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Medalhista relata mudança radical de personalidade após acidente

27 de março de 2013



Medalhista relata mudança radical de personalidade após acidente



O atleta e medalhista olímpico britânico James Cracknell relatou em um livro, escrito com sua esposa, a mudança radical em sua personalidade que ocorreu após ter sido vítima de um acidente.


Em julho de 2010, o atleta foi atingido por um caminhão enquanto disputava uma prova nos Estados Unidos, na qual tinha que remar, correr, nadar e pedalar em um percurso de Los Angeles a Nova York durante 16 dias.


Desde o acidente, no qual seu crânio foi atingido pelo espelho retrovisor do caminhão e ele sofreu danos no lobo frontal do cérebro, a personalidade de Cracknell mudou radicalmente o que afetou seu relacionamento com a mulher e o filho.


Em entrevista à BBC, ele conta que se tornou agressivo e que seu filho mais velho, frequentemente, era alvo de sua violência.


"Nunca bati nele (no filho), mas o que foi muito difícil para ele foi (a minha) imprevisibilidade. Acho que toda criança precisa de um grau de previsibilidade", disse o atleta em entrevista ao programa Hardtalk, da BBC.


"Os traços de sua personalidade ficam mais fortes. Eu me irritava muito quando ele falava de boca cheia (por exemplo), e ele tinha apenas sete anos de idade na época (...) era uma luta para ficarmos juntos à mesa."


"Não foi justo com ele. Por seis anos, ele teve um pai e, nos últimos anos, ele teve outro pai. Agora, eu sou diferente do que eu era 18 meses atrás", acrescentou.


O comportamento agressivo de Cracknell chegou a ameaçar a segurança de sua mulher, Beverley Turner. Quando ela estava grávida, eles tiveram uma discussão violenta e ele tentou estrangular a esposa.


O atleta conta que seu objetivo com o livro recém-lançado, chamado de Touching Distance, é ajudar a outras vítimas e suas famílias e que, por isso, os depoimentos, seus e de sua esposa, foram escritos separadamente.


Cracknell é um dos atletas mais bem-sucedidos da Grã-Bretanha. Conquistou a medalha de ouro no remo em 2000, em Sydney, e 2004, em Atenas.


Depois das vitórias olímpicas, ele se dedicou a esportes como maratonas envolvendo nado, corrida, ciclismo, entre outros, e completando provas como a que o levou de Dover, na Grã-Bretanha, até à África, pedalando, nadando e remando em apenas dez dias.



Casamento ameaçado


Cracknell conta que não se lembra muito bem da noite em que atacou a esposa pois sua memória melhorou lentamente depois do acidente.


"Me lembro da irmã dela (chegando em casa). Acho que ela ligou para a irmã e ela veio, não lembro o que a irmã dela me disse. Mas Bev se aproximou, me abraçou e disse 'não é você'. E não era eu, aconteceu uma vez, nunca tinha acontecido antes."


"Fazer com que uma pessoa que amo de forma incondicional passe por isso, seja por uma situação como aquela ou apenas por discussões(...) é realmente horrível. Nunca conseguirei me perdoar por isso. Você olha no espelho e vê a mesma pessoa", disse.


O atleta reconhece que cometeu erros durante sua recuperação.


"Eu não abordei a terapia de reabilitação do jeito certo, não me comprometi da forma necessária", disse.


"Eu estava bem. Para mim o mundo estava bem, só as pessoas estavam me tratando de um jeito diferente."


O atleta tem três filhos com Beverley e, além de ser colunista e comentarista de esportes, também participa de expedições e documentários.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 16 de novembro de 2012.



