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O som do ódio

9 de fevereiro de 2013



O som do ódio



Por Robert Futrell e Pete Simi - The New York Times News Service/Syndicate


O violento tiroteio no domingo que matou seis pessoas e feriu outras três num templo sique em Wisconsin expôs os perigos contínuos do extremismo do poder branco em nosso meio. O atirador, Wade M. Page, era afiliado a uma série de grupos de skinheads neonazistas e, durante a última década, tocou em várias bandas famosas do cenário musical do poder branco.


Vizinhos de Page disseram estar 'aturdidos' com o fato de ele poder estar ligado a algo tão violento ou que fizesse parte da cultura extremista do ódio. E mesmo assim, essa cultura afirma contar com aproximadamente 50 mil seguidores pelo país, muito mais do que a maioria das pessoas percebe. O movimento do poder branco persiste e até mesmo prospera, mas nem sempre das formas que pensamos.


O estereótipo popular pinta os neonazistas como skinheads jovens tatuados com suásticas berrando obscenidades sobre negros, judeus, gays e outros supostos inimigos da raça branca, geralmente cercados por quem protesta contra eles e pela polícia. De certa forma, ficamos reconfortados com essas imagens, pois elas nos deixam acreditar que é fácil identificar os extremistas e intervir quando parecem ameaçadores.


Todavia, a realidade é mais complicada. Os seguidores do poder branco não costumam se abrir em relação às inclinações extremistas. Eles transitam pelos mundos do poder branco e da sociedade dominante, muitas vezes reduzindo ou escondendo as identidades extremistas. No passado, isso deve ter sido um obstáculo. Porém, hoje em dia, eles prosperam no que chamamos de espaços ocultos do ódio, muitas vezes na internet, onde se reúnem para trocarem apoio mútuo e apoiarem a causa.


Entre os mais importantes espaços ocultos figura o cenário musical do poder branco. Os neonazistas são particularmente adeptos à ideia de incorporar a música em todos os aspectos do movimento, tendo compreendido a capacidade desse meio de agrupar os seguidores em experiências compartilhadas e sustentar comunidades baseadas na ideologia ariana.


Da mesma forma que com muitos homens e mulheres jovens que se juntaram a grupos do poder branco, foi o cenário musical que ajudou a solidificar o comprometimento de Page ao movimento, em seu caso a cena vibrante do sul californiano, onde um de nós, Pete Simi, o conheceu e o entrevistou no começo da década passada. Page se conectou a comunidades extremistas, encontrou apoio mútuo para fantasias racistas virulentas e granjeou fama ao se apresentar em bandas famosas do poder branco, como Youngland, Intimidation One, End Apathy e Definite Hate.


As letras das bandas vão do sutil e vagamente exortativo ao racismo agressivo e explícito. Porém, não são as letras que unem os arianos. Os eventos coletivos nos quais a música é apresentada, como festas particulares em quintais, shows em bares e festivais musicais de vários dias, são onde eles se encontram e dão suporte à sua postura comum contra o mundo predominante.


A música faz mais do que comunicar raiva, ódio e indignação contra inimigos raciais; como toda música, ela é cheia de emoções como força, orgulho, dignidade, amor e prazer, criando um vínculo coletivo que fortalece o comprometimento dos membros com a causa.


Muitos eventos musicais do poder branco são fortemente controlados para limitar o público a simpatizantes neonazistas e mantê-los geralmente ocultos do público em geral. Organizar os eventos como espaços 'somente para brancos e membros' é uma iniciativa calculada para criar experiências coletivas nas quais, ao menos momentaneamente, os partidários podem vivenciar o mundo que idealizam, onde os inimigos dos brancos são vencidos e os arianos mandam.


O alcance da música do poder branco vai muito além dos encontros coletivos nas vidas cotidianas dos arianos. Os neonazistas baixam música ariana, escutam transmissões pela internet de áudio e vídeo de shows, leem fanzines e blogs musicais, e batem papo em fóruns de música ligada ao poder branco.


Digitando algumas palavras, qualquer busca na internet pode ligar os arianos a sites com arquivos MP3 de suas bandas preferidas, além de camisetas, joias, bonés e outros símbolos da cultura musical racista. Eles podem carregar de forma eletrônica suas músicas para a escola e o trabalho, onde colocam fones de ouvidos e se conectam em segredo a um amplo cenário musical que nutre seu racismo virulento.


A polícia e ativistas antirracismo deveriam prestar muita atenção à cena como uma força motivadora do crime de ódio porque quando as ideias extremistas perduram, o mesmo acontece com o potencial de ações extremistas. Page parece ter correspondido aos ideais violentos que permearam sua vida. Não deveríamos nos surpreender quando outros neonazistas seguirem seu exemplo, pois uma inspiração potente para a violência continua a permear os espaços ocultos do ódio da música do poder branco.


