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Aluno praticante do candomblé diz sofrer bullying após aula com leitura da Bíblia

29 de março de 2013



Praticante do candomblé, aluno de SP diz sofrer bullying após aula com leitura da Bíblia



Suellen Smosinski
Do UOL, em São Paulo


Um estudante de 15 anos teria sido alvo de bullying em uma escola estadual de São Bernardo do Campo por causa de sua religião – o candomblé. As provocações começaram após o jovem se recusar a participar de orações e da leitura da Bíblia durante as aulas de história, ministradas por uma professora evangélica. O aluno cursa o 2º ano do ensino médio na escola Antonio Caputo, no Riacho Grande.


Segundo o pai do aluno, Sebastião da Silveira, 63, faz dois anos que o filho comenta que a professora utilizava os primeiros vinte minutos da aula para falar sobre a sua religião. “O menino reclamava e eu dizia para ele deixar isso de lado, para não criar caso. Ela lia a Bíblia e pedia para os alunos abaixarem a cabeça, mas isso ele não fazia, porque não faz parte da crença dele”, disse.


Silveira acredita que a atitude da professora incentivou os alunos a iniciarem uma “perseguição religiosa” contra seu filho. “No fim de fevereiro, comecei a achar meu filho meio travado, quieto. Um dia ele me ligou pedindo para eu ir buscá-lo na escola, quando cheguei lá tinham feito uma bola de papel cheia de excremento pulmonar e tacaram nas costas dele. Cheguei na escola e ele estava todo sujo”, contou.


Em outro episódio, fizeram cartazes com a foto de um homem e uma mulher vestindo roupas características do candomblé e escreveram que aqueles eram os pais do estudante. A pedido da família, o menino foi trocado de sala, mas não quer mais ir para a escola e apresenta problemas de fala, como gagueira, e ansiedade.


O pai disse que foi até a unidade de ensino para conversar com a professora de história sobre as orações antes da aula: “Ela se mostrou intransigente e falou que era parte da didática dela. Eu disse que se Estado é laico, alunos de todas as religiões frequentam as aulas e devem ser respeitados, mas ela afirmou que não ia parar”. Silveira já fez um boletim de ocorrência e pretende procurar o Ministério Público hoje (29) para pedir garantias na segurança do filho.


Segundo a presidente da Associação Federativa da Cultura e Cultos Afro, Maria Emília Campi, o bullying não foi só com o aluno, foi com a família toda. “A partir do momento que você tem professores que assumem uma posição religiosa dentro da sala de aula, exigindo uma atitude de submissão, a gente percebe que fica muito mais difícil combater o preconceito, porque a escola está incentivando o bullying”, afirmou.



Secretaria investiga o caso


A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo afirmou, em nota, que “a Diretoria Regional de Ensino de São Bernardo do Campo instaurou uma apuração preliminar para verificar se procede a alegação do aluno”. Segundo a secretaria, uma equipe de supervisores foi até a unidade na terça-feira (27), para averiguar as primeiras informações.


De acordo com a nota, o proselitismo religioso nas unidades estaduais é vetado, em conformidade com a Lei de Diretrizes e Bases.


A reportagem do UOL entrou em contato com a diretora da escola. Ela não quis se pronunciar, mas disse que todas as informações sobre o caso seriam repassadas pela Secretaria de Educação.


Notícia publicada no Portal UOL, em 29 de março de 2012.



Nara de Campos Coelho* comenta


Preconceito e Serviço


O preconceito, seja de que naipe for, revela o atraso moral de quem lhe serve de agente.


O tempo não tem conseguido fazer com que ele desapareça, porque o temos alimentado com o orgulho e prepotência, fazendo-o enraizar-se em nossa alma, recompondo-se a cada reencarnação e só sendo minorado quando a dor desmantela-lhe as funções. Ah! dor! Verdadeira amiga.


O estudante de São Paulo que se viu vítima de preconceito em função de sua religião, o candomblé, é o personagem da hora, mas o preconceito está espraiado em todos os cantos do nosso país. Temos leis contra ele; a Constituição do Brasil dá-nos a liberdade religiosa e não somos obrigados, portanto, a ser submetidos à doutrinação obrigatória. Isto revela a característica marcante de quem não conhece o Cristo. De que adianta ler a Bíblia se não lhe entendemos os ensinos, se nos achamos donos da verdade e superiores ao nosso próximo?


Este episódio lembra-nos o passado, quando os negros escravos, coitados, eram obrigados, também, a abandonar sua religião para seguir a que predominava no Brasil. E os índios? Coitados, também. Foram massacrados em nome de uma pretensa cristianização. Tudo isto contradizendo Jesus que sempre nos deu liberdade, que sempre teve paciência de esperar que entendamos sua palavra, seus ensinos. Paciência que perdura até os nossos dias, quando ainda acontecem tais situações, revelando a pobreza de entendimento que gera o velho preconceito.


Surge da memória da infância, com uma ponta de melancólica nostalgia, quando há mais de 50 anos, estava eu na escola primária e minha professora insistia para que eu fizesse a Primeira Comunhão. “Não professora, obrigada, mas eu sou espírita!”, dizia eu, convicta. “Mas, isto não tem importância... Todas suas amigas vão... E usarão lindos vestidos... Só você não vai usar!”, respondia ela; “Eu sei, mas espírita não faz Primeira Comunhão”, completava com inocência, mas segura do que queria. A pequenez desta pobre professora levou-a a deixar-me de castigo, de pé, na frente da sala, sempre que eu errava um número da tabuada que ela tomava só de mim, todos os dias... Isto, entre outros castigos e humilhações que sofri, até que meu querido pai descobriu, porque comecei a recitar durante o sono, tabuadas inteiras, e o problema foi resolvido. O único e maior dos resultados desta atitude preconceituosa foi a de que sempre detestei Matemática.


O que precisamos fazer é estar seguros dos nossos direitos e buscá-los, sem violência e sem raiva, pois o Espiritismo nos fortalece na certeza de que somos livres para professar a religião que quisermos, sempre respeitando a liberdade do próximo, assim como Jesus o fez. Eis que o Mestre jamais indagou a quem lhe buscava qual o princípio religioso que adotava, nem de qual das 12 Tribos de Israel descendia...


Temos visto, desde sempre, países fortes se digladiando em nome da religião. Mesmo no Brasil, situações constrangedoras ocorrem aqui e acolá. Cada qual quer ser mais dono de Jesus do que a outra, respondendo com ira a quem ouse pertencer a outra religião. Precisamos estar alertas para que não façamos o mesmo. Que não nos achemos melhores nem maiores do que ninguém, combatendo nosso orgulho, que é pai do preconceito, para que não nos percamos em sua estrada de dores. Lembrando, em meio ao inadiável e ininterrupto trabalho do bem a que devemos nos dedicar, de que cabe-nos estar sempre afinados com o que  ensinou-nos Jesus: “Aquele que quiser ser o maior, seja o servo de todos!”


* Nara de Campos Coelho, mineira de Juiz de Fora, formada em Direito pela Faculdade de Direito da UFJF, é expositora espírita nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, articulista em vários jornais, revistas e sites de diversas regiões do país.