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A senhora dos espíritos

13 de junho de 2013



A senhora dos espíritos



Como Zibia Gasparetto transformou sua mediunidade num império de comunicação, com 41 livros publicados, 16 milhões de exemplares vendidos e presença no rádio, na tevê e na internet


por João Loes


A fila já dava voltas no auditório da livraria de um shopping da zona norte de São Paulo. Eram 20 horas de uma quinta-feira do mês de maio, dia de trânsito complicado na cidade, mas ninguém dava sinal de que arredaria os pés antes de conseguir um autógrafo e uma foto com a estrela da noite, a escritora, médium, líder espiritual e empresária Zibia Gasparetto, 86 anos. Convidada pela rede de lojas, ela havia falado durante 35 minutos para o público e agora atendia, um a um, os cerca de 150 fãs que aguardavam para conhecê-la e ganhar um exemplar assinado do livro “Só o Amor Consegue”, o 41º da carreira da autora, lançado em março e já com 80 mil cópias vendidas. “Qual o seu nome, minha filha?”, perguntava Zibia às moças, grande maioria, que chegavam com a obra na mão, para depois confirmar a grafia do sobrenome e colocar uma singela dedicatória: “Com carinhoso abraço, alegria e luz, Zibia Gasparetto”. Quando o salão esvaziou, perto das 22 horas, seis funcionárias da livraria apareceram, esbaforidas, com suas cópias do romance para garantir o autógrafo. Mesmo cansada e com dor no pulso, fruto de uma tendinite crônica, atendeu sorridente: “Claro, meu bem, pode vir”, disse.


Soberana do romance mediúnico no Brasil, Zibia Gasparetto escreve livros a partir das mensagens que diz ouvir dos espíritos que a acompanham desde os anos 1950. Carinhosa com os fãs e dura nos negócios, a octogenária, que já publica há 55 anos e contabiliza 16 milhões de livros vendidos, construiu, ao lado dos filhos e netos, um verdadeiro império espírita, com ramificações no rádio, na internet, na televisão e no mercado de palestras). No ramo editorial, onde tudo começou, é ela própria quem comanda a editora e gráfica Vida e Consciência, empresa em franco processo de crescimento. Segundo sua filha e sócia, Silvana Gasparetto, 45 anos, a impressão mensal de livros da empresa, que fechou 2012 com 300 mil unidades, já chegou a 500 mil no primeiro semestre de 2013 e deve bater as 650 mil unidades até o começo de 2014. “A terceira máquina que compramos começa a rodar em breve”, diz Silvana, da espaçosa sala que ocupa no quarto e último andar da sede do grupo, no bairro do Ipiranga, zona sul de São Paulo.


Poucas coisas dão a dimensão do poder dos Gasparetto quanto uma ida à sede da gráfica e editora Vida e Consciência. Quem vê o prédio por fora pode fazer pouco do espaço, uma construção antiga, com aspecto de fábrica. Mas uma visita ao que há do outro lado do muro, principalmente ao quarto andar, onde fica a diretoria, mostra bem o que 16 milhões de livros vendidos podem comprar. O espaço impressiona pela beleza e conforto. Com pé-direito de mais de quatro metros, piso de madeira de demolição, detalhes em pastilhas de vidro e mobiliário refinado, ele lembra uma luxuosa cobertura de prédio. Um grande jardim com fonte adornada por belos conjuntos de ladrilhos hidráulicos circunda metade do andar. Zibia e Silvana têm acesso exclusivo a ele das enormes salas que ocupam, uma vizinha à outra. E, se o tempo estiver frio para um passeio pelo espaço verde, elas podem optar por ficar em uma terceira sala de pelo menos 80 metros quadrados no mesmo quarto andar. Iluminada por janelões de vidro com impecáveis caixilhos brancos, ela tem sofás e poltronas, além de uma pequena cozinha e uma imensa mesa onde a matriarca almoça todo dia, às 12h30. “Gosto daqui, mas, para escrever, preciso estar na minha sala”, diz Zibia.


O ritual para receber os livros de seu guia espiritual, Lucius, que nas últimas cinco décadas lhe transmitiu 26 romances, sendo “Só o Amor Consegue” o 27º, é o mesmo da década de 1950. Três vezes por semana, por volta das 15h30, a médium mais famosa do Brasil se senta agora diante do computador, diminui a luz, liga uma música suave e lê a última frase do romance em que deseja trabalhar – pelo menos três são escritos simultaneamente. Como mágica, a voz de timbre familiar surge do silêncio e a narração recomeça. “Tenho consciência absoluta do que está acontecendo, não é um transe”, afirma a pioneira no uso do computador para psicografar no Brasil. “Apenas sinto uma grande alegria, e meus pensamentos e raciocínios passam a ser ágeis e leves.”


