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Antropóloga búlgara transforma pão em terapia e programa social

22 de julho de 2012



Antropóloga búlgara transforma pão em terapia e programa social



Giuliander Carpes
Direto do Rio de Janeiro


A cena de Jesus Cristo dividindo o pão com seus apóstolos ficou na história como um símbolo de solidariedade. Mas tem gente que consegue enxergar no alimento mais do que isso. A antropóloga da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, Nadezhda Savova, por exemplo, transformou-o em questão social e até terapêutica. Ela criou um projeto que é utilizado de diferentes formas por 12 países. Basicamente, consiste em fazer pão em grupo.


"O projeto começou com minha pesquisa sobre tradições de comida do mundo, sobretudo o pão. Eu queria saber como preservar as tradições e a importância delas. Me dei conta que fazer o pão era uma oportunidade onde várias pessoas poderiam se juntar. Comecei na pequena cidade de Gabrova, na Bulgária, na minha própria casa. Passei a ter 40, 50 pessoas por noite, muitos com deficiência física e mental, ricos, pobres e pessoas de rua", conta Savova.


Dividir o pão é um sinal de solidariedade, aprender a fazê-lo em meio a um grupo de amigos é uma forma de inclusão e, a antropóloga descobriu depois, de terapia. "É um modelo muito bom porque une as pessoas e faz elas se sentirem em casa. Viajei pelo mundo e a partir dessa iniciativa se desenvolveram muitos outros programas sociais", explica Savova. "Na Rússia e no Peru, temos o programa em hospitais. Os médicos fazem o pão junto com os pacientes e muda totalmente a relação entre eles, além de fazer o paciente se sentir melhor no ambiente de um hospital. É muito terapêutico, chamamos de pãoterapia". Savova conta que chegou até a trabalhar com Patch Adams, o exemplar fundador da terapia do riso que chegou a ser tema de um filme de Hollywood.


Em cada lugar do mundo, o pão é feito de uma forma - com trigo, milho, batata e até arroz, mas Savova explica que a recepção ao projeto é sempre a mesma. "É muito interessante, porque o pão pode ser feito de diferentes ingredientes, mas o contato com a massa é tão agradável que é universal o prazer das pessoas em trabalhar com ela. Para eles, é quase um milagre ver o processo da farinha até o pão."


Convidada para apresentar o projeto na Cúpula dos Povos, evento paralelo que questiona as discussões da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, Savova pretende transformar uma faixa de grama do Aterro do Flamengo em fábrica de pães na próxima quarta-feira à tarde. Ela não tem dúvida de que a recepção à ideia será semelhante a que já tem pelo mundo. "É uma questão muito sustentável porque muda a maneira como as pessoas pensam a comida. E no final é ótimo porque todo mundo fica feliz em comer e sentir aquele cheiro maravilhoso de pão quentinho."


Notícia publicada no Portal Terra, em 15 de junho de 2012.



Breno Henrique de Sousa* comenta


Mão na massa


O pão é um dos alimentos mais antigos e difundidos no mundo, presente em quase todas as culturas, sendo considerado em muitas delas como um alimento sagrado. Aliás, o alimento, de maneira geral, está repleto de simbologias, lendas e mitos. No cristianismo, foi o pão que Jesus distribuiu entre os apóstolos que simbolizou a vida que ele deu à humanidade, o alimento da alma que sacia a fome do espírito faminto de paz e alento.


Não apenas o alimento é tido como sagrado, como também o ato de estar à mesa. Quando nos alimentamos, compartilhamos com o nosso próximo uma experiência milenar. Em torno do alimento, todos se reúnem e celebram alegremente. É a oportunidade que familiares e amigos têm de se reunir e compartilhar experiências, aprofundar relações, etc. É quando a família tem a oportunidade de por a conversa em dia, sobretudo nos dias atuais, quando são poucos os momentos em que os familiares se encontram.


O Espiritismo não atribui o valor de mais sagrado a algumas coisas do que a outras. Tudo é sagrado na vida, mas não ignoramos o valor psicológico e simbólico que há no ato de reunir-se em torno do alimento. Mesmo que isso não tenha um significado místico-religioso, é certamente uma oportunidade abençoada de nutrir o corpo e a alma. Recomendam-nos diversos autores a necessidade de mastigar bem os alimentos, concentrando-nos no que estamos fazendo, sentindo bem o sabor dos alimentos, ajudando no processo de digestão e fazendo deste ato um instante especial no qual devemos abstrair-nos dos problemas da vida.


Alimentar-se com tranquilidade ou desfrutando do convívio de pessoas queridas, com diálogos agradáveis e edificantes, certamente resultará em saúde para o corpo e para a alma. Sobrecarregar esse momento com preocupações, mastigando apressadamente ou discutindo com nossos familiares, pode gerar todo tipo de desordem digestiva, além de impregnarmos o alimento com energias mentais desequilibrantes. Até mesmo ao fazer os alimentos, devemos ter o cuidado de aproveitar esse como um momento de meditação, prazeroso e terapêutico.


A antropóloga búlgara vislumbrou a importância e o alcance significativo que o alimento tem em nossas vidas, utilizando-o como instrumento de inclusão social. Faz-nos pensar também em quantos ainda estão excluídos por não ter direito a um prato de alimento, e como, se o alimento reúne e edifica, a fome, por sua vez, representa a morte, a exclusão e a divisão entre povos e classes sociais. Socorramos nossos irmãos que têm fome, e mais do que fome material, a humanidade está faminta do pão espiritual. Parabéns pela iniciativa e por tornar o pão físico no pão do amor e da solidariedade.


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.