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Milhares de acusadas de bruxaria vivem em campos isolados em Gana

6 de outubro de 2012



Milhares de acusadas de bruxaria vivem em campos isolados em Gana



Katie Whitaker
Da BBC News em Kukuo, Gana


Em Gana e em outros países africanos, quando desastres atingem vilarejos, a busca por explicações acaba levando a bodes expiatórios – as chamadas bruxas.


Mulheres excêntricas ou extrovertidas – muitas vezes idosas – costumam ser os alvos mais fáceis, e os casos normalmente terminam com a expulsão da "culpada".


Atualmente, existem seis campos de bruxas espalhados por Gana, com até mil mulheres em cada um deles.


Neles, mulheres exiladas de seus povoados podem viver sem medo de espancamentos, tortura ou até linchamento.


Isto é, se forem consideradas inocentes ou passarem por um ritual de purificação.


No campo de Kukuo, recém-chegadas primeiro precisam comprar uma galinha de cores fortes como oferenda ao religioso chefe.


Agachado, o velho sacerdote murmura algumas palavras antes de cortar a garganta da ave. Se ela cair de costas, é sinal de que a "bruxa" é inocente e está pronta para ser purificada com água benta.


Caso contrário, a "bruxa" precisa beber uma poção purificadora feita com sangue de galinha, crânio de macacos e terra.


Mas, para o exorcismo funcionar, a mulher não pode ficar doente nos próximos sete dias. Se ficar, tem de tomar a poção novamente.


Embora a tradição dos campos de bruxas aparentemente seja exclusiva de Gana, o costume de encontrar no suposto uso de magia negra explicações para desastres é comum em várias partes da África.



Samata Abdulai


Histórias como a de Samata Abdulai, forçada a abandonar o seu povoado aos 82 anos, são comuns.


Abdulai hoje vive no campo de Kukuo em um dos vários barracos cheios de goteiras e sem acesso a eletricidade ou a água corrente.


Para conseguir água, ela e as outras "bruxas" do campo andam cerca de 5 km diariamente até o rio Otti, carregando os jarros sozinhas.


Uma vida bem diferente do relativo conforto de que desfrutava no vilarejo de Bulli, a cerca de 40 km do campo, onde a vendedora de roupas de segunda mão aposentada cuidava de suas netas gêmeas, enquanto a filha trabalhava nas plantações de algodão.


O destino da idosa mudou após um de seus irmãos acusá-la pela morte de sua filha, supostamente causada por uma maldição lançada por Abdulai.


"Fiquei confusa e cheia de medo, porque sabia que era inocente. Mas também sabia que, uma vez que começam a te chamar de bruxa, a sua vida está em perigo. Por isso, não perdi tempo, juntei as minhas coisas e fugi do povoado", contou à BBC.


"Quando você é acusada de bruxaria, é uma perda de dignidade. Para ser sincera, tenho vontade de simplesmente acabar com a minha vida."


Um relatório da organização não-governamental ActionAid publicado recentemente afirma que mais de 70% das moradoras do campo de Kukuo foram acusadas de feitiçaria e expulsas após a morte dos seus maridos.


Para muitos, isso é um sinal de que as acusações de bruxaria são uma forma velada de a família se apropriar dos bens da viúva.


"Os campos são uma manifestação dramática da condição da mulher em Gana", afirmou o professor Dzodzi Tsikata, da Universidade de Gana.


"Idosas viram alvo porque não são mais úteis à sociedade."


Para o grupo de direitos das mulheres Songtaba, aquelas que não se adaptam às expectativas da sociedade também acabam vítimas de acusações de feitiçaria.


"A expectativa sobre mulheres é de submissão, então, quando elas começam a dar muitas opiniões ou mesmo ser bem-sucedidas em seu ramo, começam as acusações de serem possuídas", afirma o acadêmico.


Uma das irmãs mais novas de Abdulai, Safia, de 52 anos, também mora no campo para ajudar a própria mãe e a avó, ambas expulsas do vilarejo.


"Elas não são bruxas, isso é ódio, inveja e uma forma de se livrar de você", afirma.


O governo de Gana sabe que a existência dos campos macula a reputação dessa que é uma das democracias mais progressivas e economicamente vibrantes na África. Por isso, no ano passado, afirmou que tomaria medidas para acabar com eles, provavelmente, em 2012.


O problema é que não se pode simplesmente mandar as mulheres de volta a seus vilarejos.


"Temos que trabalhar muito com as comunidades para que possam voltar sem serem linchadas ou novamente acusadas, se, por exemplo, uma vaca pula uma cerca e derruba alguma coisa", afirmou Adwoa Kwateng-Kluvitse, diretora da ActionAid em Gana.


Na opinião da ativista, isso pode levar entre 10 e 20 anos.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 3 de setembro de 2012.



André Henrique de Siqueira* comenta


Milhares de acusadas de bruxaria vivem em campos isolados em Gana


Em 1475, na Europa, Johannes Nider publicou o primeiro manual de caça às bruxas de que se tem notícia sob o título Formicarius – que significa formigueiro, em latim. Antes da publicação deste livro acreditava-se que a prática da magia, atos de manipulação da realidade através de rituais intricados, eram realizados por homens cultos e iniciados. A prática do sortilégio – do latim sor + legere (ler a sorte) era tida como um atributo de homens cultos – como os astrólogos, ou de pessoas que possuíam privilégios especiais como os oráculos, pessoas que faziam os comunicados das divindades, dos destinos de pessoas e povos. A noção de sortilégios – como leitura da sorte – desenvolve-se para o conceito de práticas de encantamento de pessoas ou de coisas, dando origem ao termo sorcery – em inglês, a prática da magia ou da necromancia, da comunicação com os mortos às vezes para fins de encantamento. O livro Formicarius – escrito entre 1435-1437, durante o Concílio de Basel, divulgou a ideia de que as pessoas que faziam sortilégios – os necromantes ou feiticeiros - não eram necessariamente pessoas cultas ou agraciadas com dons divinos; ao contrário, tais pessoas desenvolviam tais poderes através do pacto com demônios – do grego daimon, que dignifica espírito. A obra de Nider difunde a ideia de que, devido à sua condição de inferioridade física, mental e moral (segundo as crenças da época), as mulheres eram as mais interessadas em fazerem pactos com os demônios para desenvolverem poderes antes restritos aos homens muito cultos.


