Carregando...

  • Início
  • 'Sou feliz', diz paciente que há quatro anos vive em UTI de hospital em RO

Fernando Xavier depende de ventilação mecânica para viver. Ele diz ter adotado os profissionais de saúde que o cuidam. Na unidade, entre um atendimento médico e outro, Fernando ouve hinos religiosos, assiste à televisão e faz poesias. Jorge Hessen comenta.

  • Data :04 Feb, 2014
  • Categoria :

4 de fevereiro de 2014

‘Sou feliz’, diz paciente que há quatro anos vive em UTI de hospital em RO

Fernando Xavier, de 59 anos, depende de ventilação mecânica para viver. Paciente diz ter adotado os 38 profissionais de saúde que o acompanham.

Eliete Marques Do G1 RO

O ambiente frio e triste da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital de Ariquemes (RO) é animado pelo sorriso do paciente Fernando Garcia Xavier, de 59 anos, que há quatro vive na unidade. Ele sofre de esclerose lateral amiotrófica (ELA), e depende de ventilação mecânica para sobreviver. “Adoro viver. Sou plenamente feliz aqui. Deus me escolheu para viver esta vida maravilhosa”, afirma o paciente. A equipe médica afirma que Fernando é exemplo de superação e otimismo.

Sem demonstrar abatimento, Fernando conta que quando procurou ajuda médica, já tinha mais de 40% dos movimentos comprometidos pela doença. Com isso, começou o processo de exames e de internação. No dia 2 de novembro de 2009, Fernando deu entrada na UTI, e continua na unidade desde então. No inicio do mês, uma festa comemorou os 59 anos de idade de Fernando e seus quatros anos de internação na unidade. Com direito a bolo, balões e refrigerantes, Fernando festejou a data junto aos filhos e a equipe da UTI.

Na unidade, entre um atendimento médico e outro, Fernando ouve hinos religiosos, assiste à televisão e faz poesias. O paciente é animado e gosta de conversar. “Só pelo fato de existir, eu já sou feliz. Eu tenho tudo que eu preciso; amor, atendimento e carinho. As pessoas não se dão conta que são felizes e só esperam alcançar a felicidade amanhã, sendo que elas podem ser felizes hoje”, enfatiza.

Fernando lembra que chegou a Ariquemes em 1976; foi casado durante 25 anos e é pai de cinco filhos. Segundo ele, a família aumentou bastante desde que ‘adotou’ os 38 funcionários da UTI onde vive. Uma dessas filhas adotivas é a biomédica Fernanda Souza, uma das profissionais que transcreve as poesias ditadas pelo paciente. A profissional de saúde expõe que o paciente sempre fala de Deus, amor e otimismo nas poesias e que é um exemplo de vida.

“Apesar da gente não ter nenhum laço de sangue, eu considero ele como pai e ele me trata como filha, como um pai verdadeiro, que na verdade nem conheci. Ele é vitorioso, porque mesmo deitado nesta cama, sempre está com um sorriso no rosto”, destaca.

Sem cura

O médico intensivista da UTI, Adalberto Coelho, explica que a esclerose lateral amiotrófica é uma doença neurodegenerativa e progressiva, onde as células do cérebro são afetadas e causa a perda motora. A doença não tem cura, mas apesar da paralisação do corpo, o paciente preserva a capacidade cognitiva.

“A parte sensitiva e intelectual do seu Fernando continua preservada, mas a parte motora vai perdendo a força progressivamente, até chegar à parte respiratória, fazendo com que ele fique dependente de um aparelho para respirar”, esclarece.

O médico explica que mesmo que o paciente tivesse condições de adquirir o equipamento de ventilação, ainda dependeria de uma equipe multidisciplinar para sobreviver. A internação dele é custeada pelo Sistema Único Saúde (SUS).

“O seu Fernando sabe da grande paixão que tenho por ele. Ele tem uma história linda de superação, mesmo antes da doença, seu Fernando teve seus problemas pessoais e superou. A doença não deixou ele parar de crescer espiritualmente. Ele é uma pessoa muito religiosa, confiante e feliz; uma pessoa extraordinária, que a gente admira muito”, conclui o médico.

Notícia publicada no Portal G1 , em 21 de novembro de 2013.