(Robert Futrell, professor de sociologia da Universidade de Nevada, em Las Vegas, e Pete Simi, professor adjunto de justiça criminal da Universidade de Nebraska, Omaha, são os autores de 'American Swastika: Inside the White Power Movement's Hidden Spaces of Hate' – Suástica norte-americana: por dentro dos espaços ocultos do ódio do movimento do poder branco.)


Notícia publicada em The New York Times.



Nara de Campos Coelho* comenta


A mídia tem nos dado conta dos ataques feitos pelos chamados “skinheads neonazistas”, que pensam ser superiores a quem não pertence a sua mesma raça ariana e fazendo deste ódio arma fatal para suas vítimas. Mortes, perseguições, torturas, tudo em nome de sua pretensa superioridade, como aconteceu tempos atrás num templo sique, em Wisconsin, em que um tiroteio matou seis pessoas e feriu três. O atirador, o músico Page, causou surpresa, pois os que o conheciam não supunham que sua alma de artista guardasse tamanha ferocidade.


Eis o perigo. O ódio cresce em corações que lhe dão aconchego, em almas que alimentam a violência, que é filha da ignorância e do orgulho. A arte não impede o crime. Eis que a sensibilidade artística se submete à sintonia espiritual, definindo a natureza dos atos que advirão.


Quando conhecemos o Espiritismo, a primeira coisa de que nos damos conta, é de que somos iguais perante as leis de Deus, enquanto frente às leis do homem esta igualdade tem sido mais teórica do que real. Assim, já espíritas, estamos sempre nos policiando para transformar em atos o que a Doutrina Espírita nos começa a cobrar à consciência. Passamos a viver, entendendo que reencarnamos tantas vezes quanto as necessárias para que alcancemos a evolução integral. Cada um tem sua necessidade evolutiva pessoal, mas todos somos viajores da eternidade em busca desta evolução. Como admitir, pois, que, por pertencer a outra raça, alguém nos seja inferior? Somente a ignorância pode concebê-lo. E é a ignorância que nos conduz ao atraso moral, tornando-nos violentos e manipuladores. Esta manipulação faz uso de muitos mecanismos, inclusive as artes e, entre elas, a música, como é o caso do chamado “poder branco” de que se intitulam os neonazistas. Eis que a música nos toca o coração, arrastando-nos com seus acordes para as regiões que a inspiram, segundo a sintonia que preferirmos: elevada ou inferior. Podemos verificar essa assertiva, sentindo o atual nível de certas músicas brasileiras que arrastam as multidões: músicas e letras paupérrimas, exaltando a decadência moral de nosso povo, tornando comum algumas coreografias e refrãos inaceitáveis e, apesar disto, tornando famosos seus autores e cantores. O povo aplaude freneticamente, exibindo um perfil desolador, que não percebe o que, realmente, se passa, mas é membro da euforia dos ignorantes das leis morais da vida. São músicas que atuam contra o povo.


O crime também adota a música, pois ela contagia. Hitler sabia disto e seus exércitos marchavam com uma coordenação impressionante, quase um balé, ao som de músicas militares que hipnotizavam os que marchavam e os que assistiam os desfiles. É bom que nos lembremos, sempre, de que Hitler foi escolhido pelo povo, democraticamente. Com ele, o orgulho nacional foi exacerbado até que as máscaras caíram para dar voz à tragédia que todos conhecemos. O nível moral das pessoas também passa pela música. O ódio e a decadência se manifestam nas letras mas se ocultam nas melodias que unem os que alimentam o mesmo propósito.


Precisamos estar atentos para o que se passa em nossa alma. Em algum canto escuro de nosso íntimo, nos pensamos maiores ou melhores do que alguém? O sinal de alerta se instala, para que voltemos nossa mente para a assertiva de Jesus: “Aquele que quiser ser o maior, seja o servo de todos!”


Destes acontecimentos tristes do “poder branco”, retiramos exemplos para nossa própria conduta, pois a indignação precisa ter reflexo em nossa atitude, senão ela será inócua.


Assim, trabalhemos a nossa alma para acolher o amor, único antídoto contra o ódio e o crime. Coloquemos este amor em movimento, como nos ensina Herculano Pires, e ele se transformará em caridade e esta quebrará a violência, no dizer de Chico Xavier. Então, o som de nossas vidas será o da paz!


* Nara de Campos Coelho, mineira de Juiz de Fora, formada em Direito pela Faculdade de Direito da UFJF, é expositora espírita nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, articulista em vários jornais, revistas e sites de diversas regiões do país.