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Como ensinar adolescentes diferença entre sexo real e pornográfico?

12 de janeiro de 2013



Como ensinar adolescentes diferença entre sexo real e pornográfico?



Vanessa Barford & Nomia Iqbal


BBC News Magazine


A abundância de conteúdo pornográfico de fácil acesso na internet permite que adolescentes sejam expostos regularmente à pornografia e pode criar nos jovens uma visão distorcida sobre sexo e relacionamentos.


Não há estatísticas sobre quantas crianças e adolescentes acessam pornografia pela internet, ou com que regularidade. Também não existem provas conclusivas de que o comportamento sexual dos adolescentes esteja mudando.


No entanto, pesquisas nos últimos anos indicam que um número expressivo de crianças e adolescentes têm acesso à pornografia frequentemente por meio de novas tecnologias.


Um levantamento na União Europeia (UE), por exemplo, concluiu que 25% dos jovens com idades entre 9 e 16 anos já tinham visto imagens de cunho sexual. E em 2010, uma pesquisa na Grã-Bretanha revelou que quase um terço dos jovens com idades entre 16 e 18 anos havia visto fotos de natureza sexual em celulares, na escola, mais de uma vez por mês.


A National Association of Head Teachers (Associação Nacional de Diretores de Escolas) da Grã-Bretanha está fazendo uma campanha sobre o impacto da pornografia com o objetivo que crianças e adolescentes sejam educados de maneira apropriada à idade.


A ideia é que o currículo escolar nacional para alunos com dez anos de idade inclua aulas sobre como usar a internet de forma segura e alertas sobre conteúdos não apropriados. Adolescentes estudariam o assunto de forma mais aprofundada.


"As crianças estão crescendo em um mundo abertamente sexual e isso inclui acesso fácil à pornografia na internet, então, elas precisam de recursos para lidar com isso", disse um consultor em políticas educacionais, Sion Humphreys.


O que preocupa os educadores é a possibilidade de que os jovens sejam influenciados, na adolescência e na vida adulta, pela pornografia que viram.


A publicitária e empresária Cindy Gallop criou um site que compara "o mundo pornográfico" com "o mundo real" do sexo.


Gallop, que em 2009 fez uma palestra para uma série de conferências sobre o tema, disse que "a presença por toda parte e a liberdade de acesso à pornografia na internet, aliada à uma sociedade que reluta em falar sobre sexo" resultou no seguinte: "Pornografia tornou-se a educação sexual padrão, por falta de uma outra opção".



Ponto de Referência


Em entrevista à BBC, a adolescente Rebecca, de 17 anos, disse que a pornografia muda as expectativas dos meninos em relação à aparência das meninas. "Cabelo comprido, peito grande, bumbum grande", citou.


Um colega da classe de Rebecca, Femi, disse que a pornografia também preocupa os meninos.


"Talvez você não esteja alcançando fisicamente aquele padrão que a pornografia te apresenta", disse.


Karan, hoje com 20 anos, disse que, quando tinha 16, seu namorado assistia a pornografia com os amigos "como se fosse um hobby". Ela contou que, frequentemente, ele assistia a pornografia na presença dela, imitando o que via.


"Eu achava que tinha alguma coisa errada comigo porque não gostava".



Na escola e em casa


Uma pesquisa entre jovens com idades entre 16 e 24 anos feita pela University of Plymouth e pela entidade UK Safer Internet Centre - que trabalha para tornar a internet mais segura - revelou que um em três entrevistados admitiu que a pornografia afetou seus relacionamentos.


E dados do serviço telefônico dedicado às crianças britânicas, ChildLine, mostram que, no ano passado, houve um aumento de 34% no número de ligações feitas por adolescentes afetados por imagens sexuais que haviam visto na internet.


Apesar desses indícios, profissionais e pais não conseguem chegar a um acordo sobre como resolver o problema.


Leonie Hodge, da ONG Family Lives - que já deu aulas a 7 mil estudantes sobre o tema -, disse estar convencida de que crianças precisam aprender a diferença entre pornografia e realidade.


"Adolescentes são bombardeados com pornografia desde pequenos, você não consegue escapar disso. É uma arrogância acharmos que eles não são capazes de lidar com isso".


Nos cursos da ONG, jovens discutem como reagiriam ao receber imagens indecentes e como se sentiriam se entrassem em contato com material pornográfico.


A National Union of Teachers, no entanto, acha que falar sobre pornografia nas aulas é ir longe demais - a não ser que os próprios alunos toquem no assunto.


Outros, como a publicitária Gallop, advogam a importância do papel dos pais.


"O segredo é não ficar com vergonha, ou dizer coisas do tipo 'meninas de família não fazem isso'", disse. "E não importa se a criança não der ouvidos, o importante é manter os canais de comunicação abertos".


A fundadora do site Netmums, de apoio a mães, concorda com Gallop, mas argumenta que a questão não é tão simples.


Siobhan Freegard disse que muitas mães entram em pânico quando encontram pornografia no computador dos filhos.


"Esse pode ser um campo minado", explicou. "Muitos não sabem o que fazer ou o que dizer. Por exemplo, uma mãe solteira pode ter dificuldade em conversar com filhos adolescentes, pais solteiros podem ter dificuldade em abordar o tema com as filhas. Em casas mais tradicionais, talvez sexo sequer seja discutido".


"A solução ideal é que escolas e pais trabalhem juntos", propõe.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 7 de novembro de 2012.



