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Sete dias em outro mundo

30 de abril de 2013



Sete dias em outro mundo



Livro de neurocirurgião americano sobre o que viu e sentiu durante a semana em que esteve em coma reacende interesse pela chamada experiência de quase morte


Mônica Tarantino


Quando recuperam a consciência depois de sobreviver a traumas graves, algumas pessoas relatam o que teriam vivenciado, como visitas a lugares desconhecidos. Chamadas de experiências de quase morte (EQM), essas situações são estudadas por cientistas interessados nas relações entre o cérebro e a espiritualidade e na compreensão da consciência. É um campo polêmico, no qual há poucas certezas e muitas hipóteses. Na última semana, chegou às livrarias americanas um relato único sobre o tema, escrito na primeira pessoa pelo neurocirurgião Eben Alexander III, do Brigham & Women Hospital e da Harvard Medical School, em Boston, nos Estados Unidos. O livro se chama “Proof of Heaven: A Neurosurgeon’s Journey into the Afterlife” (Prova do paraíso: a jornada de um neurocirurgião à vida após a morte, em tradução livre). É a história de um médico que por mais de 25 anos manteve o ceticismo frente aos testemunhos de EQM de seus pacientes. Há quatro anos, porém, o próprio Alexander passou por uma experiência desse tipo, o que abalou seriamente as suas convicções sobre a natureza dessas vivências. “Não acreditava nesse fenômeno. Para mim, sempre houve boas explicações científicas para essas viagens fora do corpo descritas por pessoas que haviam escapado da morte”, diz o médico.


Na obra, que o médico considera também uma resposta à descrença polida dos colegas que ouviram sua história, Alexander detalha a odisseia transcendental que experimentou durante a semana em que esteve em coma profundo por causa de uma forma rara de meningite bacteriana. Em estado vegetativo e com poucas chances de se recuperar, ele abriu os olhos no sétimo dia. Nesse período, conta que viu e sentiu coisas estranhas. “Enquanto meu corpo estava em coma, minha consciência viajou para outra dimensão do universo que eu nunca sonhei que existisse”, diz. “É um novo mundo onde somos muito mais do que nossos cérebros e corpos e a morte não é o fim da consciência”, afirma. Perplexo diante do que viveu, ele se questiona: “Os principais argumentos contra as EQM sugerem que elas são resultado do mau funcionamento do córtex (região do cérebro). No meu caso, ele não estava funcionando. Isso está documentado por exames neurológicos.” Disponível também em versão eletrônica, o livro de Alexander será lançado no Brasil em abril de 2013 pela Editora Sextante.


Como outras pessoas que tiveram uma EQM, Alexander levou meses para começar a entender o que lhe sucedera. Foi assim também com o advogado Solon Michalski, 65 anos, de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Aos 21 anos, ele ficou em coma por dez dias após um acidente de carro. “Eu via meu corpo na cama do hospital e ouvia as pessoas chorando. Sentia uma sensação de alívio crescente do desconforto que era estar preso a um corpo machucado”, conta. “Revi também as mancadas que dei na vida e fiquei muito envergonhado antes de recuperar a consciência e abrir os olhos”, conta ele, que teve depois outra EQM. “Foi durante uma cirurgia na perna. Eu via luzes da sala de operação de um ângulo que me deu a impressão de estar colado no teto e percebi que os médicos estavam tentando me acordar”, relata. Por mais de quatro décadas, ele meditou sobre essas sensações, que acabaram mudando sua vida. “Sou uma pessoa melhor. Li muito e entendi que somos parte de um tecido universal que está sempre se ajustando”, diz Michalski.


No Brasil, as EQM serão em breve investigadas com critérios científicos. Um grupo de professores da Universidade Federal de Juiz de Fora, ligado às redes internacionais de estudo sobre o tema, está prestes a dar início a um estudo para mapear casos de quase morte em pacientes que tiveram parada cardíaca nos hospitais da cidade. “Serão colocadas prateleiras acima dos leitos das UTIs e, em cima delas, figuras impressas de fácil identificação. Tais imagens ficam a 30 centímetros do teto, onde só podem ser vistas por alguém que esteja flutuando”, explica o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, coordenador do Núcleo de Espiritualidade e Saúde da universidade e autor de livros e artigos sobre espiritualidade e saúde. Os pacientes serão também submetidos a testes para descartar doenças neurológicas ou transtornos psiquiátricos.


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 26 de outubro de 2012.



Sergio Rodrigues* comenta


O estado de coma, espontâneo ou induzido, é resultado de uma alteração no funcionamento das funções cerebrais, de natureza grave. Esta alteração compromete as funções neurológicas do paciente, com a abolição dos reflexos e a interrupção da capacidade de comunicação com o meio exterior. Pode ser temporário ou se tornar definitivo, levando o paciente à morte. É desse modo que podemos, resumidamente, caracterizar o estado de coma, sob a ótica da ciência materialista.


Do ponto de vista espiritual, ingressando o corpo físico em semelhante estado, há um desprendimento parcial do espírito, que passa a viver um estado de relativa emancipação em relação ao corpo, que podemos caracterizá-lo como letargia. As consequências dessa situação variam conforme o grau de adiantamento evolutivo do espírito, que pode permanecer em estado de torpor, isto é, numa inércia total ou viver a vida espiritual, de acordo com o que o seu psiquismo o permite. Desprendendo-se do corpo, se  for um espírito que conte com algum adiantamento, poderá compreender o que se passa, permanecendo consciente e tendo uma vida espiritual como se desencarnado estivesse. Mas se for um espírito ainda muito fortemente ligado ao aspecto material da vida, sem noção da sua dimensão espiritual, sofrerá a perturbação comum nos primeiros momentos da desencarnação. Nesta hipótese, o mais comum é o espírito permanecer ao lado do corpo, em estado de perturbação e sem compreender o que está acontecendo.


Durante o estado de letargia, o espírito vê o que se passa ao seu redor e o que se diz e faz, sem que possa se exprimir sobre o que está vendo e ouvindo. Tem as percepções pelo espírito, que tem consciência de si, mas não pode se expressar, devido ao estado do corpo se opor à vontade do espírito. O mesmo ocorre no estado de coma. O corpo não está morto, pois há funções vitais que continuam a se executar. A vitalidade fica em estado latente, mas não aniquilada. Enquanto o corpo vive, o espírito a ele se encontra ligado, pois o desligamento completo significa a morte do corpo físico. Há, no entanto, uma perda temporária da sensibilidade e do movimento, por uma causa fisiológica.


A suspensão das forças vitais é geral e dá ao corpo todas as aparências da morte, liberando o espírito, que pode, assim, separar-se temporariamente do corpo, ao qual pode retornar por força de uma ação energética oriunda de sua própria vontade ou da vontade de terceiro, como ocorreu no episódio evangélico com Lázaro. É muito positivo que profissionais ligados à ciência material tenham passado por semelhante experiência, pois isto faz com que seus conceitos enraizados há muito sejam revistos diante da realidade que vivenciaram, como aconteceu com o neurocirugião americano da matéria em questão. Para quem estuda o Espiritismo, o episódio não traz qualquer novidade. Mas para os que ainda desconhecem a realidade da existência espiritual foi uma valiosa experiência. Certamente, daqui para frente, o citado médico irá se dedicar à busca de novos estudos e pesquisas a respeito do assunto, descobrindo – quem sabe? - novos caminhos para a medicina terrena. É assim que o progresso se realiza.


* Sergio Rodrigues é espírita e colaborador do Espiritismo.Net.