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Lista aponta 10 ‘práticas de corrupção’ do dia a dia do brasileiro

5 de março de 2013



Lista aponta 10 ‘práticas de corrupção’ do dia a dia do brasileiro



Mariana Della Barba
Da BBC Brasil em São Paulo


Quase um em cada quatro brasileiros (23%) afirma que dar dinheiro a um guarda para evitar uma multa não chega a ser um ato corrupto, de acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais e o Instituto Vox Populi.


Os números refletem o quanto atitudes ilícitas, como essa, de tão enraizados em parte da sociedade brasileira, acabam sendo encarados como parte do cotidiano.


"Muitas pessoas não enxergam o desvio privado como corrupção, só levam em conta a corrupção no ambiente público", diz o promotor de Justiça Jairo Cruz Moreira.


Ele é coordenador nacional da campanha do Ministério Público "O que você tem a ver com a corrupção", que pretende mostrar como atitudes que muitos consideram normal são, na verdade, um desvirtuamento ético.


Como lida diariamente com o assunto, Moreira ajudou a BBC Brasil a elaborar uma lista de dez atitudes que os brasileiros costumam tomar e que, por vezes, nem percebem que se trata de corrupção.


- Não dar nota fiscal
- Não declarar Imposto de Renda
- Tentar subornar o guarda para evitar multas
- Falsificar carteirinha de estudante
- Dar/aceitar troco errado
- Roubar TV a cabo
- Furar fila
- Comprar produtos falsificados
- No trabalho, bater ponto pelo colega
- Falsificar assinaturas


"Aceitar essas pequenas corrupções legitima aceitar grandes corrupções", afirma o promotor. "Seguindo esse raciocínio, seria algo como um menino que hoje não vê problema em colar na prova ser mais propenso a, mais pra frente, subornar um guarda sem achar que isso é corrupção."


Segundo a pesquisa da UFMG, 35% dos entrevistados dizem que algumas coisas podem ser um pouco erradas, mas não corruptas, como sonegar impostos quando a taxa é cara demais.



Otimismo


Mas a sondagem também mostra dados positivos, como o fato de 84% dos ouvidos afirmar que, em qualquer situação, existe sempre a chance de a pessoa ser honesta.


A psicóloga Lizete Verillo, diretora da ONG Amarribo (representante no Brasil da Transparência Internacional), afirma que em 12 anos trabalhando com ações anti-corrupção ela nunca esteve tão otimista - e justamente por causa dos jovens.


"Quando começamos, havia um distanciamento do jovem em relação à política", diz Lizete. "Aliás, havia pouco engajamento em relação a tudo, queriam saber mais é de festas. A corrupção não dizia respeito a eles."


"Há dois anos, venho percebendo uma grande mudança entre os jovens. Estão mais envolvidos, cobrando mais, em diversas áreas, não só da política."


Para Lizete, esse cenário animador foi criado por diversos fatores, especialmente pela explosão das redes sociais, que são extremamente populares entre os jovens e uma ótima maneira de promover a fiscalização e a mobilização.


Mas se a internet está ajudando os jovens, na opinião da psicóloga, as escolas estão deixando a desejar na hora de incentivar o engajamento e conscientizá-los sobre a corrupção.


"Em geral, a escola é muito omissa. Estão apenas começando nesse assunto, com iniciativas isoladas. O que é uma pena, porque agora, com o mensalão, temos um enorme passo para a conscientização, mas que pouco avança se a educação não seguir junto", diz a diretora. "É preciso ensinar esses jovens a ter ética, transparência e também a exercer cidadania."



Políticos x cidadão comum


Os especialistas concordam que a corrupção do cotidiano acaba sendo alimentada pela corrupção política.


Se há impunidade no alto escalão, cria-se, segundo Lizete, um clima para que isso se replique no cotidiano do cidadão comum, com consequências graves. Isso porque a corrupção prejudica vários níveis da sociedade e cria um ciclo vicioso, caso de uma empresa que não consegue nota fiscal e, assim, não presta contas honestamente.


De acordo com o Ministério Público, a corrupção corrói vários níveis da sociedade, da prestação dos serviços públicos ao desenvolvimento social e econômico do país, e compromete a vida das gerações atuais e futuras.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 4 de novembro de 2012.



Breno Henrique de Sousa* comenta


Desonestidade


Minha mãe me conta uma história, da qual não me lembro, mas disse que quando eu era criança ela me buscava na escola para tomar o ônibus para casa. Naquela época, o ônibus para o nosso bairro demorava cerca de uma hora. No caminho do ponto de ônibus, passamos por uma barraquinha que vendia doces e chocolates. Sem que minha mãe se desse conta, eu passei a mão leve num chocolate e ela só percebeu mais adiante, quando estávamos na parada de ônibus. Imediatamente, minha mãe voltou comigo e me fez pedir desculpas ao vendedor, que admirava aquilo, já naquela época, como um feito raro e incomum. Perdemos o ônibus, mas ficou a lição para o resto de minha vida, e ainda que eu não lembre conscientemente do fato, mas a postura de honestidade de minha mãe formaria meu caráter.


