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João do céu e da terra

21 de setembro de 2013



João do céu e da terra



A face humana do mais endeusado médium brasileiro, que atrai milhões de seguidores para o Entorno do Distrito Federal


por Clara Becker e Lilian Tahan


Dezoito horas de uma quarta-feira de agosto. Toca um iPhone. O dono atende no viva-voz, como de costume. Era a sua corretora. Três de seus apartamentos estão à venda em Brasília. Ela informa que, até então, não havia aparecido comprador. Uma das atuais inquilinas recusara o preço definido para o imóvel que habita. O proprietário diz que quer o local desocupado. A corretora adverte que a quebra de contrato implicaria multa. Ao ser questionada sobre o preço, a voz feminina esclarece: “Três vezes o valor do aluguel de 800 reais”. A orientação é dada em tom enérgico: “Pague a multa e tire a pessoa de lá”. Esse é João, o homem. Incorporado por uma entidade, carrega Deus como sobrenome.


O médium com poder de atrair gente do mundo inteiro para Abadiânia (GO), pequena cidade do Entorno do Distrito Federal, transita entre o espírito e a carne, a cura e a doença, o desprendimento e a vaidade, os gestos de generosidade e os negócios terrenos, os amores e os arroubos de cólera. É João de Deus, ou John of God, para milhões que já confiaram a ele os males do corpo e da alma, tratados, por vezes, com pinças, tesouras e facas de cozinha. Para poucos, é João Teixeira de Faria, seu nome verdadeiro.


Roberto Kalil, cardiologista da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, admite dividir pacientes com o médium. “Não os encaminho, mas sei que tratamos de casos em comum. Sou católico e espiritualista, acredito que há algo maior”, diz Kalil. Ele é também o médico de João Teixeira de Faria, que sofreu obstruções na artéria do coração e teve de colocar seis stents para corrigir a enfermidade.


Filho de uma dona de casa e de um alfaiate, João, o caçula de cinco irmãos, nasceu em Cachoeira da Fumaça, município de Goiás com menos de 2 000 habitantes. Era pobre. Aos 14 anos aprendeu o ofício do pai. Costurava fardas para o Exército. Até hoje conserva o gosto pelo corte certeiro. Seus ternos são impecáveis. Foi ainda pedreiro, oleiro, cisterneiro e tintureiro. A mediunidade teria se manifestado aos 9 anos, quando previu uma forte tempestade e a derrubada de casas em Itapaci (GO). No início, ele rejeitou o suposto dom. Sentia-se diferente, tinha medo. Aos 18, aceitou o que chama de missão.


Na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, a 117 quilômetros de Brasília, João fincou raízes a pedido do médium mineiro Chico Xavier (1910-2002). O goiano afirma receber 32 entidades com poderes e personalidades distintos. Por meio delas, ele promoveria curas. Nos três dias que passou na Casa, a equipe de reportagem de VEJA BRASÍLIA ouviu o relato de dezenas de pessoas que creditam a João de Deus a superação de graves mazelas. O oncologista aposentado do Hospital de Base de Brasília Roger Queiroz conta que, às 10h45 de 5 de março de 1995, sofreu duas paradas cardíacas. Teria sido declarado morto. Às 15h06 do mesmo dia, recuperou o fôlego. “Vivi uma experiência pós-morte”, afirma. Embora estivesse internado em uma UTI da capital, garante que a recuperação se deve a João de Deus, que o teria salvado depois de um pedido desesperado da família. Setenta e duas horas depois do ocorrido, estava na Casa Dom Inácio de Loyola prestando seu depoimento. Até hoje, volta lá periodicamente para contar sua história.


Foi a partir de casos como esse que João despertou a curiosidade e se tornou a última esperança para muitos desenganados pelos médicos. A fama de suas curas se espalhou. Um australiano angustiado em viagem de turismo pela Guatemala soube de João de Deus por meio de um japonês. A repercussão do programa que a apresentadora de TV americana Oprah Winfrey fez em Abadiânia chegou ao Irã. Por indicação do ex-presidente Lula, o médium tratou de Hugo Chávez, então presidente da Venezuela, mas para este não houve jeito.


