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Ufólogos se reúnem em centro espírita e buscam apoio do governo

9 de janeiro de 2014



Ufólogos se reúnem em centro espírita e buscam apoio do governo



ANNA VIRGINIA BALOUSSIER
DE SÃO PAULO


Pedro Álvares Cabral, quando vislumbrou terra à vista, os viu. Pois, 513 anos depois, o governo brasileiro começa a abrir os olhos também.


Ademar José Gevaerd, 51, é quem assina embaixo. Para ele, há tempos sabemos que há extraterrestres entre nós. "Uma coisa tão óbvia...", diz uma das autoridades em ufologia do Brasil.


Professor de química, divorciado, pai de três filhos, o curitibano alisa com a mão os cabelos brancos, alguns fios abduzidos por iminente calvície.


"A sociedade ridiculariza cada vez menos. Não somos loucos, somos pessoas normais, fazendo pesquisa", continua o editor (e redator, fotógrafo, diagramador...) da revista "UFO", há 30 anos em circulação.


E o que caiu do céu e não são óvnis, para Gevaerd, é a nova posição do Planalto - comandado pela presidente Dilma, que em agosto disse ter "muito respeito pelo ET de Varginha".


Em 18 de abril, o secretário-geral do Ministério da Defesa, Ari Matos, recebeu integrantes da Comissão Brasileira de Ufólogos. "As partes estão em contato com o objetivo de constituir uma comissão", segundo a pasta.


Se o grupo vingar, civis e militares unirão forças pela primeira vez para apurar as "inúmeras ocorrências" de veículos aéreos "com tecnologia incompatível com as conhecidas pela ciência terrestre atual" (fenômeno que teria sido registrado pelas Forças Armadas no território brasileiro).


Essas informações estão descritas numa carta enviada pelos ufólogos ao ministro Celso Amorim. A ideia de montar a comissão, diz o governo, é "dar início" à investigação conjunta.



JESUS, UM ET


Música para os ouvidos dos 270 inscritos no 2º Encontro de Ufologia Avançada em São Paulo, realizado no fim de semana passado, numa casa na Vila Clementino (zona sul) que, geralmente, dedica-se ao espiritismo.


Uma forte corrente alia evidências de vida fora da Terra a manifestações em geral vistas como religiosas.


Uma certeza desse grupo: o próprio Jesus Cristo veio de fora, implantado no ventre da mãe. "Foi inseminação artificial mesmo, em Maria", diz Mônica de Medeiros, que coordena a Casa do Consolador e lançou, no evento, "Projeto Contato", livro escrito em parceria com Margarete Áquila.


Margarete ajeita o tubinho verde com ares de anos 1970, camisa social de manga comprida e gola para fora, e lembra do francês Allan Kardec - pai da doutrina espírita que já mencionava a "pluralidade dos mundos".


Um desses mundos fez contato com 189 pessoas em dezembro de 2004, na praia de Peruíbe (SP), diz Mônica. Os seres tinham "pele de golfinho" e uma cabeça que parecia "bola de futebol americano". Todos viram luzes coloridas no céu, e a temperatura "despencou em pleno verão".


Com cinco anos, Mônica acredita ter sido abduzida por um "camarada branco, leitoso e cabeçudo". Hoje, avalia assim: "Pra mim, era o Gasparzinho. Eles usam o imaginário da criança [para estabelecer contato]".


Se é verdade que os ETs estão por aí há tempos, a meta, para os ufólogos, é estreitar o relacionamento.


No mural, o cartaz anuncia: "Contatos imediatos de 5º grau". A imagem traz aliens com mãos para cima e dedos separados (lembra a saudação de "Star Trek") e uma vaquinha sendo levada pela faixa de luz de uma nave.


Gevaerd, o editor da "UFO", elenca eventos que comprovariam as visitas dos forasteiros - que, para ele, têm formato humano e preferem se comunicar por telepatia (quando não, aprendem "o idioma do interlocutor").


