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Nova 'Bíblia da psiquiatria' amplia lista de transtornos e gera polêmica

7 de outubro de 2013



Nova 'Bíblia da psiquiatria' amplia lista de transtornos e gera polêmica



Alessandra Corrêa
De Nova York para a BBC Brasil


A quinta edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em tradução livre), conhecido como a "Bíblia da psiquiatria", será lançada neste fim de semana, nos EUA, cercada de muita polêmica.


Há meses, especialistas e leigos vêm discutindo como as mudanças previstas na nova edição manual, elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association, ou APA, na sigla em inglês), poderão impactar o diagnóstico de doenças mentais, em um momento em que, segundo estudo da Universidade de Harvard, quase metade dos americanos adultos em algum momento da vida sofrem de algum transtorno mental.


Segundo seus críticos, o novo manual - que será lançado durante o encontro anual da APA, de 18 a 22 de maio, em San Francisco, na Califórnia - amplia ainda mais o número de doenças mentais, além de aumentar as chances de alguém ser diagnosticado com os transtornos já existentes, reduzindo o número de sintomas necessários para que um paciente se encaixe em determinado diagnóstico.


Com isso, cresceria o número de pessoas tratadas com medicamentos para transtornos mentais - e, consequentemente, o mercado para a indústria farmacêutica.


Uma das principais críticas é a de que o DSM-5 estaria transformando em doenças comportamentos até agora considerados comuns, como o sofrimento após a perda de alguém próximo (a partir de agora, o luto que durar mais de duas semanas será considerado sintoma de depressão), colocando em discussão a fronteira entre o que é considerado "normal" e o que pode ser definido como doença mental.


"As fronteiras da psiquiatria continuam a se expandir; a esfera do normal está encolhendo", disse o psiquiatra Allen Frances, que comandou a comissão responsável pela quarta edição do DSM, em uma carta ao jornal The New York Times.


"Como presidente da Força-Tarefa do DSM-IV, eu devo assumir responsabilidade parcial por essa inflação de diagnósticos. Decisões que pareciam fazer sentido foram exploradas por empresas farmacêuticas em campanhas de marketing agressivas e enganosas. Elas venderam a ideia de que problemas da vida cotidiana são na verdade doenças mentais, causadas por desequilíbrios químicos e curadas com uma pílula", diz Frances, que é professor emérito da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, e um dos maiores críticos do DSM-5.



Influência


Publicado desde 1952 pela APA, que é considerada a organização psiquiátrica mais influente do mundo, o DSM é usado por médicos de todo o planeta, inclusive do Brasil, além de servir como base para a classificação de doenças mentais incluídas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde.


Com tamanho impacto no diagnóstico e tratamento de doenças mentais no mundo todo, o DSM sempre foi alvo de polêmicas a cada nova edição. A última, de 1994, foi revisada em 2000.


"As edições anteriores foram provavelmente ainda piores que o DSM-5 vai ser", disse à BBC Brasil a psicóloga Paula Caplan, da Universidade de Harvard, que durante dois anos participou da comissão responsável pela elaboração da edição anterior.


Caplan diz ter abandonado a comissão "por questões éticas e profissionais" e por ter testemunhado o que classifica de "distorções" em pesquisas. Ela aborda o tema no livro They Say You are Crazy: How the World's Most Powerful Psychiatrists Decide Who's Normal ("Eles dizem que você é louco: Como os psiquiatras mais poderosos do mundo decidem quem é normal", em tradução livre).


"Há pelo menos 20 anos, tem se tratado como doença mental quase todo tipo de comportamento ou sentimento humano", diz Caplan.



Alternativa


Desta vez, porém, as críticas vieram até da maior organização de pesquisa em saúde mental do mundo, o National Institute of Mental Health (Instituto Nacional de Saúde Mental, ou NIMH, na sigla em inglês), ligado ao governo americano.


Na semana passada, o diretor do NIMH, Thomas Insel, anunciou que o instituto está "reorientando suas pesquisas" e se distanciando das categorias do DSM.


"A fraqueza (do DSM) é sua falta de fundamentação", escreveu Insel em seu blog. "Seus diagnósticos são baseados no consenso sobre grupos de sintomas clínicos, não em qualquer avaliação objetiva em laboratório."


"Os pacientes com doenças mentais merecem algo melhor", disse Insel, ao mencionar o Projeto de Pesquisa em Domínio de Critérios (Research Domain Criteria, ou RDoC, na sigla em inglês), em que o NIMH pretende desenvolver um sistema de classificação de doenças mentais mais preciso, que inclua genética, ciência cognitiva "e outros níveis de informação".


Em resposta às críticas de Insel, o presidente do grupo que elabora o DSM-5, David Kupfer, professor de psiquiatria na Universidade de Pittsburgh, disse que esforços como o do RDoC são "vitais para o contínuo progresso da nossa compreensão coletiva dos transtornos mentais", mas ressaltou que "não podem nos servir aqui e agora e não podem substituir o DSM-5".


"O novo manual (DSM-5) representa o mais sólido sistema atualmente disponível para classificar doenças (mentais). Reflete o progresso que fizemos em várias áreas importantes", disse Kupfer.


Mesmo críticos como Frances ou Insel reconhecem que, apesar dos problemas, o DSM ainda é a melhor alternativa disponível no momento.