No último 31 de julho, João completou 72 anos. Entre os que o prestigiaram na data estavam o novo ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso - que teve câncer no esôfago -, o senador pelo DF Rodrigo Rollemberg (PSB) e o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Em 2011, a apresentadora Xuxa esteve em Abadiânia. Há quinze dias, a atriz Giovanna Antonelli ficou hospedada na residência do médium. Ele era fã da “dona Helô”, delegada que Giovanna interpretou na novela Salve Jorge. “Um vem e conta para o outro. As pessoas gostam desse ambiente de paz”, afirma Rodrigo Grunfeld, personal stylist da Rede Globo e habitué da casa.


Assessores de João estimam de forma um tanto exagerada que, em 54 anos, 10 milhões de pessoas tenham visitado o médium. A procura pela Casa Dom Inácio de Loyola transformou a cidade que orbita em torno dele. Abadiânia tem 17 000 habitantes. Se comparado a Brasília no quesito renda per capita, o município goiano é oito vezes mais pobre. Com índice de desenvolvimento humano (IDH) de 0,689, fica atrás de 153 das 246 cidades goianas.


A Abadiânia de números ainda acanhados foi bem mais carente. Há duas décadas, era praticamente rural. Hoje, o turismo religioso mudou sua vocação. Em dez anos, foram abertas 32 pousadas - 29 pertencem a estrangeiros. A obrigatoriedade de roupas brancas incentivou o comércio. O misticismo fez aflorar o consumo de pedras preciosas. “Se João não está, nem adianta abrir as lojas”, diz a comerciante Luzia de Sá Abadia, que vende roupas na cidade. “É inegável a força que ele tem. Impulsionou a economia do município”, avalia o prefeito de Abadiânia, Wilmar Arantes (PR).


A mais antiga joalheria local tem o dedo de João. Foi ele quem doou a pedra fundamental, uma esmeralda de 7 000 reais, a Clarissa Vanazzi. Isso ocorreu há sete anos, quando a jovem, então com 23, era alcoólatra. “Seu João me tirou da fila de atendimento, perguntou minha história, disse que daquele momento em diante não faltaria nada ao meu filho”, conta Clarissa. Em contrapartida, ela serviu de voluntária durante cinco anos na Casa Dom Inácio de Loyola, até ser liberada para voltar a Florianópolis, sua terra natal. Hoje, a loja Purpurata tem faturamento de 300 000 reais ao ano e sustenta toda a família de Clarissa, que se diz curada do alcoolismo.


Renan Duarte, 23 anos, nunca se consultou com João de Deus, mas beneficia-se da prosperidade que ele trouxe. O taxista é um dos 35 motoristas profissionais da cidade, que faturam, em média, 4 000 reais por mês. Todos trabalham em função das visitas ao médium. À noite, os colegas se juntam em um curso de inglês. Para facilitar a vinda dos estrangeiros, João de Deus pediu a um amigo, dono de uma agência de turismo em Anápolis, que abrisse uma filial. Atualmente, a Pangea Tour de Abadiânia também funciona como casa de câmbio.


Na semana passada, a Caixa Econômica Federal abriu sua primeira agência na cidade. Gerentes do banco foram pedir a presença do médium na inauguração. O produto interno bruto de Abadiânia é de 15 milhões de reais ao ano. No mesmo período, a Casa Dom Inácio de Loyola tem faturamento de, no mínimo, 7,2 milhões de reais, levando-se em conta só o comércio de passiflora, preparado à base de maracujá, produzido ali mesmo, vendido a 50 reais o frasco e receitado a uma média de 3 000 visitantes semanais. Quem não pode pagar leva o fármaco de graça. Mas é raro. Aqueles que não têm condição de ir pessoalmente receber o tratamento mandam uma foto, o que também resulta em uma prescrição.


João diz que suas economias vêm do garimpo. Ele é dono de fazendas na região, apartamentos em Brasília, Goiânia, Anápolis e Abadiânia. “Fiz uma casa grande. Meu sonho era ter todos os filhos morando comigo”, diz. Registrados, ele tem onze, fruto do relacionamento com mulheres diferentes. Embora não vivam debaixo de seu teto, usufruem a riqueza que o pai acumulou. De dois em dois anos, ele troca a frota de carros da família. O dele é um Mohave Kia, avaliado em 170 000 reais.