Episódio marcante, diz, foi a "noite oficial dos óvnis", em 19 de maio de 1986. Na data, a Aeronáutica teria avistado nos céus de vários Estados "21 ufos esféricos, com 100 metros de diâmetro, o tamanho de uma quadra urbana". Campo de visão privilegiado: aeroporto de São José dos Campos.


"Toda região ficou coalhada desses objetos", afirma Gevaerd.


Ele faz as contas: "dez elevado a 70 é o número de estrelas que existe. São 70 zeros depois do dez". Estarmos sozinhos no universo seria matematicamente ridículo, sustenta o crédulo.


Todos querem acreditar.


No intervalo do encontro, Telma Pires, 60, está sentada numa cadeira de plástico branco, bebendo o último gole de sua Coca-Cola Zero. Diz que trabalha com um "tribunal arbitral", para ajudar pessoas a se conciliarem. Aproximar humanos e alienígenas, contudo, é a causa mor na vida dessa senhora que, quando criança, "desenhava ETzinhos nas paredes de casa".


Fã do livro "Eram os Deuses Astronautas?" (1968), Telma diz que seu filho nasceu alienígena. Quando criança, bonecos aliens eram os favoritos dele na loja de brinquedos. Quando o menino tinha dois anos, viu os pais brigando e declarou: "Mamãe, não chora, nunca vai dar certo, o papai não é do mesmo planeta que nós".


Como tantos outros entusiastas da ufologia, Telma crê que a humanidade está sendo estudada por seres de outro planeta. "Me sinto dentro da Matrix." E ela se resigna: hoje, infelizmente, "reptilianos comandam tudo".



PROCURE SABER


As versões são numerosas: ETs frequentam centros espíritas, simulam a imagem de Gasparzinho para se aproximar de crianças ou "entram pelas paredes como se elas não fossem sólidas e fazem coleta de pele e de sangue, um grande banco de dados da humanidade" (aposta de Gevaerd).


Tudo o que os ufólogos pedem, no fim, são recursos para poderem estudar os viajantes espaciais. Daí o afã com o aceno do Ministério da Defesa.


Na era da Lei de Acesso à Informação, o governo abriu 4.500 documentos secretos sobre o que seriam investigações federais na área da ufologia, guardados no Arquivo Nacional, em Brasília. "Mas sabemos que são pelo menos 10 vezes isso", diz Gevaerd.


Notícia publicada no Jornal Folha de São Paulo, em 8 de setembro de 2013.



Sergio Rodrigues* comenta


Com base na razão e no uniforme ensinamento dos Espíritos, Allan Kardec concluiu pela pluralidade mundos habitados, e no livro “O que é o Espiritismo” incluiu essa questão como um dos problemas solucionados pelo Espiritismo. Embora a ciência humana ainda se debata com a ideia, buscando comprovação, a Doutrina Espírita tem como um dos postulados básicos essa premissa, afirmando que a reencarnação dos espíritos dá-se não apenas na Terra, mas também em outros mundos. “Acreditar que só haja seres vivos no planeta que habitamos fora duvidar da sabedoria de Deus, que não fez coisa alguma inútil. Certo, a esses mundos há de ele ter dado uma destinação mais séria do que a de nos recrearem a vista...”, comenta o Codificador.


Segundo estudos das ciências astronômicas, existem no Universo vários bilhões de galáxias. Um número tão grandioso que fica difícil imaginar. A Terra pertence a uma galáxia conhecida como “Via Láctea” (do latim “caminho do leite”, por sua aparência leitosa). Só a nossa galáxia abriga entre 200 e 400 bilhões de estrelas, com os seus sistemas planetários. A nossa galáxia não é das maiores galáxias do Universo, mas se fizermos uma estimativa com base nas dimensões da nossa galáxia e do número de planetas que o nosso sistema solar possui, e se implementarmos uma progressão geométrica desses valores a todo o Universo, vamos chegar a um número inimaginável de planetas. Acreditar que tudo exista para nada ou unicamente em função da Terra é ferir a razão. Nada poderia justificar o privilégio exclusivo de ser ela habitada com exclusão de tantos milhares de milhões de mundos.


