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Mulher relata drama como escrava em loja na Rússia por mais de dez anos

13 de janeiro de 2014



Mulher relata drama como escrava em loja na Rússia por mais de dez anos


Daniel Sandford
Da BBC News, em Moscou


A história de Leyla Asherova, mantida como escrava em uma loja de Moscou por mais de dez anos e forçada a entregar sua filha, ilustra como imigrantes de países como Uzbequistão e Cazaquistão podem sofrer na Rússia.


Ela é uma das 11 imigrantes que trabalhavam em condições de escravidão em um mercado da capital russa e que foram liberadas por ativistas de organizações que combatem o tráfico de pessoas.


Leyla chegou a Moscou há uma década, quando ainda tinha 16 anos, para trabalhar como balconista de uma loja em dos subúrbios do leste de Moscou, acreditando tratar-se de uma boa oportunidade. Mas ela jamais foi paga pelos serviços.


"Quando eu cheguei, logo no primeiro dia, eles levaram meu passaporte. Aí percebi que a dona da loja estava espancando uma das meninas. Ela puxava o cabelo e chutava a garota com muita força. Foi quando eu me dei conta de que tinha vindo parar no lugar errado", conta.



Rotina de escravidão


Ela relembra que era forçada a trabalhar durante muitas horas seguidas, com pouca alimentação, e sempre temendo ser alvo de violência.


"A dona da loja me batia muito. Uma vez ela me espancou por mais de duas horas sem parar. Eu ainda tenho marcas nas pernas, no corpo e no rosto. Ela me bateu até mesmo quando eu estava grávida", diz.


Leyla está grávida novamente, após dar à luz duas crianças no cativeiro. Uma delas, o menino Bakhyr, de seis anos, está com ela no abrigo em que os imigrantes resgatados estão morando provisoriamente.


A segunda, Diana, que teria cinco anos, foi tirada da mãe à força. Mais tarde Leyla ficou sabendo que a menina teria morrido ao cair de uma varanda, mas ela não tem certeza sobre a veracidade da história.


"Quando ela (a dona da loja) me contou que minha filha estava morta, fiquei completamente paralisada. Não senti pânico ou qualquer outra emoção, só pensei que precisava fazer alguma coisa para garantir que ela não ficasse impune por isso".


Leyla diz que o pai das crianças pertence à família da dona da loja. Ela não usou a palavra estupro, mas relatou que o homem a espancava com muita frequência.


Ela foi libertada quando um grupo de ativistas invadiu o mercado e encontrou muitas pessoas dormindo nos fundos da loja.


A maioria nunca tinha recebido permissão para cruzar a porta de entrada do estabelecimento.



Polícia e subornos


Leyla conta que pedir para algum cliente da loja ligar para a polícia seria inútil, já que a dona do mercado oferecia subornos regulares a diversas autoridades e policiais.


Ela diz que os policiais costumavam devolver à dona da loja todas as meninas que tentavam fugir.


Ao tentar reportar o caso ao Comitê de Investigação russo, órgão semelhante à Polícia Federal no Brasil, ela recebeu como retorno uma tentativa de prisão por imigração ilegal, mas após uma longa negociação, ativistas conseguiram libertá-la mais uma vez.


As investigações sobre o período de dez anos em que foi mantida como escrava foram encerradas, mesmo sem avançar e sem incluir a prisão de nenhum dos acusados.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 16 de novembro de 2012.



Luiz Gustavo C. Assis* comenta


Quando nos deparamos com uma notícia desta, ficamos chocados frente à brutalidade e a violência. Escravidão em pleno século XXI? Contudo, percebemos, avaliando os noticiários nacionais e internacionais, que esta notícia, apesar de mostrar algo absurdo, nos prova que a escravidão ainda acontece em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. O tráfico de pessoas é uma realidade.


Mas, o que isto traz para nós, estudiosos da doutrina espírita? Em que pode nos ajudar a refletir?


Para nós que acreditamos em Deus, nos traz diversos questionamentos: Como Deus permite que isto aconteça? Por que uma moça de 16 anos, que parece não ter feito nada de errado, fica presa por 10 anos sofrendo todo tipo de abuso? Onde a Justiça Divina frente a tanto sofrimento, a tanta impunidade?


Ora, o espiritismo nos explica que Deus é bom e justo, e neste, como em outros casos, apenas a multiplicidade das existências pode nos ajudar a entender o porquê de tanto sofrimento. Diz-nos Allan Kardec, em O Evangelho segundo o Espiritismo: “Entretanto, desde que se admite a existência de Deus, não é possível concebê-lo sem suas perfeições infinitas. Ele deve ser todo-poderoso, todo justiça, todo bondade, pois sem isso não seria Deus. E se Deus é soberanamente justo e bom, não pode agir por capricho ou com parcialidade. As vicissitudes da vida têm, pois, uma causa, e como Deus é justo, essa causa deve ser justa.”


“(...) Em virtude do axioma de que todo efeito tem uma causa, essas misérias são efeitos que devem ter a sua causa, e desde que se admita a existência de um Deus justo, essa causa deve ser justa. Ora, a causa sendo sempre anterior ao efeito, e desde que não se encontra na vida atual, é que pertence a uma existência precedente. Por outro lado, Deus não podendo punir pelo bem que se fez, nem pelo mal que não se fez, se somos punidos, é que fizemos o mal. E se não fizemos o mal nesta vida, é que o fizemos em outra. Esta é uma alternativa a que não podemos escapar, e na qual a lógica nos diz de que lado está a justiça de Deus.”


Assim, devemos considerar que somos espíritos ocupando, temporariamente, um corpo de carne na Terra, um planeta de provas e expiações, buscando o nosso melhoramento moral e espiritual. É através das diversas existências que vamos nos livrando de nossas imperfeições, expiando e reparando as faltas que cometemos contra nós mesmos, ou contra nossos irmãos. Tudo que plantamos, colhemos. Essa a lei de causa e efeito. Como nos diz o palestrante espírita Divaldo Pereira Franco: “Somos Herdeiros de nós mesmos!”


Dessa forma, se nossa irmã Leyla Asherova passou por toda esta problemática, e se não encontramos na existência atual causas que expliquem o porquê de tanto sofrimento, devemos procurá-las em existências passadas. Lembremo-nos de que todos os nossos atos bons e ruins têm consequências, boas ou ruins. “Sempre se é punido por aquilo em que se pecou”, conforme nos ensina Allan Kardec.


Leyla, portanto, se passou por esta situação, talvez tenha feito alguém passar por algo parecido. Também é possível que ela própria, ao arrepender-se, haja escolhido essa expiação. Seus algozes dessa existência também sofrerão futuramente, terão que expiar todo o mal que fizeram o próximo passar, e vários são os Mecanismos da Lei Divina para fazê-los resgatar este mal.


Tenhamos certeza, não há um ato errado que fique impune frente à Justiça Divina. Não há um ato bom que fique sem a devida recompensa. Tudo o que fazemos retorna com a mesma intensidade para nós, nesta ou em outra existência. Eis a lei de causa e efeito. Procuremos, então, fazer todo o bem possível, evitemos fazer o mal. Amemo-nos uns aos outros, porque, assim, encontraremos apenas o amor em nossos caminhos, nesta e em futuras existências.


* Luiz Gustavo C. Assis é psicólogo, trabalhador do Centro Espírita Maranhense, em São Luís do Maranhão, e da equipe do Espiritismo.net.