A feitiçaria – cuja origem assenta-se no grego farmakía, por referência à manipulação de drogas para curar ou induzir a estados alterados de consciência – é também tomada como a capacidade de lançar feitiços e comunicar-se com os espíritos. Na península era denominada de bruxaria, daí o termo bruxa.


O livro Malleus Maleficarum, de Heinrich Kramer e James Sprenger, publicado em 1487, é considerado o primeiro manual de caça as bruxas. Esta obra trata em sua primeira parte da possibilidade da bruxaria como resultado do pacto com o demônio, a existência de uma bruxa e a permissão de Deus para que o pacto ocorra, a segunda parte descreve os procedimentos e requisitos envolvidos nos trabalhos da bruxaria e como se pode anulá-los. A terceira parte da obra descreve como deveriam ser conduzidos os processos judiciais contra as heresias, em geral, e contra as bruxas, em particular.


Pelo exposto, pode-se ver que o problema das caças às bruxas não é um problema moderno, nem exclusivamente africano. A arte da feitiçaria, do uso da magia com objetivos de comunicação com os mortos ou de realização de coisas extraordinárias é parte integrante da cultura humana. Moisés, por exemplo, condena a consulta aos mortos (Lv 19,31 e Dt 18,9-14) – tema para outro comentário. Para os seres humanos o desconhecido tem sido fonte de curiosidade, de medo e de exploração.


A acusação de bruxaria feita a muitas mulheres africanas na atualidade guarda relações particulares com a obra de Kramer e Sprenger que pretendiam legitimar procedimentos legais para atitudes desumanas. Existem bruxos e feiticeiras? O Espiritismo esclarece que: “Aqueles a quem chamais feiticeiros são pessoas que, quando de boa-fé, gozam de certas faculdades, como sejam  a força magnética ou a dupla vista. Então, como fazem coisas geralmente incompreensíveis, são tidas por dotadas de um poder sobrenatural. Os vossos sábios não têm passado muitas vezes por feiticeiros aos olhos dos ignorantes?”


“O Espiritismo e o magnetismo nos dão a chave de uma imensidade de fenômenos sobre os quais a ignorância teceu um sem-número de fábulas, em que os fatos se apresentam exagerados pela imaginação. O conhecimento lúcido dessas duas ciências que, a bem dizer, formam uma única, mostrando a realidade das coisas e suas verdadeiras causas, constitui o melhor preservativo contra as ideias supersticiosas, porque revela o que é possível e o que é impossível, o que está nas leis da Natureza e o que não passa de ridícula crendice.” (O Livro dos Espíritos, questão 555 e comentários.)


Bruxas e feiticeiras, embora representem a designação popular para práticas que se desconhecem a causa, são tomadas por encantadores maléficos que a sociedade deve evitar, segundo o nosso etnocentrismo - a tendência de considerar como melhores e mais corretas as próprias crenças do grupo ao qual pertencemos. Deve-se, contudo, considerar questões mais sérias: quais os fundamentos nas crenças da feitiçaria e do encantamento? São elas fatos ou crendices sem fundamentos?


A prática de condenar inocentes sob a acusação de bruxaria é faltar com o respeito pelos valores e crenças alheios, ao mesmo tempo que é abdicar da curiosidade científica para investigar fenômenos em busca da explicação que lhes cabe. No caso específico das mulheres africanas do Gana representa expressão da maldade que pretende resolver conflitos sociais através de acusações obscurantistas. Reflete, ao mesmo tempo, falta de amor e falta de instrução.



Para saber mais:


· O Livro dos Espíritos - http://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/07/135.pdf, perguntas 551-557;


· Sobre a comunicação com os mortos e a proibição de Moisés: http://www.espirito.org.br/portal/artigos/paulosns/comunicacao-na-biblia.html;


· http://bruxaria-tradicional.blogspot.com.br/2011/04/origem-veridica-do-nome-bruxaria.html;


· Artigo sobre a tradição de feitiçaria em Moçambique: http://scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s0104-93132000000200003;


· Texto seminal sobre a bruxaria e a racionalidade contemporânea: Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande, obra de Evans-Pritchard: http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=lNk-AQ_iHPgC&oi=fnd&pg=PA7&dq=+Bruxaria,+Or%C3%A1culos+e+Magia+entre+os+Azande&ots=i-8rDE-84J&sig=guz-oNfklM652i8XPT9JHZ8PF_0#v=onepage&q=Bruxaria%2C%20Or%C3%A1culos%20e%20Magia%20entre%20os%20Azande&f=false;


· Sobre o Martelo das Bruxas - http://en.wikipedia.org/wiki/Malleus_Maleficarum, o livro está disponível em http://ebooks.library.cornell.edu/cgi/t/text/text-idx?c=witch;idno=wit060.


* André Henrique de Siqueira é bacharel em ciência da computação, professor e espírita.