À época de Kardec, vários Espíritos deram testemunho de vida em outros planetas, como podemos constatar na Revista Espírita de 1858, com mensagens dos espíritos Mozart e Pallissy, testemunhando a vida no planeta Júpiter, que pertence ao nosso sistema solar. Alguns anos depois (1935 e 1939), nas obras “Cartas de Uma Morta” e “Novas Mensagens”, os espíritos Maria João de Deus (mãe de Chico Xavier) e Humberto de Campos também trazem testemunho da vida no planeta Marte.


Portanto, para o Espiritismo, a existência de vida em outros planetas é uma questão resolvida, não restando qualquer dúvida a respeito. A notícia comenta que entidades governamentais estão dando suporte a pesquisas levadas a efeito por entidades não-governamentais nessa direção. Resta-nos aguardar que esses estudos prosperem, novos conhecimentos sejam trazidos e que possam ser utilizados para o bem da humanidade.


Com relação a alguns pontos da matéria, algumas observações devem ser feitas, sob a ótica do ensinamento espírita:


1) “Uma forte corrente alia evidências de vida fora da Terra a manifestações em geral vistas como religiosas.”


É preciso entender que essa não é uma questão que envolve religiosidade. Não se trata de uma questão de fé, mas de fato, de comprovação científica. O tema deve ser estudado e pesquisado independente de qualquer denominação religiosa, sem sofrer influência de suas concepções, princípios e artigos de fé. A questão é de natureza científica e como tal deve ser abordada.


2) “Uma certeza desse grupo: o próprio Jesus Cristo veio de fora, implantado no ventre da mãe. Foi inseminação artificial mesmo, em Maria."


Esta é uma conclusão que não pode ser acolhida pelo Espiritismo. Essa possibilidade não é citada em nenhum dos Evangelhos, nem encontramos qualquer argumento racional que pudesse justificar essa conclusão. É semelhante à teoria da concepção de Jesus pelo Espírito Santo, criada pela Igreja para afirmar uma hipotética virgindade de Maria. Kardec explica no livro “A Gênese” que Jesus foi concebido e nasceu como todos os homens nascem na Terra, de acordo com as Leis Naturais, por processo absolutamente conforme essas leis.


3) “Um desses mundos fez contato com 189 pessoas em dezembro de 2004, na praia de Peruíbe (SP), diz Mônica. Os seres tinham "pele de golfinho" e uma cabeça que parecia "bola de futebol americano". Todos viram luzes coloridas no céu, e a temperatura "despencou em pleno verão".


A possibilidade de habitantes de outros planetas virem à Terra também é aceita expressamente pela Doutrina, conforme a questão 94a de “O Livro dos Espíritos”. Nesta hipótese, o espírito precisaria revestir seu perispírito de elementos extraídos do fluido cósmico do planeta.


4) “As versões são numerosas: ETs frequentam centros espíritas, simulam a imagem de Gasparzinho para se aproximar de crianças ou entram pelas paredes como se elas não fossem sólidas e fazem coleta de pele e de sangue, um grande banco de dados da humanidade" (aposta de Gevaerd).


O fato de espíritos de outros planetas se apresentarem em centros espíritas é absolutamente normal, como aconteceu à época de Kardec com os espíritos acima citados. Penetrar pelas paredes como se elas não fossem sólidas é uma faculdade do espírito, pois a nossa matéria não lhes obsta o deslocamento. Quanto a fazerem coleta de pele e de sangue para formarem um grande banco de dados da humanidade é uma informação que ainda carece de comprovação.


* Sergio Rodrigues é espírita e colaborador do Espiritismo.Net.