Nem sempre, porém, o contato com os espíritos foi agradável para a matriarca dos Gasparetto. A primeira experiência mediúnica, por exemplo, foi traumática. Católica, recém-casada e com um filho de colo, Zibia, então com 22 anos, despertou uma noite sentindo um estranho formigamento pelo corpo. Ainda que incomodada, continuou na cama, na esperança de que aquilo passasse. O desconforto, porém, foi crescendo até que, subitamente, ela começou a falar em alemão, língua que desconhecia. Assustado, seu marido, Aldo, correu até a casa de uma vizinha em busca de ajuda. A senhora foi até a casa, fez uma prece e garantiu: aquilo era “coisa de espírito”. “No dia seguinte meu marido foi até a Federação Espírita Brasileira (FEB) para comprar alguns livros sobre o assunto e, em pouco tempo, estávamos fazendo o evangelho do lar em casa”, diz a autora.


O incômodo sumiu e um ano se passou até que, um dia, durante o Evangelho, Zibia começou a sentir dor no braço. A mão, então, passou a se mexer sozinha e o marido, mais adiantado nas leituras espíritas, pegou papel e lápis e deu à mulher, que começou a escrever. “Eram coisas desconexas no começo, mas depois passaram a fazer sentido”, afirma a médium. Com visitas ao centro espírita “Seara do Mestre”, no bairro do Ipiranga, a mediunidade foi afinando até que ela passou a ouvir uma voz masculina que parecia ditar uma narrativa. Curiosa para ver como acabava a história, sentava para colocar o que ouvia no papel sempre que podia. Já com dois filhos, porém, ela não conseguia se dedicar como gostaria. “O primeiro livro, ‘O Amor Venceu’, levou cinco anos para ficar pronto”, diz. Talvez como prêmio pela determinação e compromisso, Lúcius, que havia ditado o livro, mas ainda não havia se apresentado, finalmente se identificou, assinando a última página. “Acho que ele se sentiu satisfeito com a parceria”, afirma a autora.


Até hoje, “O Amor Venceu” (1958) que, como não poderia deixar de ser, conta uma história de amor, só que no Egito antigo, vendeu mais de meio milhão de cópias. Foi, ao mesmo tempo, o livro que abriu o universo espírita para milhões de brasileiros, por tratar do tema de forma leve e romanceada, e colocou Zibia no mapa dos mundos mediúnico e editorial. Recheado de referências a Allan Kardec, que sistematizou a doutrina, e ao espiritismo formal, o título estabeleceu uma espécie de formato para boa parte dos romances da médium até a segunda metade dos anos 1990 – ricamente descritivos, longos, com enredos que se passam em tempos e países distantes e versando sobre temas universais, como amor e ódio, felicidade e sofrimento, justiça e injustiça e fé e incredulidade. Entre 1958 e 1993, Zibia publicou dez romances nesse estilo, entre eles um de seus maiores best-sellers, “Laços Eternos”, de 1976, que já vendeu 825 mil cópias e cuja adaptação para o teatro, em cartaz desde 1991, atraiu mais de 200 mil espectadores.


Ainda que colhendo resultados expressivos até meados dos anos 1990 dentro do formato que criou na década de 1950, Zibia, em seus contatos com livreiros e já com experiência como dona de editora – em 1982, ela fundou a Editora Caminheiros –, começou a perceber que o perfil do leitor de obras espíritas no Brasil estava mudando. Certo dia, então, o espírito Lucius, segundo a autora, igualmente antenado, deu os primeiros sinais de que mudaria o estilo de suas narrativas. Mas foi só no romance de número 11, intitulado “Pelas Portas do Coração”, de 1995, que a mudança se concretizou. De leitura mais ágil, apoiado em diálogos e quase sem referências ao espiritismo ou a Allan Kardec e com trama contemporânea, o título marcou o início de uma segunda, e mais voraz, etapa da produção literária da autora. “Mudei por orientação dos espíritos”, afirma. “Lucius me disse que precisava sair do rótulo espírita.” Outra influência, essa mais terrena, também contribuiu para viabilizar a guinada da médium para o mercado. Na época, Luiz Gasparetto, seu filho, então com 46 anos, estava promovendo uma verdadeira revolução no espiritismo nacional. Seus outros dois filhos, Pedro e Irineu, também são médiuns. Pedro administra o curtume da família em Mogi das Cruzes e Irineu é músico e apresentador de rádio. Luiz, prático e despojado como poucas lideranças da sisuda religião, já era referência mundial no ramo da pintura mediúnica, tinha em seu currículo passagens por centros de referência em estudo de terapias alternativas e vinha dando disputadas palestras motivacionais com discurso que misturava as bases do espiritismo com técnicas de aprimoramento pessoal propaladas pelo movimento “Nova Era”.