Para que recebam reembolso das seguradoras de saúde por tratamentos, os pacientes precisam que as doenças das quais sofrem sejam diagnosticadas oficialmente. O mesmo vale para alguns programas e benefícios governamentais nos EUA, o que faz com que muitos defendam a ampliação do número de diagnósticos.


"O impacto do DSM é muito amplo", disse à BBC Brasil o psicoterapeuta Gary Greenberg, autor do livro The Book of Woe: The DSM and the Unmaking of Psychiatry ("O livro do Infortúnio: O DSM e o desfazer da psiquiatria", em tradução livre).


"As pessoas não deveriam se preocupar especificamente com o DSM-5, as versões anteriores já fizeram seu estrago. O que o DSM-5 está fazendo é chamar a atenção para os problemas atuais da psiquiatria, mas isso deve preocupar mais os psiquiatras do que os pacientes", disse.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 15 de maio de 2013.



Cristiano Carvalho Assis* comenta


Quando lemos a reportagem nos perguntamos: Onde a Psiquiatria deseja chegar? O excesso de diagnósticos e as quantidades de emoções que estão sendo catalogadas como doenças mentais nos levam a crer que os estudiosos e as Indústrias Farmacêuticas desejam criar robôs, pessoas desprovidas de sentimentos e dependentes de medicações. Onde sentir a perda de pessoas amadas, ter tristeza nas frustrações ou ter momentos de melancolia são errados e devemos lutar ou destruir qualquer destes sentimentos.


Sabemos que por trás disso existe um poderoso interesse financeiro para se vender remédios, com a falsa noção de felicidade simples, rápida e em um comprimido. Abstemos-nos de comentar a grande responsabilidade futura desses poderosos conglomerados farmacêuticos mundiais, mas nos preocupamos com esta ideia vendida e aceita por milhões de pessoas.


Muitos se enganam em acreditar que a pessoa equilibrada é aquela que não sente nada nas contrariedades da vida. Normalmente dizemos que apenas com os psicopatas isso acontece. As outras pessoas sentirão algo nos acontecimentos, mesmo que queiram esconder de si mesmo ou que na hora pensam não ter tido nenhuma influencia em sua vida. O transtorno mental poderá vir como consequência da forma que lidamos com esses sentimentos. E isso é uma característica específica de cada um, englobando seus aspectos intelectos-morais e espirituais. Taxar, especificando a quantidade de dias, que isso é normal ou desequilibrado, em um universo tão grande de pessoas, é arriscado e fadado a erros.


Podemos considerar que pouca influência isso terá sobre as pessoas em geral, mas analisando os argumentos e observando o dia a dia em nossas Casas Espíritas, podemos concluir que se os psiquiatras não tomarem cuidado com o DSM em seus diagnósticos poderão agravar o problema do paciente.


Uma das maiores dificuldades no amparo ou auxilio na melhora dos outros ou de nós mesmos são os rótulos colocados pela medicina, psicologia, por nós mesmos ou pelos outros. Como é difícil melhorarmos nosso lado espiritual e emocional quando eu acredito ser algo.


Devido à grande pressa de todos os lados, os diagnósticos psiquiátricos e psicológicos estão sendo comparados às lanchonetes de fastfood, onde chegamos e desejamos logo receber o resultado de nossos problemas e uma medicação a se tomar. Alguns profissionais têm chegado a diagnósticos quase imediatos, em apenas uma consulta de poucos minutos e com quase nenhuma pergunta aos pacientes. E o guia principal de suas conclusões não é a experiência clínica ou uma investigação profunda no ser a sua frente, mas apenas um livro que lista cada vez menos sinais e sintomas e conclusões de diagnósticos imediatos. Sendo taxativos em dizer “você é ...”


Quantos taxados esquizofrênicos eram apenas médiuns; depressivos que tinham apenas deficiências de vitaminas ou hormônios ou era apenas um momento de perda do seu porto seguro? Quanto mais diagnósticos criarmos para designar os mais simples sentimentos em desequilíbrio, mais doenças criaremos. Mas nem por isso teremos mais pessoas saudáveis, pois não estaremos tratando as causas que estão em nossa intimidade só porque estamos tratando-as como doenças.


Os médicos psiquiatras ou os psicólogos precisam compreender que quando chegam a um diagnóstico e mencionam ao seu paciente está praticamente assinando uma sentença a ele, pois muitos deixarão de ser o Paulo, a Maria ou o José e passarão a se ver como o esquizofrênico, o depressivo, o possuidor de toc, o desequilibrado mental. Não estamos dizendo aqui que não devemos dar valor aos diagnósticos médicos, mas sim que, muitas vezes, a associação do tratamento médico com o espiritual poderia chegar a um diagnóstico muito menos pesado e o tratamento mais efetivo, sem a rotulação que, por vezes, perdura o resto da vida no íntimo da pessoa e dos que as rodeiam.


A sabedoria não está em não sentir nada através de remédios, mas sim saber lidar e trabalhar com todos os sentimentos que afloram do nosso ser quando as contrariedades e perdas da vida ocorrerem, mas sabendo que cada um tem seu tempo e sua forma de reagir.


* Cristiano Carvalho Assis é formado em Odontologia. Nasceu em Brasília/DF e reside atualmente em São Luís/MA. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Maranhense e colaborador do Serviço de Atendimento Fraterno do Espiritismo.net.