a população cigana e os trabalhadores negros ilegais.


Porém, sem dúvida alguma, o racismo brasileiro, ainda escamoteado e acobertado pelo mito da “democracia racial”, é um estigma, uma nódoa presente na mente dos brasileiros, e que faz parte do cotidiano de todos nós. Diante d’Ele, todos são iguais. Valendo-se, ao mesmo tempo, da possibilidade de anonimato e do alcance a milhões de internautas, o racismo tem se espalhado de maneira intensa pelo mundo digital. No Brasil, a divulgação do racismo, mesmo pela internet, significa crime, conforme é caracterizado pela legislação brasileira. A Constituição de 1988 tornou a prática do racismo crime sujeito a pena de prisão, inafiançável e imprescritível.


Os brasileiros atualmente mostram-se, aparentemente, menos preconceituosos do que há duas décadas. Contudo, reconhecemos o preconceito no outro, mas não em nós mesmos. Ou, como já definiu a historiadora da USP, Lilia Moritz Schwarcz, “todo brasileiro se sente como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados”.(2) É preocupante constatar que a ambivalência se mantém. Parece que os brasileiros jogam, cada vez mais, o preconceito para o outro.


Para a ciência contemporânea, o conceito de raça é abstrato e agressivo, pois raças humanas não existem como entes biológicos. É agressivo porque a concepção de raça tem sido usada para abonar discriminação, opressão e barbaridades. “As raças não existem, mas a mentalidade relativa às raças foi reproduzida socialmente”.(3)


A afirmação das raças biológicas multicoloridas tem sido cada vez mais rejeitada pela genética. Os pesquisadores descobriram que a natureza genética de todos nós é idêntica o bastante para que a mínima porcentagem de genes que se caracterizam na aparência física, cor da pele etc., invalide a composição da sociedade em raças. Isso porque o acanhado número de genes desiguais está comumente conectado à adequação do indivíduo ao tipo de meio ambiente em que vive. Todas as raças provêm de um só tronco – o Homo sapiens – portanto o patrimônio hereditário dos humanos é comum.


Atualmente, ramos do conhecimento científico, como a Antropologia, História ou Etnologia, preferem o uso do conceito de etnia para descrever a composição de povos e grupos identitários ou culturais. Nacionalistas do final do século XIX foram os primeiros a abraçar os discursos contemporâneos sobre "raça", etnicidade e "sobrevivência do mais forte" para moldar novas doutrinas nacionalistas.


No texto intitulado “Frenologia espiritualista e espírita – Perfectibilidade da raça negra”(4), Kardec faz uma espécie de releitura dessa “ciência”, com um enfoque espiritualista, demonstrando que o “atraso” dos negros [habitantes da África à época] não se deveria a causas biológicas, mas por seus espíritos encarnados ainda serem, relativamente, jovens.


No bojo da literatura basilar da Terceira Revelação, o Codificador ressalta que "na reencarnação desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. Se, pois, a reencarnação funda numa lei da Natureza o princípio da fraternidade universal, também funda na mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade".(5) Ante os ditames da pluralidade das existências, ainda segundo Kardec, "enfraquecem-se os preconceitos de raça, os povos entram a considerar-se membros de uma grande família".(6)


A verdade é que nos grandes debates de cunho sociológico, antropológico, filosófico, psicológico etc., o Espiritismo provocará a maior revolução histórica no pensamento humano, conforme está inscrito nas questões 798 e 799 de O Livro dos Espíritos, sobretudo quando ocupar o lugar que lhe é devido na cultura e conhecimento humanos, pois seus preceitos morais advertirão os homens da urgente solidariedade que os há de unir como irmãos, apontando, por sua vez, que o progresso intelecto-moral na vida de todos os Espíritos é lei universal e tendo por modelo Jesus, que, ante os olhos do homem, é o maior arquétipo da perfeição que um Espírito pode alcançar.(7)


Com a Mensagem de Jesus, compreendemos que na Terra há uma só raça: a raça humana. Caucasianos, africanos, indianos, árabes, judeus, asiáticos não são de diferentes raças, são apenas de diferentes etnias, no esplêndido reino dos seres racionais.



Referências bibliográficas:


(1) Disponível em http://veja.abril.com.br/noticia/esporte/brasileiro-sofre-racismo-da-propria-torcida-na-espanha>, acessado em 15/02/2014;


(2) Disponível em http://zelmar.blogspot.com.br/2010/09/todo-brasileiro-se-sente-uma-ilha-de.html>, acessado em 22/07/2013;


(3) Disponível em http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2013/02/05/ciencia-busca-explicacoes-sociais-e-biologicas-para-explicar-o-preconceito.htm>, acessado em 20/07/2013;


(4) Publicado na Revista Espírita, artigo “Frenologia espiritualista e espírita – Perfectibilidade da raça negra”, de abril de 1862;


(5) Kardec, Allan. A Gênese, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2002, pág. 31;


(6) Idem, págs. 415-416;


(7) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2003, parte 3ª, q. 798 e 799, cap. VIII, item VI - Influência do Espiritismo no Progresso.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.