Com uma visão completamente diferente do sucesso e, principalmente, do dinheiro, Luiz eliminou a noção de que o trabalho mediúnico devia ser gratuito, como pregava a Federação Espírita. E Zibia acolheu as orientações do filho. Fechou a “Associação Cristã de Cultura Espírita Os Caminheiros”, um centro espírita clássico fundado em 1969 pela família Gasparetto e mantido com dinheiro das vendas de seus livros, e passou a se dedicar exclusivamente à nascente Vida e Consciência, editora fundada por ela com os filhos Luiz e Silvana. Nos dez anos seguintes, entre 1995 e 2005, produziu o que havia levado 37 anos para fazer quando ainda dividia seu tempo com as obrigações e compromissos espíritas. “É curioso observar as mudanças na produção literária de Zibia depois das novidades apresentadas pelo Luiz”, afirma Sandra Jacqueline Stoll, doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro “Espiritismo à Brasileira” (Edusp, 2003). Pendendo pesadamente para a auto-ajuda, mas ainda com a rubrica de Lucius, seus novos livros venderam como água. O maior best-seller da carreira, “Ninguém é de Ninguém”, por exemplo, foi lançado em 2000 e vendeu 860 mil cópias. “Ela passou a seguir um ritmo de lançamentos parecido com o dos grandes autores”, diz Sandra. Com pelo menos um livro novo por ano, sempre em outubro, para pegar carona nas compras de Natal, ela chegou a emplacar dois títulos simultaneamente na lista de mais vendidos do País, feito que só autores do quilate de Paulo Coelho haviam conseguido.


“Hoje não tenho religião, mas não me incomodo de ser chamada de espiritualista”, diz Zibia. A tolerância com a nova categorização faz sentido. Para Reginaldo Prandi, professor do departamento de sociologia da USP e autor do livro “Os Mortos e os Vivos” (Ed. Três Estrelas, 2012), é justamente no chamado espiritualismo que boa parte dos egressos do espiritismo, sedentos pela livre associação da doutrina ortodoxa da religião com novidades como a cromoterapia, a energização de cristais e a autoajuda, vai se encaixar. “É um grupo que reúne quem não tem interesse em se conformar com conjuntos de regras”, afirma.


Mas a guinada que levou os Gasparetto a se distanciarem dos preceitos balizadores do espiritismo não veio sem críticas. Para muitos, a máxima do “dai de graça o que recebestes de graça” foi relegada em nome da vaidade e do dinheiro. Muitos exigiam, inclusive, que Zibia abrisse mão dos direitos autorais dos livros que recebia dos espíritos, como fez Chico Xavier, o maior psicógrafo brasileiro de todos os tempos. “O Chico abriu mão dos direitos dos livros dele, mas uma vez chorou para mim, arrependido do que tinha feito”, revela Zibia.


Não dá para negar que, à sua maneira, a autora mediúnica trabalha pela expansão do que ela acredita ser o caminho certo para o espiritualismo no Brasil. Além do compromisso com a produção de livros, ela hoje tem um programa semanal de rádio e, no começo do ano, lançou uma rede de televisão na internet. Batizada de Alma e Consciência TV (ACTV), ela é administrada por seu neto René Gasparetto, tem quatro horas diárias de programação e, em breve, deve começar a produzir telenovelas baseadas nos livros da matriarca. “É um projeto que começou há um ano e meio e ainda dá prejuízo, mas é uma aposta nossa”, diz Silvana. Mais uma frente que se abre para a família que, liderada por Zibia Gasparetto, construiu um império espírita que não para de crescer.