Sentado no sofá, com três botões abertos da camisa branca de linho, João revela como conquistou a grande paixão da juventude. Lígia era filha de fazendeiro rico. Ele, pobre. “Prometi que ganharia dinheiro. Fui para o garimpo e voltei por cima”, afirma João. Hoje, ele é casado com a advogada Ana, três décadas mais jovem. Com a atual mulher não tem filhos. Medindo 1,80 metro e dono de olhos azuis, João foi um jovem bonito. Segue vaidoso e galanteador. Certa vez, numa boate no Gilberto Salomão, em Brasília, tirou uma moça para dançar. “Ela não parava de me olhar”, lembra. Achava que não fora reconhecido e pediu uma dose de uísque com Coca-Cola. “A moça me repreendeu. Disse que eu era o João de Deus e não deveria beber”, conta, achando graça.


Quando está a serviço, assume o temperamento das entidades que diz incorporar. O “Dr. Augusto de Almeida” tem aparecido com frequência. Médico português do fim do século XIX, ele foi senador e reitor da Universidade de Lisboa. João é analfabeto funcional. Ao emprestar o corpo ao Dr. Augusto, segundo afirma, passa a ter o dom da cirurgia. O procedimento pode ocorrer com cortes, se o paciente quiser, ou sem eles, como prefere a maioria. Dr. Augusto é áspero. Costuma receitar trabalho àqueles que o procuram com crise depressiva. Já o Dr. Valdivino, que ele diz também incorporar, é mais simpático. “Mas faz tempo que ele não aparece”, conta o pediatra e professor de medicina da Universidade de Brasília Ícaro Batista. Ele afirma ter se curado de um câncer de próstata com a ajuda de João de Deus. Há anos frequentando a casa do médium, Batista teve a chance de encontrá-lo em diversas versões. “Quando vem a Joana d’Arc, ele dá umas requebradas, não gosta de jeito nenhum”, brinca.


João, em todas as suas variáveis, é autoritário. Gosta de estar no controle. Ao conversar com as repórteres, soube do apreço em comum pelo pequi, fruta típica do cerrado. Em três telefonemas, resolveu o assunto. O ingrediente se materializou no almoço do dia seguinte. Em 38 anos de Abadiânia, ele arregimentou uma legião de seguidores, que têm admiração e temor pelo líder espiritual. Hoje, seus ajudantes se dividem entre contratados e voluntários. A Casa Dom Inácio de Loyola, empresa que nasceu em torno de João, reúne trinta funcionários, quase todos com salário mínimo. Os empregados atuam na farmácia, na lanchonete, na livraria, nos banhos de cristal e na limpeza do espaço de 12 674 metros quadrados, com dezoito cômodos. O médium demonstra uma obsessão por limpeza. “Temos uma estrutura enxuta que funciona bem”, avalia Hamilton Pereira, administrador da Casa. Ele usa os conhecimentos de ex-prefeito na década de 70 e ex-secretário de Finanças do município para gerir o local. “Pago o 13º na data do aniversário, como fazia na prefeitura”, diz. A profissionalização foi uma forma de proteger a instituição dos processos trabalhistas. “As pessoas chegavam como colaboradoras e depois reclamavam direitos”, conta Pereira.


Outras pendências confrontam João de Deus com a lei dos homens. Em 27 de agosto de 2008, o Ministério Público de Goiás denunciou João Teixeira de Faria por fraude sexual. Uma moça, na época com 16 anos, sofria de crises de pânico. Na denúncia, o MP descreve que, durante o atendimento, João teria pedido ao pai da menina, seu acompanhante na ocasião, para ficar de costas e com os olhos fechados. “Em seguida, (João) acariciou os seios, barriga, nádegas e virilha da menina”, descreve a ação. E ainda sustenta: “Não satisfeito, o denunciado segurou, por cima da roupa, a mão da vítima, movimentando-a para cima e para baixo sobre seu órgão genital, afirmando que através daquele tratamento seria curada”.