Todos nós, em algum momento, já cometemos algum tipo de infração. Senão, vejamos: Você nunca ficou com a caneta de ninguém? Nunca baixou música da internet sem pagar os direitos autorais? Nunca fez uma fotocópia sem autorização do autor? Eu não sou o tipo de pessoa que afirma que cometer esses atos é igual a entrar em um esquema de corrupção que desvia milhões do dinheiro público. Acredito que, dependendo do dano causado, do nível de consciência de cada um e até mesmo do contexto cultural, cada pessoa será cobrada, porque Deus julga conforme a gravidade dos nossos atos, porém, é forçoso reconhecer, que em todas as situações, seja em qual gravidade for, trata-se da mesma coisa, a desonestidade.


Considerar todo delito desonesto igual e dizer que o político corrupto que rouba dinheiro de uma creche é igual a quem rouba uma caneta ou compra um DVD pirata, é mesmo uma ideia nociva para a sociedade. Primeiro, é uma forma de acabar com os limites, posto que se todos os atos desonestos são iguais e se eu já roubei um chocolate, por que não posso roubar um banco? Esse discurso é usado também pelas pessoas cínicas e desonestas que querem que todos se igualem de maneira que ninguém pode criticar ninguém e assim se sentem menos culpados. Eu me lembro do caso de uma senhora espírita que pregava nos presídios. Ela nunca esquece da reação de um preso quando ela disse que Deus sempre perdoava. Ele respondeu que agora valia a pena ser bom, porque como antes ele acreditava que já ia para o inferno definitivamente, de que valeria ser bom? Agora ele tinha uma nova perspectiva. Os delitos não são iguais, mas seremos chamados a prestar contas conforme a gravidade dos nossos atos. O fato de alguém fazer fotocópias não o desqualifica moralmente para exigir que os políticos não roubem, mas, talvez, se essa pessoa se tornar um escritor, não deveria reclamar ou processar ninguém que fizesse fotocópias de seus livros. A maior distorção acontece quando alguém cobra direitos para si que não respeita para os outros. Jesus nos ensinou: não façais aos outros aquilo que não gostaríeis que vos fizessem.


Devemos discutir sobre honestidade com os nossos filhos e dar exemplos, como fez minha mãe. Um exemplo vale mais do que mil palavras. Devemos ainda discutir sobre limites para que nossos filhos não deslizem suavemente dos pequenos delitos para os graves, sem de dar conta da gravidade maior ou menor de suas escolhas. Quando ensinamos apenas o mundo em preto e branco aos nossos filhos, depois de cometerem um pequeno deslize, eles acreditam que se tornaram maus e por isso se permitem pouco a pouco até as grandes e comprometedoras faltas. Quando aprendemos a noção de limites, sabemos que ninguém é completamente bom ou mau, mas que sempre seremos chamados a prestar contas de cada um dos nossos atos e que eles podem ser revertidos pela prática do bem.


Sejamos honestos em admitir que frequentemente somos desonestos. Não importa as manobras retóricas para justificar nossos mal feitos, desculpas do tipo: todo mundo faz; ninguém se importa; é uma coisa cultural. De fato, a cultura da desonestidade se instalou em nosso país de maneira que, às vezes, quase sem perceber, nos pegamos cometendo pequenos delitos. Certamente, existem causas complexas, o assunto é tema de estudo sociológico, mas nenhuma explicação será capaz de transformar o errado em certo. E o erro existe sempre que fazemos algo sabendo que estamos infringindo as regras e leis estabelecidas em nossa sociedade, independentemente do mérito ou do quão discutíveis sejam essas leis e regras, ou quando ferimos os princípios que estão em nossa própria consciência. Eu acredito que as leis devem ser mesmo discutidas, porque algumas são de fato obsoletas e não se adequam às demandas atuais de nossa sociedade, porém, uma coisa é discuti-las para tentar mudá-las, outra coisa é infringi-las enquanto elas estão vigentes.


De fato, nem tudo que é legal é moral e nem tudo que é moral é legal. Existem leis imorais e existem imoralidades que a lei não pune. Para o Espiritismo, Deus não pune, mas a lei de causa e efeito é aplicada conforme a moral divina e não conforme as leis dos homens. Mas quem desrespeita as leis dos homens deve se preparar para sofrer as punições da justiça humana e depois não pode se queixar de que não sabia.


A lei humana é temporal e mutável. O que é ato desonesto hoje pode se tornar legal amanhã. Mas a lei divina é eterna e imutável. Para saber o que é desonestidade nas leis dos homens, basta consultar os códigos de lei civis; para saber o mesmo na lei divina, segundo a questão 621, de O Livro dos Espíritos, basta consultar a consciência. E se da primeira podemos fugir, burlar ou modificá-la, coforme nossa conveniência, da segunda ninguém foge. O tribunal da nossa consciência estará sempre vigilante mesmo que sejamos invigilantes com os nossos atos.


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.