"Não tenho religião"


Para a matriarca do clã Gasparetto, não há problema em ganhar dinheiro com a mediunidade


ISTOÉ - Há quem critique a sra. por ganhar dinheiro com o trabalho dos espíritos. Como responderia a essas pessoas?


Zibia Gasparetto - O que essas pessoas têm contra o dinheiro? Como alguém vai fazer o trabalho que eu faço sem dinheiro? Recebo pelo tempo que dou para a empresa, que é um tempo que dedico à escrita, à escolha de acabamento dos livros e à administração do negócio. Sou uma exímia secretária e recebo para dar prosseguimento ao trabalho dos espíritos. O dinheiro é do mundo! E fica aqui. A gente responde pelo que faz com o dinheiro e eu estou fazendo bom uso dele.


ISTOÉ - O que a sra. diria a quem não acredita em mediunidade?


Zibia - Nada. A vida mostra que a mediunidade é verdadeira no momento certo para cada um de nós. Não tenho a menor pretensão de falar para quem não quer me ouvir, não vou perder meu tempo. Não vou dar pérolas aos porcos, como dizia Jesus.


ISTOÉ - A sra. já duvidou da própria mediunidade?


Zibia - As pessoas que não são médiuns costumam pensar que existe essa dúvida, mas, para quem é médium, ela não existe. Não faz sentido duvidar de uma coisa que é certa, que se prova, dia após dia, como algo muito real. Faço isso há 60 anos, passo muito tempo com eles (os espíritos) e já tive a oportunidade de desconfiar, mas tenho certeza de que são eles que falam comigo.


ISTOÉ - Qual é a religião da sra.?


Zibia - Não tenho religião, mas não me incomodo de ser chamada de espiritualista. A verdade é que eu não tenho interesse em limitar as minhas experiências, que são mais universais que as que eu tinha quando era espírita.


ISTOÉ - A morte, afinal, é uma coisa boa ou ruim?


Zibia - A morte é uma coisa boa! A gente tem medo porque não sabe como vai morrer, mas a morte em si é boa. A passagem é tranquila e há muitos espíritos que ajudam. Não há o que temer.


ISTOÉ - Que limites o espiritismo da Federação Espírita Brasileira impôs à sra.?


Zibia - Sou muito grata à Federação e ao espiritismo kardecista. Frequentei a Federação e dei aula na escola de médiuns deles durante 27 anos. E o que eu aprendi lá serviu de base para todo o meu trabalho. Mas tem muita coisa boa que eles não aceitam, como a umbanda e a sabedoria dos pretos velhos e dos caboclos, por exemplo, ou a livre interpretação da revelação espiritual. Há um certo preconceito com o diferente, que limita o trabalho. E o que eu faço vai fundo, busca uma essência que só existe na pluralidade.


ISTOÉ - A sra. acredita em cirurgias espirituais, com ou sem corte?


Zibia - Acredito tanto nas com corte quanto nas sem corte. Aliás, boa parte dos médiuns que fazem esse trabalho só cortam para convencer os descrentes. É o que faz o João de Deus, por exemplo, em Abadiânia, Goiás. Que homem incrível! Tenho contato com ele, mando meus livros e ele costuma me mandar umas pedrinhas e uma água que ele abençoa. Ele faz coisa parecida como que fazia o Zé Arigó. Às vezes dá aflição de ver, mas admiro muito.


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 30 de maio de 2013.



Luiz Gustavo C. Assis* comenta


A matéria de capa da Revista “ISTOÉ” trouxe uma reportagem interessante para o nosso estudo conjunto e que nos leva, de alguma forma, a esclarecer alguns pontos, uma vez que, para quem não conhece o espiritismo a fundo, pode trazer algumas confusões e mal entendidos. Daí, surge a necessidade de tratarmos alguns equívocos colocados na matéria e que não estão de acordo com a Doutrina Espírita.


A princípio, destacamos, que não possuímos a menor condição de julgar a quem quer que seja. Portanto, nosso foco aqui será apenas o esclarecimento de pontos doutrinários espíritas e não o julgamento da médium, que outrora tanto contribuiu com o nosso movimento.