A juíza da comarca de Abadiânia, Rosângela Rodrigues Santos, considerou em sua sentença que não há como tipificar no episódio o crime de fraude sexual, previsto em quatro hipóteses: substituição de uma pessoa por outra, quando o agente simula celebração de casamento, má-fé em união por procuração e em caso de estado de sonolência da vítima. “Com efeito, a conduta do acusado, ao afastar-se dos princípios éticos e da caridade que norteiam os ensinamentos de Allan Kardec, foi imoral, mas não caracteriza a violação sexual mediante fraude, por ausência de suas principais elementares”, afirma a juíza na decisão a que VEJA BRASÍLIA teve acesso. No documento, a magistrada diz ter convicção de que o ato foi praticado, mas considera que a moça, embora com síndrome do pânico, tinha condições de evitar o episódio, por exemplo, pedindo ajuda ao pai, que estava na sala. A menina chorava compulsivamente e teria ficado com nojo das mãos que pegaram em João. O responsável pela defesa do médium alega que não há provas para a condenação. João foi inocentado em 2010, mas o MP apelou. No último dia 8, o desembargador João Waldeck Félix de Sousa confirmou a decisão de primeira instância. Em outro episódio, a promotora Cristiane Marques de Souza arquivou, no ano passado, uma denúncia em que se acusava João pela morte de uma estrangeira. A mulher havia chegado a Abadiânia, uma cidade sem hospital e com apenas seis postos de saúde, já muito debilitada.


Numa quinta-feira de agosto, depois de atender mais de 1 000 pessoas, João dava uma volta pela casa quando esbarrou com a reportagem. O fotógrafo pediu para acompanhá-lo. E João fez um desabafo. Sentia-se exausto, estava pálido, pegou um dedo do fotógrafo e o enfiou bruscamente em sua boca, dizendo: “Olha só, está seca”. Sentou-se e continuou. “Passo o dia inteiro ouvindo problemas das pessoas, gente doente, com espíritos obsessores (importunos), casais em crise. Ninguém pergunta como eu estou”, disse, ao dirigir-se ao amontoado de pessoas que se juntaram a seu redor concordando com a cabeça. E repetiu um de seus mantras: “Não sou eu quem cura. É Deus”.



Nações unidas


Turistas de todo o mundo buscam cura no interior de Goiás



Stacie Mythen, americana


Stacie Mythen é terapeuta bioenergética em Seattle, nos Estados Unidos. Numa semana de abril de 2010, três pessoas aleatórias falaram sobre o John of God para ela. Foi quando sentiu uma necessidade incontida de ver pessoalmente as curas milagrosas do médium. Stacie não tinha problemas de saúde. Sentia medo. Ainda assim, fez questão de ser submetida a uma cirurgia espiritual com corte. A entidade fez uma cisão no ombro direito até o osso. Ela relata não ter sofrido com dor. “É uma experiência tão profunda que eu só posso comparar ao parto natural”, diz. De volta aos EUA, todos diziam que estava diferente. Ela conta que se sentia mais livre para viver. Em dezembro de 2012, de novo, ouviu um chamado interior para voltar. Desta vez, a entidade teria pedido que ela virasse guia. Quando falou com a reportagem, Stacie liderava um grupo de treze americanos e já tinha outro agendado para dali a dois meses.



Martin, argentino, e Fernanda Mosqueira


Martin era cético até sua mãe adoecer e chegar a um ponto em que não podia mais andar. Ele morava em La Plata, na Argentina, e lá ouviu falar pela primeira vez de João de Deus. Em um segundo momento, desta vez em Buenos Aires, recomendaram-lhe o médium brasileiro. Resolveu, então, testar o poder de Juan di Dios. Na mesma época, Fernanda, aos 23 anos, foi diagnosticada com câncer no intestino. Morava em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. Seu caso era grave. Contra a vontade da família, foi tratar-se em Abadiânia. Operou-se em Goiânia e é uma das que atribuem sua vida à cura espiritual. Na cidade, conheceu Martin, casou-se com ele e, juntos, abriram uma pousada. Os dois tiveram um filho. Um dia, João de Deus chamou o argentino e disse que ele precisava se preparar para “uma passagem” (a morte) de alguém de sua família. Martin imaginou que fosse a mãe. Teve medo de que o câncer da mulher voltasse. Um mês depois, o filho do casal, de 8 anos, morreu em um acidente de carro.