Jorge Hessen comenta*

Assisti ao vídeo contido no link  http://youtu.be/Zpu0-eI5Y2o e fiquei maravilhado. Constatei que há pessoas admiráveis que, embora portadoras de graves entraves físicos, amam viver a vida em plenitude e superam obstáculos que desafiam a própria razão. Li reportagem sobre Fernando Xavier, uma dessas criaturas extraordinárias. Ele sofre de esclerose lateral amiotrófica - “ELA”, também conhecida por doença de “Lou Gehrig” ou mal de “Charcot”. Uma patologia neurodegenerativa progressiva.(1) À medida que a moléstia progride, geralmente depois da perda das habilidades de locomoção, fala e deglutição, se não houver tratamento imediato, o doente desencarna em pouco tempo, devido a incapacidade respiratória advinda pela atrofia dos músculos associados à respiração. A expectativa de vida varia de indivíduo para indivíduo, mas, em termos estatísticos, mais de 60% dos doentes só sobrevivem entre 2 a 5 anos.(2)

Contam os especialistas que os portadores da “ELA” são pessoas especiais e apaixonantes, buscam esclarecimento e novas possibilidades de tratamento para a doença, e, sobretudo, lutam constantemente para sobreviver. Para corroborar essa verdade, quatro anos atrás, Xavier foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital de Ariquemes, no estado de Rondônia. Desde sua internação, fala de Deus, de amor e de otimismo nas suas construções poéticas (escritas com auxílio de uma cuidadora), pronunciando que adora viver ao que chama de “vida maravilhosa” e que é plenamente feliz no hospital.(3)

Recordo o austero físico britânico Stephen (William) Hawking, talvez um doente nem tão otimista quanto Xavier, porém é considerado um dos mais brilhantes cientistas do século 20. Ajudou a entender a origem do universo, a função dos “buracos negros” e, de quebra, escreveu as 262 páginas do maior best-seller da ciência para leigos: “Uma Breve História do Tempo”. Conseguiu tal façanha sem poder mover o corpo. Aos 21 anos foi diagnosticado com “ELA”. Os médicos lhe deram 2 anos de vida. A doença afetou a fala, cada vez mais desarticulada, entretanto ele conseguia se comunicar. Ditou à secretária o rascunho do livro em 1984.

Em 1985, porém, Hawking teve uma pneumonia grave e precisou fazer uma traqueostomia de emergência, o que o levou a perder definitivamente a voz. Mudo e quase todo paralisado, passou a levantar uma sobrancelha quando alguém apontava para letras. Mais tarde, adotou o software Equalizer, que permite escrever frases selecionando palavras de um menu com um movimento sutil da bochecha. Por fim, um sintetizador de voz instalado com o Equalizer trouxe de volta a fala (eletrônica). Hawking ocupou a cadeira de Isaac Newton na Universidade de Cambridge até 2009, comunicando-se apenas com imperceptível movimento da bochecha.

Nestas reflexões, surgiu-me à mente a personalidade de Antônio Francisco Lisboa, “o aleijadinho”, vítima de uma hanseníase deformante, mas isso não o impediu de insculpir diante da Igreja do Santuário do Senhor do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo/MG, 66 estátuas da via Crucis, em cedro-rosa e 12 estátuas dos profetas, em pedra-sabão, entre outras obras-primas do barroco brasileiro.

Não poderia deixar de citar Helen Adams Keller, uma das dez mulheres mais importantes dos EUA. Keller era escritora e conferencista norte-americana. Nasceu cega, surda e muda e tornou-se um símbolo de tenacidade na superação de suas próprias deficiências. Aos 6 anos, passou a ser orientada por Anne Sullivan (jovem irlandesa de 21 anos de idade, recém-formada pela Escola de Cegos Perkins, de Boston/EUA). A menina Helen e a jovem Anne, ambas com perseverança ímpar, realizaram um prodígio: graças à tenacidade fraternal de Sullivan, Helen aprendeu a ler, escrever e pronunciar palavras, diplomando-se em humanidades, com louvor, no Radcliffe College, de Cambridge/EUA, em 1904.

Nos termos desses argumentos, invoco o sobre-humano vulto de Jerônimo Mendonça Ribeiro, um orador e escritor espírita de primeira linha. Mesmo encarcerado numa cama ortopédica (era tetraplégico e totalmente cego), trabalhava duramente pela difusão do Espiritismo. Sua via crucis começou aos 17 anos, quando foi acometido por uma artrite reumatoide deformante. Aos 19, passou a usar muletas e, sem encontrar um tratamento médico possível, foi gradualmente impelido para cadeira de rodas e posteriormente sentenciado para uma cama ortopédica (penitenciária móvel). Como se não bastasse, ele teve problemas cardiológicos. Apesar das grandes dificuldades, sempre mantinha o bom ânimo e dava conselhos a milhares de espíritas que o visitavam para rogar ajuda.

