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Os Santos sábios

2 de janeiro de 2013



Os Santos sábios



Mais dois se juntam ao seleto time de doutores da Igreja Católica: homens e mulheres que, além de alimentar a fé, são uma inspiração intelectual para seus fiéis


João Loes


Ser um doutor da Igreja Católica Apostólica Romana não é para qualquer um. Em quase dois mil anos de história, a instituição deu o título a apenas 33 de seus mais de sete mil santos. Pudera, são doutores da Igreja apenas os santos que deixaram documentos que sobreviveram ao tempo e que, de alguma forma, sintetizam a doutrina católica a ponto de servirem de exemplo como vida religiosa. Nesse sentido, não surpreende também que sejam poucas as mulheres entre os doutores. Privadas de educação por milênios, nunca foi fácil para elas deixarem seu legado por escrito. Assim, hoje apenas três figuram entre os 33 doutores da igreja: Santa Teresa D’Ávila, Santa Catarina de Siena e Santa Teresa de Lisieux. Em breve, porém, mais uma entrará nessa seleta lista. O papa Bento XVI deve anunciar formalmente, em 7 de outubro, a alemã Santa Hildegarda de Bingen como nova doutora da Igreja Católica. “É um momento novo para a Igreja, que tenta espelhar o protagonismo que as mulheres já têm na sociedade dentro da instituição”, afirma Fernando Altemeyer, professor de teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).


Nesse contexto, a escolha de Santa Hildegarda como doutora é mais do que oportuna. Monja beneditina nascida em 1098 onde hoje é a Alemanha, ela é tida por alguns como representante do feminismo católico do começo do primeiro milênio. Se publicamente, como religiosa, se mostrava submissa aos seus superiores homens, no dia a dia, como administradora do mosteiro Disibodenberg, exercia autonomia consideravelmente maior do que a média, dando liberdade às monjas, compondo músicas, estudando ciências naturais e escrevendo. Entre os trabalhos que deixou, há um livro sobre medicina herbal que trata de questões femininas como cólicas menstruais, além de outros textos sobre misticismo católico e estudo da música. “Mulheres assim passaram a ser reconhecidas pela Igreja a partir do Concílio Vaticano II”, explica o padre Valeriano dos Santos Costa, diretor da Faculdade de Teologia da PUC-SP. Segundo ele, o Concílio, reunião de bispos e cardeais que completa 50 anos agora em 2012, arejou a Igreja, abrindo novos horizontes para a instituição e novas portas para as mulheres.


Mas, como a Igreja Católica costuma fincar as pilastras na tradição, abrindo poucas frestas para a modernidade, no mesmo dia em que Santa Hildegarda será doutorada, outro homem, o 31º, também ascenderá ao panteão de luminares da Igreja. É o espanhol São João de Ávila, nascido em 1500 numa família abastada da cidade de Almodóvar del Campo. Ainda jovem, São João seguiu o rumo da fé e, logo que seus pais morreram, ele doou tudo o que a família tinha aos pobres e saiu em missão para expandir a fé na região da Andaluzia, recém-libertada do domínio mouro. Foi fundamental na expansão da ordem dos jesuítas na Espanha e deixou cartas e livros que apresentam o caminho para a sublimação das paixões humanas. “Antes de tudo, os doutores são agentes de estímulo da doutrina vigente e de renovação da tradição”, afirma a irmã Célia Cadorin, autoridade no assunto. São ao mesmo tempo santos e sábios.


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 10 de agosto de 2012.



Claudio Conti* comenta


Primeiramente, é importante salientar que a denominação de “Santo” ou a canonização é válida para o Catolicismo.


No Espiritismo, não existem o conceito de “santo” ou “milagre”. Todos são filhos de Deus, criados igualmente, sem privilégios, que colocaria alguns acima dos outros. Existem, sim, espíritos mais ou menos evoluídos. Contudo, os menos evoluídos não estariam fadados eternamente nesta condição, mas apenas temporariamente, seguindo, cada um, conforme a condição em que se encontrar, seu próprio caminho no processo evolutivo. Os milagres, por sua vez, seriam apenas fenômenos naturais, mas que a ciência humana ainda desconhece.


Vemos no livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, várias mensagens assinadas por espíritos que se identificam como santos, tais como São Luis, Santo Agostinho e outros. Todavia, utilizam esta denominação apenas para se identificarem como a personalidade em que, como encarnado, vivenciava os preceitos religiosos católicos da época. Vale ressaltar que durante muito tempo apenas o Catolicismo era a vertente religiosa aceita no ocidente.


Diante disto, Kardec, ao final do Capítulo I, do livro acima citado, esclarece em nota:


“Nota. - Dar-se-á venha Santo Agostinho demolir o que edificou? Certamente que não.


Como tantos outros, ele vê com os olhos do espírito o que não via enquanto homem. Liberta, sua alma entrevê claridades novas, compreende o que antes não compreendia. Novas ideias lhe revelaram o sentido verdadeiro de algumas sentenças. Na Terra, apreciava as coisas de acordo com os conhecimentos que possuía; desde que, porém, uma nova luz lhe brilhou, pôde apreciá-las mais judiciosamente. Assim é que teve de abandonar a crença, que alimentara, nos Espíritos íncubos e súcubos e o anátema que lançara contra a teoria dos antípodas. Agora que o Cristianismo se lhe mostra em toda a pureza, pode ele, sobre alguns pontos, pensar de modo diverso do que pensava quando vivo, sem deixar de ser um apóstolo cristão. Pode, sem renegar a sua fé, constituir-se disseminador do Espiritismo, porque vê cumprir-se o que fora predito. Proclamando-o, na atualidade, outra coisa não faz senão conduzir-nos a uma interpretação mais acertada e lógica dos textos. O mesmo ocorre com outros Espíritos que se encontram em posição análoga.”


Assim, não podemos deixar de considerar o papel importantíssimo destes espíritos, e tantos outros que não foram reconhecidos como “santos” pela Igreja, mas cuja contribuição não foi menos relevante ao pensamento religioso da época em que estavam encarnados.


Muitos deles, entretanto, com o advento do Espiritismo e a possibilidade de comunicação entre as duas condições de existência, continuam contribuindo para a evolução da humanidade, demonstrando que o conhecimento eleva o espírito.


* Claudio Conti é graduado em Química, mestre e doutor em Engenharia Nuclear e integra o quadro de profissionais do Instituto de Radioproteção e Dosimetria - CNEN. Na área espírita, participa como instrutor em cursos sobre as obras básicas, mediunidade e correlação entre ciência e Espiritismo, é conferencista em palestras e seminários, além de ser médium pscógrafo e psicifônico (principalmente). Detalhes no site www.ccconti.com.