Família Farahpour, do Irã


Nascida em Teerã, Faria foi criada segundo o Islã. Acreditava em Deus e no Corão até o dia em que deu à luz os seus gêmeos Nikkaun e Jaunaun, hoje com 5 anos. Devido a um erro médico, Nikkaun teve pouca oxigenação e ficou com paralisia cerebral. No momento em que soube da condição do filho, Faria deixou de acreditar em tudo. “Eu só conseguia sentir raiva e ódio, xinguei muito Deus”, lembra. Neste ano, ela diz ter recebido um segundo golpe. Os médicos disseram que iam interromper o tratamento de Nikkaun. Seria inútil continuar, ele jamais conseguiria andar. Foi quando uma amiga canadense lhe falou de um programa da apresentadora Oprah Winfrey com o médium goiano. A iraniana assistiu ao episódio na TV, leu e pesquisou a respeito dele. Voltou a ter fé, desta vez em João de Deus. Chamou a sua irmã, Farish, que sofre de esclerose múltipla, para tentar também a cura e ajudá-la com as três crianças. Quando pediram o visto, na Embaixada do Brasil no Irã, os funcionários informaram que eles não seriam os primeiros iranianos a pegar três aviões, em dois dias de viagem, para chegar a Abadiânia no dia 10 de agosto. Durante o atendimento, a entidade teria garantido a cura do menino. A mãe chorou muito.



Walter Klocker, o australiano


Klocker estava a turismo na Guatemala quando um japonês, integrante do grupo com o qual viajava, lhe contou sobre um curandeiro nos cafundós do Brasil que promovia todos os tipos de milagre. O australiano tinha mudado de continente para esquecer mais um término de relacionamento traumático. Aos 41 anos, nenhum dos seus namoros durara mais de seis meses. E foram muitos. Ele assume a culpa. É extremamente possessivo e sente muito ciúme. Da Guatemala, foi para Abadiânia em busca de um alívio para as suas angústias. “Pode parecer besteira, mas é muito, muito dolorido não conseguir se relacionar. Fiz anos de psicanálise, tentei todos os tipos de medicina alternativa, terapia cognitiva e até rituais xamanísticos. Nada resolveu. É horrível, eu sofro demais”, conta. Na Casa Dom Inácio de Loyola encontrou paz e decidiu que iria investir na sua espiritualidade. “Não vou me envolver com ninguém durante uns dois anos. Quando voltar para a Austrália, procurarei uma comunidade de monges budistas por lá”, diz.



Sopa comunitária


Centro mantido pelo médium serve massa italiana grátis


A Casa da Sopa, fundada em 2005 na cidade de Abadiânia, serve cerca de 4 000 pratos por semana. Às terças, a receita é à base de soja, às quartas, leva carne bovina e, às quintas, tem frango na composição. Todas são feitas com macarrão da marca italiana Barilla. A massa chega por meio de um empresário paulista, dono de restaurante em Campos do Jordão (SP). O enfeitor atribui a cura de um câncer de próstata ao tratamento com João de Deus. Há anos, doa todos os meses um caminhão repleto do produto importado. Seu desejo era melhorar a consistência do prato - antes, o macarrão se desmanchava. Além das refeições grátis, oferecidas para qualquer pessoa, a Casa da Sopa administra a doação de inúmeros itens, como material escolar, roupas, livros e brinquedos.


Matéria publicada na Revista Veja, em 30 de agosto de 2013.



