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'Enterro' do carro de Chiquinho Scarpa é ação a favor de campanha

14 de novembro de 2013



'Enterro' do carro de Chiquinho Scarpa é ação a favor de campanha



Milionário falou nesta sexta, 20, sobre doação de órgãos: 'Tem gente que enterra algo bem mais valioso, coração, rim, seus órgãos. Isso sim, é absurdo'.


Gabriela Pestana
Do EGO, em São Paulo


Céu cinza, sol tímido e um clima de despedida no ar nesta sexta-feira, 20, em São Paulo. O cenário descrito estava bem adequado ao de um enterro, o que realmente estava previsto para acontecer. Chiquinho Scarpa havia chamado a imprensa para cobrir o enterro de seu carro milionário no jardim de sua mansão. Mas depois de toda a controvérsia que levantou, Chiquinho revelou que tudo tinha um motivo bem mais nobre: o lançamento de campanha de doação de órgãos.


Mas antes da revelação, Chiquinho fez todo um mise-en-scène, chorou, lamentou-se. O carro chegou a ir para a cova. "Para. Vamos fazer uma coisa. Vou parar com o enterro. Vou convidar a todos para entrar em minha casa", disse ele no momento em que o carro seria enterrado.


Dentro de casa, Chiquinho disse: "Bom dia a todos, obrigado pela presença. Gostaria de falar algumas coisas antes do enterro. Acharam um absurdo, disseram que estou louco, que eu deveria doar (o carro). Disseram que era um desperdício. Fui julgado por isso".


Em seguida, revelou o real propósito do "enterro do carro". "Mas a verdade é que tem gente que enterra algo bem mais valioso, coração, rim, seus órgãos. Isso sim, é um absurdo. O que poderia salvar a vida de várias pessoas. O meu Bentley não é mais valioso que isso. Não sou louco, não vou enterrar meu carro. Fiz isso para chamar atenção para essa causa. Eu sou doador, e você, é? Basta avisar qualquer pessoa da sua família. Você pode salvar milhares de pessoas", disse ele.


Depois, Chiquinho justificou a mentira: "Se eu não fizesse isso, não teria ninguém aqui. Eu só espero que gostem ainda de mim. Eu não sou louco."



Início da polêmica


Chiquinho Scarpa anunciou no Facebook na segunda-feira, 16, que iria enterrar seu Bentley novo, que atualmente custa entre R$ 925 mil e R$ 1,075 milhão, no jardim de sua casa. Chiquinho postou uma foto ao lado de seu veículo. Na legenda, o anúncio do enterro: “Decidi fazer como os faraós: essa semana vou enterrar meu carro favorito, o Bentley, aqui no jardim de casa! Enterrar meu tesouro no meu palácio”.


A partir de então, o conde colocou seu plano em ação. Ele começou a cavar a cova com uma pá, mas chegou a conclusão de precisaria de uma escavadeira. Deixou o espaço pronto para a celebração que aconteceu nesta manhã, às 11h. Todo o processo, que teve direito até a "última polidinha", movimentou as redes sociais. A foto ao lado do carro rendeu milhares de curtidas, muitos compartilhamentos.


Notícia publicada no Portal Ego, em 20 de setembro de 2013.



Jorge Hessen* comenta


Um milionário do estado de São Paulo montou recentemente um cenário curioso e instigante.(1) Ele anunciou nas redes sociais que enterraria seu carro Bentley (de quase 1 milhão de reais), no quintal da sua mansão. Para isso, convidou a imprensa e cavou a cova com uma escavadeira, deixando um espaço reservado para o “velório”. Todavia, durante a celebração revelou para os presentes o real propósito do “enterro” do carrão. Disse que as pessoas estão sepultando algo bem mais valioso que seu Bentley. Assinalou que enterrar um coração, um rim, um fígado e outros órgãos, isso sim é loucura. Órgãos humanos podem salvar a vida de várias pessoas. Proferiu que seu Bentley não é mais valioso que órgãos humanos. Portanto, não era louco para enterrar o carro, apenas promoveu o “funeral”, a fim de chamar atenção para a causa da “doação de órgãos”, afirmando-se doador.


Sobre o assunto doação de órgãos para transplante há poucas informações concernentes sobrevindas dos Espíritos, até porque é uma prática muito recente da ciência médica. Nos exercícios médicos de todas as especialidades, o transplante de órgãos é a que demonstra, com maior clareza, a estreita relação entre a morte e a nova vida. Sabemos haver espíritas que são avessos à doação de seus próprios órgãos após a desencarnação. Entretanto, a doação de órgãos para transplantes é doutrinariamente correta. “Se a misericórdia divina nos confere uma organização física sadia, é justo e válido, depois de nos havermos utilizado desse patrimônio, oferecê-lo, graças as conquistas valiosas da ciência e da tecnologia, aos que vieram em carência a fim de continuarem a jornada.”(2)