Jorge Hessen* comenta


James Cracknell, um medalhista Olímpico(1), considerado um dos esportistas mais vitoriosos da Inglaterra, expôs no livro escrito em parceria com sua esposa a profunda transformação de sua personalidade, ocorrida após ter sido atingido na cabeça pelo impacto do retrovisor de um caminhão. Em face das lesões no lobo frontal do cérebro, Cracknell foi advertido pelo neurologista que enfrentaria doravante as dificuldades com a memória e perda significativa do vocabulário. O traumatismo encefálico igualmente comprometeu drasticamente seu relacionamento com a mulher e o filho. Após o acidente, sobrevieram os surtos psicológicos de violência nas suas reações, chegando a ameaçar a segurança de sua esposa, Beverley Turner. Ele conta que quando Turner estava grávida, tiveram uma discussão violenta e ele tentou estrangulá-la.


Não ignoramos que o cérebro é um órgão bastante enigmático, porém, em face da avaria encefálica, qual seria a responsabilidade de James diante da sua mudança comportamental? A neurociência vê o ser humano apenas como uma máquina, um autômato programado pelo acaso e que, tomando como base a ocorrência acima, Cracknell nem pode ser responsabilizado pelas suas atitudes. Afiançam os especialistas que determinadas regiões comprometidas do cérebro são decisivas para controlar emoção e conduta agressiva.


Sob os auspícios das apreciações espíritas, como podemos abeirar-nos da temática, considerando o trauma encefálico como agente causal da mudança de comportamento (livre-arbítrio) de alguém? Se uma pessoa tem uma lesão encefálica, é responsável ou não para assumir seus atos? Deve responder por eles? Garantem os pesquisadores que a conquista do livre-arbítrio jamais foi completa. Para tais estudiosos, o livre-arbítrio não é mais que uma quimera. Ensaios concretizados há anos permitiram mapear a essência da atividade cerebral antes que a pessoa apresentasse consciência do que iria fazer. Seríamos quais computadores carnais e a tela do monitor seria representada pela nossa consciência. Coloca-se o livre-arbítrio em suspensão e tenta-se demonstrar que uma província do cérebro, compreendida na coordenação da atividade motora, apresenta atividade elétrica uma fração de segundos antes de uma pessoa assumir uma decisão. (!?...)


Articulam os materialistas que a consciência é um produto da atividade cerebral, que surge para dar coerência às nossas ações no mundo. O cérebro toma a decisão por conta própria e ainda convence seu “titular” que o responsável foi ele. Destarte, somos um só: o que é cérebro também é mente. A sensação de que existe um eu que habita e controla o corpo é apenas o resultado da atividade cerebral que nos ilude. Então não há nenhum “fantasma” na máquina cerebral.


Será mesmo? É óbvio que as muitas deduções dos múltiplos experimentos da neurociência reducionista são ardis da ficção. "A mente tem a dinâmica de um mosaico de luzes que se projetam pela consciência, que se contrai ou expande diante do que nos emociona."(2) Desse Universo abstrato "emanam as correntes da vontade, determinando vasta rede de estímulos, reagindo ante as exigências da paisagem externa, ou atendendo às sugestões das zonas interiores".(3)


Há estudos consistentes que comprovam a total impossibilidade de se medir com precisão o tempo entre o estímulo cerebral e o ato em si, o que, aliás, já derruba todas as precipitadas teses mecanicistas. A consciência e a inteligência não são um curto-circuito nem o subproduto casual do intercâmbio de quaisquer neurônios. Enquanto a ciência demorar-se abraçada à matéria e não alcançar a dimensão do que não pode palpar, ver e ouvir, ficará ainda extremamente distante de tanger as imediações da verdade que investiga.


Embora o tentame de explicar materialmente, pela prática dos neurocientistas, toda a categoria de fenômenos intelectuais, e até "metafísicos", por meio das ações combinadas do sistema nervoso; e, em que pese a Ciência ter alcançado certezas conclusivas, como por exemplo a de que uma lesão orgânica faz cessar a manifestação que lhe corresponde, e que a ruína de uma rede nervosa faz apagar uma faculdade, ela, contudo, está imensamente limitada para elucidar os fenômenos espirituais. Em face disso, não podemos afastar o fato da influência espiritual no cérebro. Faz-se forçoso também compreender não a alma isolada do corpo, mas ligada a esse corpo, o qual representa a sua forma concreta, com um amontoado de matérias indispensáveis à sua condição de tangibilidade, animadas por sua vontade e por seus predicados eternos.