Jorge Hessen* comenta


Após leitura de intrigante reportagem da Revista “VEJA”, deliberamos reproduzir e contextualizar alguns trechos da matéria publicada. Intitulada “A face humana do mais endeusado médium brasileiro”(1), a “VEJA” destacou a capacidade do médium de atrair gente do mundo inteiro para um município próximo do Distrito Federal. Afirma a reportagem que o “santificado médium” convive o cotidiano sob o manto da contradição entre o “espírito e a carne”, a “cura e a doença”, o “desprendimento e a vaidade”, os gestos de “generosidade, os arroubos de cólera” e os negócios terrenos(2) [é milionário], os amores [tem onze filhos com dez mulheres diferentes]. A cada dois anos, o “curandeiro-endeusado do cerrado” troca a frota de carros da família. O dele é um Mohave Kia, avaliado em 170 000 reais..”(3)


Sabemos que a mediunidade não guarda relação com o desenvolvimento moral, seu funcionamento independe das qualidades morais, assim como o coração pulsa independentemente dos sentimentos bons ou maus que a pessoa alimente. O fato é que os médiuns de tais “cirurgiões do além” sempre seduzem grande número de fregueses, estabelecendo, não raro, com a mediunidade, um negócio rendoso, uma polpuda fonte de captação de dólares e reais. Para comprovar, consideremos o fato aqui comentado. Chequemos o seguinte: o PIB - Produto Interno Bruto do município onde “médium-feiticeiro do cerrado” comercializa disfarçada e generosamente a “cirurgia transcendental” é de 15 milhões de reais ao ano. No mesmo período, a instituição dirigida por tal “deus da mediunidade de cura” “tem faturamento de, no mínimo, 7,2 milhões de reais, levando-se em conta exclusivamente o comércio de passiflora, preparado à base de maracujá, produzido ali mesmo, vendido a 50 reais o frasco e receitado a uma média de 3 000 visitantes semanais.”(4)


Por sérias razões não apreciamos e sequer indicamos esse tipo de mediunidade, embora, excepcionalmente, acatemos os efeitos mediúnicos atingidos por alguns poucos médiuns humildes e honestos. Infelizmente alguns “deuses dos bisturis”, que promovem cirurgias com auxílio de supostos médicos do além, conseguem robustecer suas contas bancárias. Há algumas décadas Chico Xavier advertiu: “Creio que isto deva ser fruto da educação da pessoa simplória, acreditar que, pagando bem, irá conseguir curas espirituais. O verdadeiro Espiritismo não pode cobrar, nem mesmo os remédios que receita aos doentes. Também sou contra essa estória de meter instrumentos cortantes no corpo dos outros, sem ser clínico. O médico estudou bastante anatomia, patologia e, por isso, está habilitado a fazer uma cirurgia. Por que eu, sendo médium, vou agora pegar uma faca e abrir o corpo de um cristão sem ser considerado um criminoso?”(5)


O médium de Pedro Leopoldo disse que foi operado pelos médicos terrenos cinco vezes, e vários médiuns lhe ofereceram seus serviços. “O Espírito Emmanuel lhe repreendeu: Você deveria ter vergonha até em pensar em receber esse tipo de cura, porque todos os outros doentes vertem sangue, usam éter, tomam determinados remédios para melhorar. Como você pretende se curar numa cadeira de balanço?”(6)


Do exposto, indagamos o seguinte: como ajuizarmos atualmente esses “curandeiros e cirurgiões do além”? Chico Xavier quando estava para se submeter a uma cirurgia, em 1968, de um tumor na próstata, Zé Arigó [que não era espírita], mandou lhe avisar que estava pronto para realizar a operação. Chico respondeu: “como é que eu ficaria diante de tanto sofredor que me procura e que vai a caminho do bisturi, como o boi vai para o matadouro? E eu, sabendo disso, vou querer facilidades? Eu tenho é que operar [com médicos encarnados] como os outros, sofrendo com eles!(7) Por isso, o Espírito André Luiz advertiu para "aceitar o auxílio dos missionários e obreiros da medicina terrena, não exigindo proteção e responsabilidade exclusivos dos médicos desencarnados”.(8)


É deplorável os médiuns evocarem "Espíritos" para que lhes atendam como “cirurgiões do além”, a fim de retalhar e perfurar corpos em nome de “operações espirituais”; que lhes prescrevam placebos. É lamentável essa tendência de subestimar a contribuição da medicina humana, entregando nossas enfermidades aos Espíritos “curandeiros do além” (preferencialmente com nome germânico ou hindu) para que "curem" doenças. Precisamos "aproveitar a moléstia como período de lições, sobretudo como tempo de aplicação de valores alusivos à convicção religiosa. A enfermidade pode ser considerada por termômetro da fé”.(9)


