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Solidão leva 61% dos idosos a buscar ajuda psiquiátrica em SP

30 de setembro de 2012



Solidão leva 61% dos idosos a buscar ajuda psiquiátrica em SP



COLABORAÇÃO PARA A FOLHA


Levantamento realizado pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo aponta que 61% dos idosos atendidos têm quadros de transtorno de ansiedade e depressão. Os dados foram recolhidos no AME (Ambulatório Médico de Especialidades) Psiquiatria, unidade especializada da pasta na Vila Maria, zona norte, e mostrou que muitos deles sofrem com a solidão.


"A depressão e os transtornos de ansiedade exercem um impacto negativo na qualidade de vida dos pacientes nessa faixa etária, com consequências diretas na saúde, uma vez que estão associados a um maior número de doenças, como diabetes e hipertensão. Tratar esses problemas é cuidar da saúde", diz o diretor do AME, Gerardo Araújo.


A solidão, causada muitas vezes pela morte do cônjuge, de amigos e familiares, além do medo de morrer e das dificuldades financeiras após uma vida toda dedicada ao trabalho, tem levado esse grupo de pessoas ao psiquiatra.


O número de idosos atendidos na unidade, somando-se as consultas médicas e as realizadas por psicólogos, terapeutas ocupacionais e profissionais de enfermagem, foi de 960 em agosto de 2012, número maior do que o observado no mesmo mês do ano passado (917) e quase oito vezes superior ao registrado em agosto de 2010 (124), mês em que a unidade foi inaugurada.


Além do atendimento médico, os idosos em tratamento no AME Psiquiatria também participam de atividades de terapia ocupacional, com diferentes grupos, entre eles o de contadores de histórias e de atividades manuais, tais como pintura em tela, pintura em objetos, fuxico e artes plásticas.


Para ajudar os cuidadores dos idosos - que tem até quatro vezes mais chances de desenvolver quadros depressivos do que a população em geral -, o AME Psiquiatria desenvolve trabalho específico para eles, por meio de encontros semanais em grupo, quando se discute as principais dificuldades enfrentadas durante a rotina de cuidado dos idosos.


Notícia publicada no Jornal Folha de S. Paulo, em 10 de setembro de 2012.



Breno Henrique de Sousa* comenta


A Melhor Idade?


Conversava outro dia com um senhor idoso que contestava o rótulo de “melhor idade” para os anciões. Dizia ele que era uma tentativa politicamente correta de amenizar a difícil realidade do alvorecer da vida física. A verdade é que se pudéssemos, prolongaríamos a juventude do corpo indefinidamente.


Eu nunca fui simpático aos rótulos politicamente corretos. Para mim, reconhecer as dificuldades que existem em determinada condição, de nenhuma maneira é uma forma de desrespeito e nem significa negar as vantagens trazidas pela experiência dos longos anos vividos.


Cada pessoa possui um mundo íntimo diferente e isso leva a uma interpretação diferente de cada circunstância da vida. Em linhas gerais podemos dizer que aquele que tem menos maturidade, que vive uma vida mais sensual, mais voltado para o exterior, para a beleza física, para o prazer sexual, para o usufruto exagerado dos prazeres materiais, sofre mais com a velhice do que aquele que amadureceu interiormente e passou a usufruir de prazeres mais intelectuais e espirituais. Sofre menos também o peso dos anos aquele que cuida melhor da sua saúde e que, apesar da idade, desfruta de boa qualidade de vida.


Quando nos preparamos para a velhice, física e espiritualmente, ela realmente se torna a melhor idade. De outra forma, esse título pode mesmo soar como uma ironia cruel. Vivemos uma cultura que exalta a beleza física, o sexo, a juventude, o poder, a fama e o dinheiro. Estes são os valores venerados pela maioria dos que vivem na Terra. Negamos sistematicamente a morte e a fragilidade da vida, tentando prolongar ao máximo a juventude que se esvai na marcha inexorável do tempo, sem que tenhamos sido educados para a velhice.


Todas as idades são a melhor idade quando sabemos aproveitar o que há de melhor em cada fase e nos poupar das desvantagens e riscos. A juventude pode ser um período de grande conturbação emocional, de uma montanha russa de hormônios e emoções confusas que pode precipitar o jovem despreparado e confuso nos abismos da droga ou da depressão tirando-lhe a vida antes da chegada da maturidade.


Em todas as idades, o conhecimento da vida espiritual é uma força protetora, uma diretriz segura, que nos permite atravessar as diversas fases com equilíbrio e lucidez. O melhor da vida é toda a vida quando é bem vivida.


O abandono de idosos torna-se mais evidente nos países em desenvolvimento quando a população vai ficando mais idosa e as políticas públicas não atendem a demanda crescente e nossa cultura parece negar e esconder a velhice.


É comum que as pessoas constituam família apenas por medo de estarem sós na velhice, mas isso não é garantia de que não sofrerá abandono. Os cônjuges podem morrer mais cedo, infelizmente, às vezes, até mesmo os filhos morrem antes dos pais, e, mesmo que não morram, os laços consanguíneos não garantem laços de afeto e atenção mútuas.


É fácil fazer filhos, difícil é manter relações afetivas saudáveis e positivas. Quando damos um sentido para nossas vidas, nos dedicando a uma causa, tornando útil nossa existência ao próximo, nos fazendo necessários, dificilmente sofreremos de abandono. Quem cultiva a felicidade atrai para si a companhia de todos, mesmo que não tenha filhos, mas a vida lhe trará muitos filhos, irmãos e pais. É solitário quem não é solidário. Quem restringe sua vida aos limites egoístas dos laços consanguíneos, amanhã poderá sofrer de solidão. Nossa família é a humanidade e à humanidade devemos prestar nosso auxílio para preencher de sentido nossa vida.


Isso não isenta o poder público de oferecer o amparo necessário aos idosos. Isso não isenta os filhos da responsabilidade e da obrigação de cuidar de seus pais, retribuindo com amor e gratidão tudo o que lhes foi dado. A cada um cabem as suas responsabilidades. O Espiritismo nos vem revelar uma perspectiva mais rica da vida, demonstra que a matéria é perecível, mas que o espírito é eterno e imortal.


A pior velhice é a da alma. Sejamos sempre joviais e ditosos, não perdendo o interesse pela vida e pelas pessoas. É sempre tempo de aprender algo novo. A vida não termina com a morte física, somos eternos, e por isso nunca é tarde demais para fazer algo novo. O corpo responde ao comando da mente, quando nos entregamos ao sedentarismo e ao desinteresse, estamos plantando as sementes da depressão e das enfermidades, apressando a morte do corpo. Não espere saúde perfeita para fazer algo. Respeitando seus limites, todos podemos fazer algo para ocupar a mente e para dar um sentido à vida.


A vida é para ser vivida, toda ela, e não apenas os anos áureos da juventude para depois ter uma velhice amarga alimentada apenas por lembranças de um passado glorioso. Quanta experiência e conhecimento estão acumulados em nossos anciões. Toda esta carga de experiência poderia salvar tantas vidas imaturas e perdidas. Uma sociedade que nega a velhice, esquece seu passado e está fadada e repetir os mesmos erros.


Somos todos espíritos imortais, todos dignos de afeto e respeito. Não esqueçamos dessa verdade.


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.