É importante fazermos a seguinte reflexão: se, hoje, somos doadores, amanhã, poderemos ser (ou nossos familiares e amigos) receptores de órgãos. “Para a maioria das pessoas, a questão da doação é tão remota e distante quanto à morte. Mas, para quem está na “fila” esperando um órgão para transplante, ele significa a única possibilidade de vida! “Verdadeira bênção, o transplante de órgãos concede oportunidade de prosseguimento da existência física, na condição de moratória, através da qual o Espírito continua o périplo orgânico. Afinal, a vida no corpo é meio para a plenitude – que é a vida em si mesma, estuante e real.”(3)


Em entrevista à TV Tupi, em agosto de 1964, publicada na Revista Espírita Allan Kardec, ano X, n° 38, Francisco Cândido Xavier comenta o seguinte: “Transplante de órgãos, na opinião dos Espíritos sábios, é um problema da ciência muito legítimo, muito natural e deve ser levado adiante.” Os Espíritos, segundo Chico Xavier, “não acreditam que o transplante de órgãos seja contrário às leis naturais. Pois é muito natural que, ao nos desvencilharmos do corpo físico, venhamos a doar os órgãos prestantes a companheiros necessitados deles, que possam utilizá-los com proveito”.(4)


Questão que também invariavelmente é levantada é a rejeição do organismo após a cirurgia. O Espírito André Luiz considera “a rejeição como um problema claramente compreensível, pois o órgão do corpo espiritual está presente no receptor. O órgão perispiritual provoca os elementos da defensiva do corpo, que os recursos imunológicos em futuro próximo, naturalmente, vão suster ou coibir.”(5) Especialistas, a partir de 1967, “desenvolveram várias drogas imunossupressoras (ciclosporina, azatiaprina e corticóides), para reduzir a possibilidade de rejeição, passando então os receptores de órgãos a terem uma maior sobrevida”.(6) Estatisticamente, o que há é que “a taxa de prolongamento de vida dos transplantes é extremamente elevada. Isso graças não só às técnicas médicas, sempre se aperfeiçoando, mas também pelos esquemas imunossupressores que se desenvolveram e se ampliaram consideravelmente, existindo atualmente esquemas que levam a zero por cento (0%) a rejeição celular aguda na fase inicial do transplante, que é quando ocorrem”.(7)


André Luiz explica que “quando a célula é retirada da sua estrutura formadora, no corpo humano, indo laboratorialmente para outro ambiente energético, ela perde o comando mental que a orientava e passa, dessa forma, a individualizar-se; ao ser implantada em outro organismo [por transplante, por exemplo], tenderá a adaptar-se ao novo comando [espiritual] que a revitalizará e a seguir coordenará sua trajetória”.(8)


Outra coisa importante é que não há reflexos traumatizantes ou cerceadores no perispírito, em correspondência à mutilação do corpo carnal, ou seja, o doador de córneas, por exemplo, não regressará “cego” ao Mundo Espiritual. Se fosse regra geral haver impacto do corpo físico doador no corpo espiritual, o que seria daqueles que têm o corpo carbonizado pelo fogo ou pulverizado numa explosão? O que dizer da cremação, que reduz o cadáver a cinzas? A doação de órgãos para transplantes não afetará o corpo espiritual do doador, a menos que acreditemos ser injusta a Lei de Deus e estarmos no Planeta à deriva da Sua Suprema Vontade. Lembremos que nos Estatutos do Criador não há espaço para a injustiça, e o transplante de órgãos (conquista da ciência) é valiosa oportunidade, dentre tantas outras, colocada à disposição do homem para o exercício do amor.



Referências bibliográficas:


(1) Disponível em http://ego.globo.com/famosos/noticia/2013/09/enterro-do-carro-de-chiquinho-scarpa-e-acao-favor-de-campanha.html>, acessado em 30/10/2013;


(2) Franco, Divaldo Pereira. Seara de Luz, Salvador: Editora LEAL [o livro apresenta uma série de entrevistas ocorridas com Divaldo entre 1971 e 1990.];


(3) Franco, Divaldo Pereira. Dias Gloriosos, ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador/BA: Ed. LEAL, 1999, Cf. Cap. Transplantes de Órgãos;


(4) Entrevista de Francisco Cândido Xavier à TV Tupi, em agosto de 1964, publicada na Revista Espírita Allan Kardec, ano X, n° 38;


(5) Cf. Revista Espírita Allan Kardec, ano X, n° 38;


(6) Folha de S.Paulo, A3, “Opinião”, 15.Maio.2001;


(7) Entrevista com o Prof. Dr. Flávio Jota de Paula, Médico da Unidade de Transplante Renal do HC/FMUSP. 1º Secretário da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Diretor da I Mini Maratona de Transplantados de Órgãos do Brasil. Publicado em Prática Hospitalar, ano IV, nº 24, nov-dez/2002;


(8) Xavier, Francisco Cândido. Evolução em dois Mundos – Ditado pelo Espírito André Luiz. 5ª Ed. Rio de Janeiro, RJ: Ed. FEB, 1972, cap. “Células e Corpo Espiritual”.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.