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‘Decidi manter a gravidez apesar do câncer de mama’

7 de novembro de 2012



‘Decidi manter a gravidez apesar do câncer de mama’



Simone soube da gestação no Canadá, onde foi orientada a abortar para se tratar; ela recusou e voltou ao Brasil para dar à luz Melissa


FERNANDA BASSETTE, GABRIELA CUPANI, ESTADÃO.COM.BR - O Estado de S.Paulo


A médica Simone Calixto, 39 anos, é uma mulher de muita fé. Por isso tem certeza que o nascimento de sua segunda filha, há duas semanas, é um verdadeiro milagre. Melissa veio ao mundo cheia de saúde, com 2,4 quilos e 43,5 centímetros. Seria algo rotineiro na vida dessa ginecologista e obstetra, mas o longo caminho entre o teste de gravidez e o parto se tornou uma luta para salvar a vida de ambas.


Simone morava no Canadá quando recebeu o diagnóstico da gravidez praticamente ao mesmo tempo que o de câncer de mama. Para poder levar a gestação adiante, teve de comprar uma briga com médicos e recusar o protocolo de tratamento indicado, que preconizava o aborto terapêutico. O parto ocorreu junto com a mastectomia.


Na verdade, a história de Melissa é um milagre desde o início. A gravidez aconteceu contra todas as probabilidades. Simone, que já era mãe de Amanda, 3 anos, havia feito uma bateria de exames poucos meses antes que revelou uma endometriose grave. O médico disse que uma nova gravidez seria pouco provável e ela começou a tomar contraceptivos para controlar a doença. O check up também não revelou absolutamente nada de errado com as mamas.


Naquela época, ela, o marido e a filha estavam no Canadá havia oito anos. Ela estudava para revalidar seu diploma lá. Em novembro passado sentiu um nódulo na mama esquerda. Achou esquisito, mas acabou ficando mais intrigada com a falha na menstruação. "Fiz um teste de farmácia e ficamos em êxtase", conta.


Ela só havia atrasado a tomada da pílula uma única vez e, ainda assim, por poucas horas. Por isso achava que a demora não comprometeria sua eficácia. "Eu até queria engravidar novamente, mas estava esperando o tratamento da endometriose acabar para começar a tentar."


Pré-natal. Na primeira consulta do pré-natal, ainda no Canadá, o caroço havia sumido e sua médica atribuiu às mudanças que ocorrem na mama durante a gravidez. Mas na segunda consulta ele estava maior, e havia outro na axila. "A médica pediu vários exames." Foi aí que uma biópsia revelou a doença.


Em dez dias o tumor já havia dobrado de tamanho. Mas o diagnóstico do câncer em estágio avançado não foi a notícia mais difícil que Simone ouviu: "Eles me disseram que a gravidez estava alimentando o tumor com hormônios, que dificilmente o bebê sobreviveria e que o mais seguro era interromper a gestação para poder fazer o tratamento correto", lembra.


Simone estava no melhor hospital de Ontário e nada convenceu os médicos a tentar preservar a gestação. "Sem esse passo (a interrupção da gravidez) não temos como oferecer tratamento", disseram os especialistas, argumentando que as drogas seriam extremamente tóxicas para o feto. "Se naquele centro de referência eles tinham essa conduta, percebi que em nenhum outro hospital seria diferente", diz.


Era uma sexta-feira. "O sábado foi o momento do maior desespero. Precisava tomar uma decisão, eles queriam marcar o procedimento para o início da semana. Senti que ia morrer, minha alma agonizava."


Então ela lembrou de duas coisas: do seu sonar (aparelho usado para ouvir o coração do bebê na barriga da mãe) e de um vídeo de um programa de TV brasileiro que falava de um caso similar ao seu, em que o bebê tinha nascido saudável. "Coloquei o sonar na barriga e em dez segundos comecei a ouvir o coraçãozinho. Senti que ele estava bem vivo." Achou o vídeo do programa na internet e procurou o contato do médico Waldemir Rezende, citado na reportagem.


Pouco mais de dez dias após o diagnóstico, embarcou de volta para o Brasil, com uma consulta marcada e a sensação de que sua história no Canadá tinha se encerrado.


"Não me deram um documento atestando que eu poderia viajar, tive medo que me impedissem por estar grávida. Quando entrei no avião, senti que estava salva." O marido ainda precisou ficar lá alguns meses para resolver várias questões, entre elas a venda do apartamento, e só chegou 15 dias antes do parto.


Efeitos. No Brasil, assim que a gravidez completou 15 semanas - período mais crítico para a formação do embrião -, ela começou a quimioterapia. Foram seis ciclos, quase sem efeitos colaterais. "Isso não foi difícil. Difícil era enfrentar o que estavam me propondo. Via a minha barriga crescer e isso me deixava feliz."


