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Costureira pede para continuar presa com medo de não arrumar emprego

29 de setembro de 2013



Costureira pede para continuar presa com medo de não arrumar emprego



A história de Viviane Cristina de Oliveira, de 37 anos, poderia ser facilmente confundida com a de muitas outras mulheres casadas com presidiários no Rio de Janeiro. Isso se não fosse por uma diferença: por causa da prisão do marido, ela acabou se envolvendo com atividades ilícitas para sustentar a casa.


Presa por tráfico de drogas e condenada a 16 anos e dez meses, Viviane teve que passar quase quatro anos e meio presa em regime fechado na Penitenciária Talavera Bruce, no Complexo de Bangu. 'Pensei que tudo tinha acabado para mim, que tinha perdido tudo, meus filhos. Tenho dois filhos (hoje com 21 e 14 anos) e eles tiveram que ficar com a minha sogra. Ela acabou me ajudando muito, porque eu estava arrasada lá dentro', conta.


Por meio de uma agente penitenciária que conheceu antes de ser presa, quando ainda ia visitar seu marido no complexo prisional, Viviane acabou reorganizando sua vida e voltou a costurar dentro do presídio. "Ela me botou na cozinha e, quando saiu minha sentença, me transferiu (para a oficina de costura)."


O trabalho na oficina de costura do presídio deu certa segurança a Viviane. Mas, quando ficou sabendo que sua pena poderia progredir para regime semiaberto (quando o preso ganha o direito de passar o dia na rua e voltar para a prisão apenas para dormir), foi tomada por um grande medo. Ela sabia que não seria fácil arrumar um emprego fora da cadeia.


"Quando estava para passar para o semiaberto, eu ia negar. Eu falei: 'estou para ir para o semiaberto, mas não quero ir, porque as condições lá são nenhuma. Se eu ganhar (o semiaberto), eu vou acabar evadindo (fugindo do sistema)", disse.


Com a garantia de que conseguiria um emprego como costureira na Fundação Santa Cabrini, órgão do governo fluminense responsável por ajudar presos e ex-presos a arrumar trabalho, Viviane saiu do regime fechado. Há sete meses no semiaberto, hoje ela pode sair às ruas e ainda ganhar dinheiro para realizar o sonho de montar uma confecção de roupas.


"Me envolvi no tráfico mais ou menos para ter dinheiro. Acabei me envolvendo muito e não dava para voltar. Mas já tinha essa vontade (de montar uma confecção). Já tenho máquinas e vou comprar outras, porque isso é o que eu quero fazer. E, com a confecção, vou ver se consigo resgatar mulheres como eu."


Agência Brasil


Notícia publicada no Portal Terra, em 5 de janeiro de 2013.



Nara de Campos Coelho* comenta


Costureira de costumes


Por que tanta dor no mundo? Indagamos sempre. E o Espiritismo nos ajuda a entender que a dor tem a ver com escolhas mal feitas, que se não são identificadas é porque residem em passado remoto. Isto porque somos regidos pela Lei de Causa e Efeito e, uma vez feita a escolha, a dor estará atrelada a ela, naturalmente. Podemos, porém, alterar daqui ou dali as consequências, se utilizarmos a Lei de Amor, já que ele cobre a multidão de pecados, como nos ensinou o Apóstolo Pedro. Assim, se ofendermos as Leis Divinas, exemplificadas pelo Mestre, vamos sofrer, até que aprendamos o conteúdo da lição que desprezamos; esta é a verdade, traduzida no alerta de Jesus: “ A cada um, segundo suas obras”.


Iniciamos, assim, este comentário, porque temos a tendência de ver a vida como se estivéssemos espremidos entre o berço e o túmulo, vendo a dor como injusta. E, com o Espiritismo, aprendemos que não é. Eis que somos Espíritos eternos que reencarnamos vezes sem conta com vistas à evolução integral. E estas encarnações se dão no lugar certo, com a família que precisamos, com as oportunidades que merecemos, para superar as nossas próprias deficiências, galgando, em sequência, mais um degrau evolutivo.


Na notícia que estamos comentando, a costureira, dona de casa e mãe de família, teve o marido preso. Ficou cuidando de dois filhos já grandes, auxiliada pela sogra. O que fez para sustentá-los? Foi vender drogas... Disse ela em seu depoimento: “Me envolvi no tráfico mais ou menos para ter dinheiro...” Como se não bastasse seu marido já estar preso, ela, ao invés de procurar um trabalho digno, buscou as drogas, porque trazem mais dinheiro, sem se importar com os prejuízos que traria à comunidade, aos filhos de outras mães, destruindo-lhes a saúde, a família, a dignidade. Tudo por dinheiro. Tudo por egoísmo, por falta de amor ao próximo, fruto de uma visão materialista da vida. Esta tem sido uma rotina entre muitos, fazendo girar a roda da dor, interminavelmente, o que tem sido chamado de círculo vicioso de sofrimento. Eis que esta costureira já reencarnou em ambiente hostil ao bem, com deficiências de todos os matizes, pela própria necessidade evolutiva. Ela merecia isto, cabendo-lhe superar por esforço próprio tais vicissitudes. Mas, ela caiu de novo.


Uma vez na cadeia, a costureira teve oportunidade do trabalho digno, aproximando-se do equilíbrio emocional que desconhecia. Teve medo de sair, porque a sociedade brasileira está desequilibrada, já que os poderosos encarregados de administrá-la deturparam o sentido de bem comum, optando pelo bem próprio, atuando por sua vez com o egoísmo típico do materialismo dominante. Na cadeia, ela se sentia protegida de si mesma e do que ela não queria mais para si.


O Espiritismo, ao nos dizer que somos artífices do nosso futuro, lança sob nossa própria responsabilidade as opções que fazemos da vida com suas consequências. Se somos vítimas, o somos de nós mesmos. Se queremos a felicidade, temos que plantá-la, cuidar para que cresça e se comunique aos nossos entes queridos e sociedade em que vivemos. Eis que só teremos uma sociedade justa quando os homens forem justos. Só teremos governantes honestos, quando os eleitores o forem também.


Que a costureira consiga sair deste círculo vicioso de sofrimento e, orientando seus filhos sob os ditames da dignidade e da honradez, suba seu precioso degrau na escalada evolutiva, ajudando a costurar os costumes com a superioridade moral indispensável a quem quer ser feliz!


* Nara de Campos Coelho, mineira de Juiz de Fora, formada em Direito pela Faculdade de Direito da UFJF, é expositora espírita nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, articulista em vários jornais, revistas e sites de diversas regiões do país.