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Casamento bom

9 de junho de 2013



Casamento bom



O casamento é uma defesa eficaz contra o declínio natural de satisfação com a vida, afirmam psicólogos norte-americanos.


Por Eduardo Araia


Muito já se falou sobre a falência do casamento. Não faltam exemplos, mundo afora, de maridos e esposas brigando como gato e rato e até chegando a extremos. Mas, se casar pode ser ruim, não casar pode ser pior, sustenta um recente estudo norte-americano, publicado no Journal of Research in Personality.


Pesquisadores da Universidade Estadual de Michigan liderados por Stevie Yap debruçaram-se sobre um levantamento realizado na Grã-Bretanha entre 1991 e 2008, baseado em entrevistas anuais com mais de dez mil adultos sobre o grau de satisfação com a vida. A equipe de Yap identificou quatro subgrupos de casais relacionados a eventos existenciais importantes: aqueles que haviam se casado pela primeira vez; os que tiveram seu primeiro filho; cônjuges que enviuvaram; e casais que sofreram com desemprego durante os anos do estudo. Cada membro desses subgrupos foi comparado a indivíduos com características demográficas similares que não haviam vivenciado esses acontecimentos.


O objetivo era verificar se características pessoais, tais como afabilidade ou extroversão, ajudam a lidar com eventos significativos, como pesquisas anteriores sugeriam. A resposta, no caso, foi negativa: não foram encontradas evidências consistentes que justificassem essa suposição. Mas as informações colhidas no levantamento revelaram um ângulo pouco conhecido do casamento.


As pessoas que se casaram pela primeira vez, e se mantiveram nesse estado civil, declaram sentir-se naturalmente mais felizes nos primeiros anos do matrimônio. Com o passar dos anos, a satisfação existencial cai a níveis próximos às circunstâncias pré-matrimoniais.


A pesquisa não contém evidências de que os casados eram mais ou menos felizes do que os solteiros da mesma faixa etária, mas revela que os solteiros exibem “recuos” na felicidade bem mais acentuados em longo prazo. Aparentemente, o matrimônio mantém o nível de satisfação mais estável.


Yap observou, em pesquisas anteriores, que as pessoas entre 20 e 39 anos apareciam como as menos felizes quando comparadas a outras décadas de vida. Mas poucas dessas viveram relacionamentos de longo prazo. A partir dos resultados obtidos, o psicólogo concluiu que relações duradouras, como casamento, preservam os cônjuges contra o desgaste natural do nível de felicidade. “O casamento não torna você mais feliz do que estava antes de se casar. Mas protege contra o declínio da felicidade que teria ocorrido se você não houvesse se casado”, afirma. A pesquisa do Journal of Research in Personality infelizmente não define o que significa “declínio da felicidade”. Os níveis de felicidade dos casais que tiveram o primeiro filho subiam após o evento, caindo, depois, para um patamar semelhante ao que antecedia o nascimento. Esse foi o subgrupo que mais se aproximou dos casados pela primeira vez. No entanto, segundo Yap, a vinda do primeiro filho não preserva a felicidade tal como o casamento, embora os dois eventos figurem entre os mais positivos da existência.


Membros dos subgrupos que enfrentaram a morte do cônjuge ou a perda do emprego apresentaram declínio de satisfação consistente, em longo prazo. Aparentemente, muitos não conseguem assimilar a mudança ocorrida e recompor a vida. Já pessoas que enviuvaram com a idade média de 80 anos relataram níveis de satisfação antes do falecimento do cônjuge mais altos do que qualquer outro membro de subgrupo, fosse dos casados, dos pais do primeiro filho ou daqueles que sofreram demissão do emprego.


A conclusão é clara: há um vínculo de longo prazo entre o casamento e a felicidade. “O estudo evidencia que, na média, o casamento é bom e faz muito bem”, afirma o pesquisador.


Matéria publicada na Revista Planeta, em setembro de 2012.



Jorge Hessen* comenta


Recente estudo publicado no Journal of Research in Personality afirma que a vida de casado pode não ser muito boa, contudo permanecer solteiro tende a ser pior. Stevie Yap, da Universidade Estadual de Michigan, coordenador da pesquisa, expõe que as pessoas que se casam acercam-se da “felicidade” nos primeiros anos da experiência matrimonial, porém, com o advir dos anos, essa “felicidade” arrefece um pouco. O estudo sinaliza que o casamento não torna necessariamente a pessoa mais feliz, comparando com a vida de solteiro, porém resguarda a “felicidade” conquistada na vida a dois.