O último ciclo foi feito com 30 semanas de gravidez. A ideia era ter tempo para recuperar o organismo antes de a bebê nascer, no prazo normal. Mas o tumor voltou a crescer, e ficou mais agressivo. O médico disse que não podiam esperar mais e que teriam de adiantar o parto.


A cesárea foi feita com 36 semanas de gravidez e, mesmo um pouco prematura, a bebê só teve um leve desconforto respiratório após o parto e passou 24 horas na UTI. Simone viu a filha rapidamente, mas não pode pegá-la no colo. Foi logo anestesiada para a cirurgia de retirada de uma das mamas. Também não vai poder amamentá-la, porque as drogas passam para o leite.


Agora ela deve enfrentar uma bateria de exames que não puderam ser feitos durante a gravidez, como tomografias. E mais sessões de químio.


"O mais difícil já passou. A Melissa é um milagre, uma promessa que se cumpriu", diz Simone, que atribui o milagre da vida da filha ao "anjo Waldemir Rezende". Agora ela só tem três desejos: poder pegar a bebê no colo todos os dias, fazer sua mamadeira e trocar sua fralda. Como qualquer mãe.


Notícia publicada no estadão.com.br, em 1º de julho de 2012.



Claudio Conti* comenta


Algumas questões não são de fácil avaliação, tal como esta apresentada na notícia em destaque.


Sabemos de antemão, através dos ensinamentos de Jesus, que não devemos julgar os atos e decisões tomadas pelas outras pessoas, pois somente o próprio indivíduo está em condições de avaliar o que o motivou a seguir em determinada direção.


Todavia, podemos e devemos avaliar situações vivenciadas por outros, com as quais temos informação a respeito, para nos auxiliar em eventuais decisões futuras. Obviamente que estas avaliações serão mais adequadas quando realizadas à luz da Doutrina Espírita.


Portanto, ressaltaremos aqui duas posições apresentadas na Codificação Espírita e que estão relacionadas com o tema em análise:


1. O Livro dos Espíritos:


358. Constitui crime a provocação do aborto, em qualquer período da gestação?


“Há crime sempre que transgredis a lei de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, por isso que impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando.”


359. Dado o caso que o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe dela, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?


“Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe.”


2. O Evangelho Segundo o Espiritismo, CAPÍTULO V:


29. Aquele que se acha desgostoso da vida, mas que não quer extingui-la por suas próprias mãos, será culpado se procurar a morte num campo de batalha, com o propósito de tornar útil sua morte?


Que o homem se mate ele próprio, ou faça que outrem o mate, seu propósito é sempre cortar o fio da existência: há, por conseguinte, suicídio intencional, se não de fato. E ilusória a ideia de que sua morte servirá para alguma coisa; isso não passa de pretexto para colorir o ato e escusá-lo aos seus próprios olhos. Se ele desejasse seriamente servir ao seu país, cuidaria de viver para defendê-lo; não procuraria morrer, pois que, morto, de nada mais lhe serviria. O verdadeiro devotamento consiste em não temer a morte, quando se trate de ser útil, em afrontar o perigo, em fazer, de antemão e sem pesar, o sacrifício da vida, se for necessário. Mas, buscar a morte com premeditada intenção, expondo-se a um perigo, ainda que para prestar serviço, anula o mérito da ação. - S. Luís. (Paris, 1860.)


30. Se um homem se expõe a um perigo iminente para salvar a vida a um de seus semelhantes, sabendo de antemão que sucumbirá, pode o seu ato ser considerado suicídio?


Desde que no ato não entre a intenção de buscar a morte, não há suicídio e, sim, apenas, devotamento e abnegação, embora também haja a certeza de que morrerá. Mas, quem pode ter essa certeza? Quem poderá dizer que a Providência não reserva um inesperado meio de salvação para o momento mais crítico?


Não poderia ela salvar mesmo aquele que se achasse diante da boca de um canhão? Pode muitas vezes dar-se que ela queira levar ao extremo limite a prova da resignação e, nesse caso, uma circunstância inopinada desvia o golpe fatal. - S. Luís. (Paris, 1860.)


Diante do apresentado, não poderíamos supor que a decisão da mãe em dar prosseguimento com a gravidez incorreria em suicídio indireto, caso viesse a desencarnar, nem, tampouco, que estaria equivocada caso tivesse decidido pelo aborto. Portanto, certas decisões são de foro íntimo e somente o próprio indivíduo saberá o que o motivou. Todavia, uma coisa é certa: com “a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha: Transporta-te daí para ali e ela se transportaria, e nada vos seria impossível.” (S. MATEUS, cap. XVII, vv. 14 a 20.)


* Claudio Conti é graduado em Química, mestre e doutor em Engenharia Nuclear e integra o quadro de profissionais do Instituto de Radioproteção e Dosimetria - CNEN. Na área espírita, participa como instrutor em cursos sobre as obras básicas, mediunidade e correlação entre ciência e Espiritismo, é conferencista em palestras e seminários, além de ser médium pscógrafo e psicifônico (principalmente). Detalhes no site www.ccconti.com.