Reconhecemos que há neurocientistas circunspectos, sensatos, explicando que um mundo sem livre-arbítrio provocaria ruptura da paz. Eles se encorajam notadamente para harmonizar suas teses com o problema da responsabilidade individual. Mesmo sob um automatismo determinista, eles reconhecem que todos devem ser responsáveis por suas ações, não fosse assim a estrutura social embarcaria na desordem caso alguém pudesse violentar, roubar e matar com embasamento no contexto simplista de que o cérebro decretou fazer isso ou aquilo. O cérebro assemelha-se a complicado laboratório, "onde o espírito, prodigioso alquimista, efetua inimagináveis associações atômicas e moleculares necessárias às exteriorizações inteligentes”.


O atributo essencial do ser humano é sem dúvida a inteligência, mas a causa da inteligência não reside no cérebro humano, mas sim no ser espiritual que sobrevive ao corpo físico. Graças ao Espiritismo, no seu aspecto filosófico e experimental, está sendo possível construir a sólida ponte sobre o abismo que separa matéria e espírito. Todo brado de coroados Nobéis de física alça a sua voz para nos expressar a morte da matéria.


Já é tempo de nos instruir ante os ensinos da ciência pós-mecanicista do século passado e de nos livrarmos da camisa de força que o materialismo do século XIX infligiu aos nossos julgamentos filosóficos. Neurocientistas, “químicos e físicos, geômetras e matemáticos, erguidos à condição de investigadores da verdade, são hoje, sem o desejarem, sacerdotes do Espírito, porque, como consequência de seus porfiados estudos, o materialismo e o ateísmo serão compelidos a desaparecer, por falta de matéria, a base que lhes assegurava as especulações negativistas”.(4)


O Homem não é o resultado ocasional de contingências aleatórias e casuais. “Sem o livre-arbítrio o homem seria uma máquina.”(5) A Doutrina Espírita está no extremo oposto do materialismo e é sua missão desmistificar estas teorias reducionistas que teimam depreciar o ser humano e o sentido da sua existência. “O cérebro é o órgão sagrado de manifestação da mente, em trânsito da animalidade primitiva para a espiritualidade humana.”(6)


Kardec, conhecedor das ideias de Franz Josef Gall, médico alemão, anatomista e fundador da frenologia (que liga cada função mental a uma zona do cérebro), interroga os Benfeitores: “Da influência dos órgãos se pode inferir a existência de uma relação entre o desenvolvimento dos do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais?” A explicação dos Espíritos não admite margens a equívocos: “Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.”(7)


É bem verdade que a neurociência tem envidado esforços para algemar o Espírito no cérebro, como se a alma  fosse uma prisioneira da caixa craniana, e tentam dissecá-la a fim de comprovar que o cérebro é a matriz da consciência. Contudo, o Espírito – origem da consciência humana – tem resistido bravamente ao decrépito reducionismo acadêmico.



Referências bibliográficas:


(1) Conquistou  medalha de ouro no remo em 2000, em Sydney, e 2004, em Atenas;


(2) Facure Nubor Orlando. Operações Mentais e como o Cérebro Aprende, disponível no Site www.geocities.com/Nubor_Facure>, acessado em 22/03/2013;


(3) Xavier, Francisco Cândido. No Mundo Maior, Ditado pelo Espirito André Luiz, RJ: Ed. FEB, 1997, cap. 4;


(4) Xavier, Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade, Ditado pelo Espírito André Luiz, “prefácio” do Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1999;


(5) Kardec, Allan. O Livro dos Espiritos, RJ: Ed. FEB, 1977, perg. 843;


(6) Xavier, Francisco Cândido. No Mundo Maior, ditado pelo Espírito André Luiz, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1947, cap. 4;


(7) Kardec, Allan. O Livro dos Espiritos, RJ: Ed. FEB, 1977, perg. 370.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.