Vale iniciarmos nosso estudo com a frase estampada na capa da revista semanal: “O império espírita de Zíbia Gasparetto”. A senhora Zíbia Gasparetto, como sabemos, foi durante muito tempo, conforme relato próprio, trabalhadora das lides espíritas, mas, hoje, por desposar princípios diferentes da Doutrina Espírita, não se apresenta mais como trabalhadora espírita, mas como espiritualista. Além disso, conforme sabemos, o espiritismo é contra a mercantilização e a venda de materiais obtidos mediunicamente, pois segue o ensinamento do Cristo “Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido” (S. MATEUS, 10:8.). Dessa forma, percebemos que a frase da capa, não está de acordo com os princípios pregados pelo espiritismo e nem com o que foi descrito na própria matéria, uma vez que a própria Zíbia se diz sem religião, mas que aceita o ser chamada de espiritualista. O certo, portanto, seria “O império espiritualista de Zíbia Gasparetto”.


Isto posto, importa nos manifestarmos sobre outro ponto importante colocado na matéria, a confusão feita entre espiritismo, espiritismo kardecista, espiritualismo e umbanda.


Devemos esclarecer que somos espíritas, não espíritas Kardecistas. O termo Kardecista foi criado por outros grupos para designar os espíritas quando da popularização do termo e da utilização do termo espírita por outros credos, que não o espiritismo, tais como a Umbanda, o Candomblé, entre outros... Como sabemos, os termos espiritismo, espiritistas ou espíritas foram criados por Kardec, em O Livro dos Espíritos, e citados por ele na introdução desta obra.


Como nos fala a FEB (para ler mais acesse: http://www.febnet.org.br/blog/geral/colunistas/a-revelacao-espirita/), a palavra Espiritismo é um neologismo criado por Allan Kardec, utilizado pela primeira vez na introdução de O Livro dos Espíritos: “Para coisas novas precisamos de palavras novas; assim o exige a clareza da linguagem, para evitarmos a confusão inerente ao sentido múltiplo dos mesmos termos. [...] Em lugar das palavras espiritual, espiritualismo, empregaremos, para designar esta última crença, as palavras espírita e espiritismo. [...] Diremos, pois, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas ou, se quiserem, os espiritistas [...]”


Assim os espíritas, ou espiritistas, são os adeptos do Espiritismo, e não espíritas kardecistas, conforme consta na matéria.


Já o espiritualismo é o oposto do materialismo. Segundo Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, “quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível”. O espiritualismo é precedente ao espiritismo, e o espiritismo está contido no espiritualismo, uma vez que acredita em algo além da matéria, mas nem todo espiritualista é espírita, como é o caso da própria Zibia.


No que diz respeito à Umbanda, faz-se necessário esclarecer que o espiritismo respeita todos os credos, todas as religiões, isto inclui a Umbanda. Como muito bem nos explica a Federação Espírita Brasileira, “o espiritismo valoriza todos os esforços para a prática do bem e trabalha pela confraternização e pela paz entre todos os povos e entre todos os homens, independentemente de sua raça, cor, nacionalidade, crença, nível cultural ou social”. Reconhece que “o verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza”. Contudo, vale destacar que a Umbanda e o Espiritismo são religiões diferentes e não “braços” da mesma religião. Além disso, a Umbanda não é um ramo “dissidente” do espiritismo, como fica parecendo na matéria, mas uma religião espiritualista surgida no Brasil, através da influência do catolicismo e do espiritismo (segundo os próprios umbandistas), da cultura negra e da cultura Ameríndia. Mas, reforçamos, a Umbanda não é espiritismo. A confusão é gerada normalmente porque, ambas, tanto o espiritismo quanto a umbanda, acreditam e trabalham com a mediunidade, porém, de formas diferentes. Necessário, portanto, esclarecermos, também, o que é mediunidade.


Mediunidade, nos utilizando, uma vez mais, das explicações disponíveis no site da Federação Espírita Brasileira, é o “que permite a comunicação dos Espíritos com os homens, é uma faculdade que muitas pessoas trazem consigo ao nascer, independentemente da religião ou da diretriz doutrinária de vida que adotem. Mas atenção: prática mediúnica espírita só é aquela que é exercida com base nos princípios da Doutrina Espírita e dentro da moral cristã. Portanto, em hipótese alguma o médium poderá cobrar dinheiro, exigir ou aceitar qualquer forma de recompensa (presentes, dádivas, agrados, etc.) por suas atividades mediúnicas”.