O casamento, de acordo com as leis naturais, proporciona o avanço social.(1) Há, segundo Stevie, “um vínculo de longo prazo entre o casamento e a felicidade”. Isso equivale afirmar que “o casamento é bom e faz muito bem”.(2) Por outro lado, compreendemos que, se há casamentos edificados pelos laços espirituais, existem consórcios sedimentados tão somente sob os liames materiais. Obviamente, as famílias vinculadas espiritualmente são mais felizes, se fortalecem pelo burilamento e se perpetuam no além-túmulo; mas as famílias tecidas apenas pelas junções físicas são frágeis e “se extinguem com o tempo e muitas vezes se dissipam moralmente, já na existência atual”.(3)


Vivemos hoje a era do alheamento, do estar solitário e das uniões descartáveis, e isso tem provocado a desestrutura familiar. Estamos sob o jugo da alienação em massa. Nessa conjuntura, as pessoas permanecem ausentes aos fatos modernos que as cercam; são tolhidas emocionalmente de maior concentração ou sensibilidade social; creem ser desnecessário qualquer tipo de exercício mental ou espiritual; regozijam-se em direcionar todos os esforços de suas vidas ao lazer, prazer e entretenimento. Convivem ou sobrevivem da substituição do Ser pelo Ter. A necessidade de espiritualização é sobrepujada pelo vício em diversão. Os entretenimentos giram quase sempre em torno de erotismos, violência e banalidades.


Em razão desse cenário, paira grande ameaça sobre a estabilidade familiar, e quando a família é ameaçada, por qualquer razão, a sociedade perde a direção da paz. A dialética materialista, os hodiernos conceitos e promoções sensualistas têm investido contra a organização familiar, dilacerando o matrimônio (monogamia) e sugerindo o amor livre (poligamia promíscua).


Há os que veem no cônjuge um verdadeiro teste de paciência, pois os seus santos não se cruzam. Sob o cometimento das aparências alguns casais que acreditavam amarem-se loucamente, quando são obrigados a viver com as pessoas “amadas”, não tardam a reconhecer que isso não era senão um “amor” físico e fugaz.


Quando os valores cristãos perdem significado, aguçamos o egoísmo e esfacelamos a felicidade. Muitos casamentos podem ser classificados de “acidentais” - por efeito de atração momentânea, precipitada e sem qualquer ascendente espiritual; ou casamentos “provacionais”, isto é, reencontro de almas para reajustes; matrimônios “sacrificiais”, quando há união de espíritos iluminados com seres moralmente primitivos, com o objetivo de redimi-las; existem os casórios “afins”, onde há encontros de almas amigas e, embora raríssimos, existem os casamentos “transcendentes”, quando há o reencontro de almas que se buscam para realizações eternas.


Mas a maioria esmagadora de casais na Terra é composta de forçados sob algemas. No casamento, quando um dos consortes ruma para a relação extraconjugal, a tarefa é de batalha e prantos intensos; entretanto, ainda assim, no sacrifício sentimental, a pessoa traída cresce e se ilumina. Obviamente, os infiéis não escaparão das situações infelizes dos endividamentos sentimentais rebaixados de maneira injusta, que invariavelmente resgatarão em momento inevitável, parcela a parcela, pelo dispositivo dos princípios de causa e efeito.


“O processo de educação do Ser para a Divindade tem sua base na Lei da Reencarnação e no trabalho incessante.”(4) Há uniões que, no início, parecem não dever jamais ser simpáticas, e quando um e outro se conhecem bem e se estudam bem, acabam por se amar com um amor terno e durável, porque repousa sobre a afinidade moral! Em verdade, é o Espírito que ama e não o corpo, e, quando a ilusão material se dissipa, o Espírito vê a realidade. Seria admissível casais que se conheceram e se amaram no passado (re)encontrarem-se noutra existência corporal e reconhecerem-se?


Garantem os Benfeitores que não! Mas podem sentir-se atraídas. E, “frequentemente, diversa não é a causa de íntimas ligações fundadas em sincera afeição. (...) Dois seres se aproximam devido a circunstâncias aparentemente fortuitas, mas que na realidade resultam da atração de dois Espíritos, que se buscam reciprocamente por entre a multidão”.(5)


Enfim, no casamento temos a base dos reflexos aprazíveis ou aborrecíveis que o passado nos restitui. E não é demais lembrar que o matrimônio não existe para a exaltação egoística da parentela humana, mas para ser uma instituição abençoada onde, quase sempre, demanda-se a renúncia e o sacrifício de uma existência inteira.



Referências bibliográficas:


(1) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro, Ed. FEB 2000, perg. 695;


(2) Disponível no portal http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/comportamento/casamento-bom>, acessado em 25/05/2013;


(3) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XIV - Item 8, Rio de Janeiro: Ed. FEB 2000;


(4) Xavier, Francisco Cândido. Voltei, ditado pelo espírito "Irmão Jacob" (pseudônimo de Frederico Figner), Rio de Janeiro, 1ª edição, Conceitos de uma cartilha preparatória, pag. 102, ed. FEB, 1949;


(5) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro, Ed. FEB 2000, perg. 386.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.