Não desconhecemos a plausível intervenção dos desencarnados nos processos terapêuticos na Terra, mas não se pode dar proeminência a esse tipo de trabalho, na suposição de curas ou na pérfida ideia de robustecimento do Espiritismo por esses meios. É urgente não abrirmos mão da precaução! Ainda mesmo que o excesso em tudo seja prejudicial, contudo, Kardec endossa nossa atitude dizendo que “em semelhante caso, vale mais pecar por excesso de prudência do que por excesso de confiança".(10)


Acreditamos que as "terapias alternativas", "curandeirismos" e a fascinação na prática mediúnica são fatores que têm desestabilizado o plano [da união] entre os espíritas e da unidade doutrinária.(11) É pouco significante que um “cirurgião do além-túmulo” faça desaparecer anomalias inibidoras ou deformantes do corpo. Até porque o perispírito conservará a patologia, que vai se projetar para reencarnações futuras, exceto que nos ajustemos com a lei da justiça, cobrindo com amor a "multidão de pecados" que carregamos. Jamais olvidemos que a cirurgia transcendente pode até mesmo refrear temporariamente as doenças físicas, mas o amor, trabalhando nos tecidos sutis da alma, cura, purifica e redime para a eternidade.


Segundo Divaldo Franco, “é uma temeridade transformar o centro espírita em pequeno hospital para atendimento de todas as mazelas, isso é uma loucura. É um desvio da finalidade da prática do Espiritismo. Podemos, sim, fazer uma atividade de atendimento a doentes que são portadores de problemas na área da saúde espiritual. Poderemos aplicar-lhes passes, doar-lhes a água fluidificada, se for o caso, mas a função principal do Centro Espírita é iluminar a consciência daqueles que o buscam.”(12)


Ressalta o tribuno baiano que certa vez o Espírito do “Dr. Fritz” quis operar Chico Xavier, em 1965, através do médium não espírita Zé Arigó: - "Eu te ponho bom desse olho. Faço-te a cirurgia agora! Pronunciou Arigó, e Chico Xavier respondeu-lhe: - "Não, isso é um karma. Eu sei que o senhor pode consertar o meu olho. Mas como o karma continuará, vai aparecer-me outra doença. Como eu já estou acostumado com essa, eu a prefiro. Por que eu iria querer uma doença nova?"(13)


Os Espíritos não estão a disposição para promoverem curas de patologias que não raro representam providências corretivas para nosso crescimento espiritual no buril expiatório.


Nesse sentido, os dirigentes de núcleos espíritas deveriam promover bases de estudos e reflexões sobre as propostas filosóficas, científicas e religiosas do Espiritismo ao invés de encetarem trabalhos espirituais para os inócuos "curanderismos".



Referências bibliográficas:


(1) Disponível em <http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/joao-do-ceu-e-da-terra-508>, acessado em 14/09/2013;


(2) Suas economias vêm do garimpo. Ele é dono de fazendas na região, é proprietário de apartamentos em Brasília, Goiânia, Anápolis e Abadiânia;


(3) Disponível em <http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/joao-do-ceu-e-da-terra-508>, acessado em 14/09/2013;


(4) Idem;


(5) Entrevista, concedida aos jornalistas goianos Batista Custódio — Diário da Manhã — e Consuelo Nasser — Revista Presença — publicado no jornal “Goiás Espírita” — órgão de divulgação da Federação Espírita do Estado de Goiás — edição 284, de janeiro/fevereiro de 1988;


(6) Idem;


(7) Idem;


(8) Vieira, Waldo. Conduta Espírita, Ditado pelo Espírito André Luiz, Cap.35. RJ: Editora FEB, 1977-5ª edição;


(9) Idem;


(10) Kardec, Allan. Viagem Espírita-1862, Brasília, Ed. Edicel, 2002, pág. 33;


(11) Franco. Divaldo. Publicado no jornal Alavanca - abril/maio-2000;


(12) Entrevista com Divaldo Franco publicado no jornal "A Gazeta do Iguaçu" em julho de 1997;


(13) Idem.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.