Deitado no leito ortopédico, depois de perder o movimento das pernas, dos braços e a visão, Jerônimo Mendonça criou uma gráfica, escreveu 5 livros, gravou 2 LPs e em 1983 fundou algumas instituições espíritas, com destaque para o Lar Espírita Pouso do Amanhecer, que atende desde então 200 crianças carentes diariamente.

Certa vez, um repórter lhe perguntou o que é a felicidade. Ele respondeu: “a felicidade, para mim, deitado há tanto tempo nesta cama sem poder me mexer, seria poder virar de lado”. Jerônimo sempre com bom humor dizia: “Casei-me com a Doutrina Espírita no civil e com a dor no religioso (…) Nesta batalha [contra a doença] é preciso lutar e vencer, jamais ser vencido. Enquanto me ferem os grilhões, liberto-me do homem velho que fui, antevendo horizontes inatingidos (…) Onde a mestra dor dar-me-á a alforria merecida”.

Ganhou de um grande amigo espírita uma kombi, a fim de que pudesse ser conduzido às conferências que realizava. Não seria demasia dizer que ele conseguiu transformar seu “leito-prisão” numa espécie de tribuna ambulante. Percorreu todo o país, e por meio dela conseguiu realizar valiosos trabalhos. Sua voz sempre bem postada, seu ânimo inquebrantável, apesar das dores que sentia em função de problemas cardíacos e da própria paralisia total dos membros, fizeram-no conhecido como “O Gigante Deitado”, respeitado, querido e sempre requisitado para importantes eventos espíritas.

Em razão das diversas viagens que fez para divulgar a Terceira Revelação, Jerônimo segredou gostosamente:

“- Minha mãe é uma mulher analfabeta de 82 anos, mas de Espírito muito inteligente. Ela chegou perto de mim e disse: - Você vai viajar outra vez? - Eu disse: Sim.

  • Meu filho, eu não entendo. Estou quase acreditando nesta reencarnação (ela não era Espírita) de que você tanto fala.

  • Falei: Por quê, mãe?

  • Eu não tenho 9 filhos? - Tem.

  • Dos 9 você não é o único paralítico? - Sou.

  • Pois é… e é o único que não para em casa!

  • Falei: - Mãe!! Mas eu não posso ser paralítico da alma! Paralítico do corpo é uma coisa, porém a mais terrível paralisia é a paralisia da alma. É a alma que se sente inútil dentro da vida…”

A cama ortopédica era a sua cruz e a dor, a sua companheira inseparável; todavia, em Jesus ele encontrou o conforto e o melhor exemplo que seguiu a vida inteira. Muitas vezes a pressão arterial e a frequência cardíaca, em momentos de crise, não conseguiam ser medidos pelos esfigmomanômetros, tal a sua fragilidade. E imaginar que Jerônimo Mendonça jamais parou de viajar, trabalhar, agir. Seu lema era: “Não perder a calma jamais.”

Jerônimo permaneceu tetraplégico e cego por mais de trinta anos consecutivos, preso ao leito-prisão até o seu desencarne, ocorrido em novembro de 1989. Na sua desencarnação, um fato bastante intrigante aconteceu durante o velório. Sabemos que o leito em que viveu deitado por mais de 30 anos era uma cama adaptada com várias dobras, pois as suas pernas não podiam ficar abaixadas. Quando seu corpo estava na funerária os funcionários quiseram serrar as pernas curvadas do “Gigante Deitado” para esticá-las, pois não havia ataúde apropriado. Foi um episódio chocante e a cidade de Ituiutaba inteira se movimentou contra a decisão. Ao final a funerária teve que confeccionar um esquife adaptado para aquele corpo disforme, que foi templo de uma das mais belas almas do Universo.

Referências:

(1) A “ELA” não compromete o raciocínio intelectual, a visão, a audição, o paladar, o olfato e o tato;

(2) É preciso que o paciente, a partir de um determinado estágio da doença, seja acompanhado de perto por outra pessoa, em função da incapacidade de executar as suas tarefas rotineiras. Como a doença não afeta as suas capacidades intelectuais, o paciente percebe tudo que acontece a sua volta, vivencia, por isso, lucidamente a doença e a sua progressão, havendo porém dificuldades de comunicação com outras pessoas, caso já exista comprometimento dos músculos da fala;

(3) Disponível em http://g1.globo.com/ro/rondonia/noticia/2013/11/sou-feliz-diz-paciente-que-ha-quatro-anos-vive-em-uti-de-hospital-em-ro.html >, acessado em 01/02/2014.

  • Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.