A mediunidade sempre esteve presente na história da humanidade, porém, não foi criada pelo espiritismo e nem por Allan Kardec, que a estudou. Foi a partir da comunicação dos espíritos, através da mediunidade, que surgiu o espiritismo, mas a pessoa pode ser médium, se utilizar das comunicações mediúnicas, sem ser necessariamente espírita, o que geralmente confunde grande parte das pessoas. Então, médium espírita é aquele que segue as orientações contidas na codificação espírita e dentro da moral cristã. Por isso, a médium Zibia Gasparetto, de forma muito honesta, afirma não ser mais espírita, pois não segue mais os princípios espíritas, mas continua médium. Da mesma forma, um médium umbandista, ou de qualquer outra religião, não se torna espírita apenas por ser médium.


Prezados leitores, este comentário, conforme já escrevemos, teve o objetivo apenas de esclarecer alguns pontos a respeito de matéria publicada em revista semanal de grande circulação no Brasil. Não houve aqui nenhuma pretensão de crítica, ou de sermos os “donos da verdade”, mas de tornar claro o ponto de vista da doutrina espírita a respeito dos diversos aspectos equivocados contidos na matéria. Respeitamos todas as religiões e todos os pontos de vista. Acreditamos, também, que não é o rótulo religioso que “salva” alguém, mas seus atos, a caridade que pratica, por isso acreditamos na máxima: “Fora da Caridade não há Salvação”. Portanto, amemo-nos uns aos outros, conforme nos ensinou o Mestre Jesus, independente de religião ou de crenças. Respeitemo-nos e trabalhemos procurando ajudar a todos que precisam do amor que emana do Mestre Jesus e que nos envolve a todos.


Para reforçarmos ainda mais, destacamos alguns princípios básicos da Doutrina Espírita, conforme divulgado pela Federação Espírita Brasileira, para aqueles que ainda não a conhecem a fundo:


· Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas. é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.


· Além do mundo corporal, habitação dos Espíritos encarnados, que são os homens, existe o mundo espiritual, habitação dos Espíritos desencarnados.


· O homem é um Espírito encarnado em um corpo material. O perispírito é o corpo semimaterial que une o Espírito ao corpo material.


· Espíritos são os seres inteligentes da criação. Constituem o mundo dos Espíritos, que preexiste e sobrevive a tudo.


· Os Espíritos são criados simples e ignorantes. Evoluem, intelectual e moralmente, passando de uma ordem inferior para outra mais elevada, até a perfeição, onde gozam de inalterável felicidade.


· Os Espíritos preservam sua individualidade, antes, durante e depois de cada encarnação.


· Os Espíritos reencarnam tantas vezes quantas forem necessárias ao seu próprio aprimoramento.


· Os Espíritos evoluem sempre. Em suas múltiplas existências corpóreas podem estacionar, mas nunca regridem. A rapidez do seu progresso intelectual e moral depende dos esforços que façam para chegar à perfeição.


· Os Espíritos pertencem a diferentes ordens, conforme o grau de perfeição que tenham alcançado: Espíritos Puros, que atingiram a perfeição máxima; Bons Espíritos, nos quais o desejo do bem é o que predomina; Espíritos Imperfeitos, caracterizados pela ignorância, pelo desejo do mal e pelas paixões inferiores.


· As relações dos Espíritos com os homens são constantes e sempre existiram. Os bons Espíritos nos atraem para o bem, sustentam-nos nas provas da vida e nos ajudam a suportá-las com coragem e resignação. Os imperfeitos nos induzem ao erro.


· Jesus é o guia e modelo para toda a Humanidade. E a Doutrina que ensinou e exemplificou é a expressão mais pura da Lei de Deus.


· A moral do Cristo, contida no Evangelho, é o roteiro para a evolução segura de todos os homens, e a sua prática é a solução para todos os problemas humanos e o objetivo a ser atingido pela Humanidade.


· O homem tem o livre-arbítrio para agir, mas responde pelas consequências de suas ações.


· A vida futura reserva aos homens penas e gozos compatíveis com o procedimento de respeito ou não à Lei de Deus.


· A prece é um ato de adoração a Deus. Está na lei natural e é o resultado de um sentimento inato no homem, assim como é inata a ideia da existência do Criador.


· A prece torna melhor o homem. Aquele que ora com fervor e confiança se faz mais forte contra as tentações do mal e Deus lhe envia bons Espíritos para assisti-lo. É este um socorro que jamais se lhe recusa, quando pedido com sinceridade.


* Luiz Gustavo C. Assis é psicólogo, trabalhador do Centro Espírita Maranhense, em São Luís do Maranhão, e da equipe do Espiritismo.net.