Breno Henrique de Sousa* comenta


Banalização do Sexo


Os movimentos pela liberação sexual, ocorridos a partir da década de 1960, foram uma reação a séculos de repressão sexual, sobretudo pela repressão à sexualidade da mulher. Sexo sempre foi tabu e continua sendo. Paradoxalmente, as reações de liberação levaram ao extremo da vulgaridade e banalização. O festival musical de Woodstock que aconteceu em 1969 nos Estados Unidos foi também um símbolo da liberdade sexual e influenciou a juventude no mundo, formando uma geração que se libertaria das amarras moralistas que enclausuravam o sexo.


A repressão nunca foi um instrumento eficaz para educar o ser humano. Ela pode reprimir e inibir o ser humano, mas nunca educá-lo e transformá-lo realmente. Ainda pior é o fato de que a repressão gera uma espécie de atração mórbida pelo objeto proibido. É da natureza humana projetar seus anseios e insatisfações em coisas inalcançáveis, é uma forma que o inconsciente encontra de sabotar a própria felicidade pondo-a em lugar indisponível e tirando a atenção para as coisas que proporcionariam resultados perenes. Mas por que a mente nos engana? Simplesmente porque as atitudes que nos dão uma real satisfação e plenitude exigem de nós esforços que não estamos dispostos a pagar. Exigem o sacrifício do ego, dos nossos orgulhos e de nossas vaidades. É um processo doloroso. É mais fácil buscar um prazer imediato que disfarce nossa infelicidade. Prazeres fugazes oferecem resultado imediato, mas que se esvaem rapidamente sem deixar conteúdo nenhum. A reforma íntima traz resultados permanentes, mas é demorada e os resultados demoram a vir. O ego é imediatista e não está disposto a se sacrificar.


A repressão sexual foi colocada como causa da infelicidade humana e se tornou, por isso, o objeto da cobiça humana. A repressão erotizou o sexo e o retirou de seu lugar de direito, fixando-o permanentemente na cabeça do homem. Todos só pensam em sexo, de tal maneira que Freud reconheceu a importância desse departamento como elemento central da psicologia humana. Chamou a energia sexual de libido e demonstrou como muitos dos nossos traumas e repressões estão relacionados com problemas em torno da sexualidade reprimida. Pensam em sexo aqueles que estão reprimidos porque não podem usá-lo, pois ainda existe a repressão sexual em nossos costumes e religiões; assim como pensa em sexo os que têm vida promíscua, porque chegam à exaustão, mas nunca a satisfação plena de seus anseios mais profundos. A repressão alimenta o erotismo e a pornografia, eles parecem inimigos, mas no fundo são do mesmo esquema. Sem a repressão as pessoas vivenciariam o sexo naturalmente, falariam sobre sexo naturalmente e não haveria espaço para o imaginário erótico e pervertido. Não confie em um moralista repressor, ele tem qualquer coisa de pervertido.


Quem ganha com esse jogo de repressão / liberação sexual? Ganham aqueles que descobriram nesse jogo um poderoso instrumento de adormecimento da consciência. Enquanto o ser humano consome sua energia e atenção desvirtuando as poderosas energias do sexo, ele permanece letárgico com relação ao seu despertar espiritual e consciência crítica. O sexo é o mais poderoso instrumento de manipulação usado pelo mercado consumidor. Pessoas ansiosas por sexo e inconscientes são consumidores perfeitos que podem ser facilmente ludibriados com a publicidade que abusa das imagens eróticas e apelativas, que anunciam que aquele produto é tão bom quanto sexo.


Os pais e as escolas devem urgentemente falar com seus filhos aberta e sinceramente sobre SEXO. Desmistificá-lo, deserotizá-lo, explicar que o sexo foi feito para o ser humano, mas o ser humano não foi feito apenas para o sexo. Revelar todo esse jogo de repressão e banalização. Não são os filtros de controle familiar que vão impedir seus filhos de verem imagens eróticas no computador. Eles verão e já estão vendo na escola, nos celulares, na TV aberta, em todas as partes. Não há como criar uma bolha para salvar os filhos da exposição erótica, o caminho é desmistificar o nu, despertar a reflexão crítica sobre as questões sexuais, dizer que sexo é bom e sagrado, tão bom e sagrado que é através dele que Deus possibilita a coisa mais sagrada que é a vida. Sexo é vida. Em toda a natureza existe o sexo como uma ação natural de manifestação da vida e por isso deve ser tratado como um departamento sagrado da existência humana, que deve ser tratado com respeito, dignidade e privacidade.


Tratar abertamente sobre sexo não significa tratar do assunto de maneira vulgar, expondo os filhos propositadamente a imagens eróticas. Existem pais que mostram aos seus filhos homens imagens eróticas com medo de que se tornem homossexuais; outros decidem iniciar a vida sexual de seus filhos homens levando-os a prostíbulos logo que atingem à puberdade. Atitudes irrefletidas que sempre levam à erotização ou mesmo geram traumas. O Espiritismo trata do assunto de maneira aberta e respeitosa, muitos livros e conferências no meio espírita abordam esse assunto de maneira lúcida e esclarecedora. Sobretudo os pais espíritas e evangelizadores devem munir-se desse conhecimento a fim de atender às demandas do mundo atual para que as próximas gerações não se encontrem reprimidas ou escravas desse desequilíbrio.


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.