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Mulher tida como bruxa é linchada na Índia por não curar doente

20 de julho de 2012



Mulher tida como bruxa é linchada na Índia por não curar doente



DA EFE


Um grupo de indianos linchou uma mulher que não conseguiu curar um doente com suas "artes de bruxaria" na cidade de Sabrum, no extremo leste da Índia.


Forças de segurança da cidade prenderam 12 pessoas ligadas à morte da mulher, que se chamava Dharamsri e tinha 60 anos.


Segundo um policial relatou à agência de notícias local IANS, o corpo da indiana foi encontrado em um bosque, junto a outras duas mulheres, que pareciam ser suas ajudantes. As duas também foram agredidas e estão seriamente feridas.


Um dos detidos confessou que a intenção dos agressores era queimar o corpo da mulher, mas a chegada dos policiais os impediu.


Em um caso semelhante, outra suposta bruxa foi queimada viva na última sexta-feira no estado vizinho de Assam.


Nas áreas tribais da Índia, especialmente no leste do país, não são incomuns sacrifícios humanos e linchamentos de mulheres acusadas de praticar bruxaria, mesmo com os esforços do governo para impedir tais práticas, através de campanhas de conscientização.


No passado, algumas correntes hindus eram adeptas de rituais de sacrifícios humanos. Embora hoje estejam quase erradicados, ainda há casos.


Há três semanas um adolescente de 14 anos morreu vítima de um sacrifício no estado de Andhra Pradesh. Ele foi assassinado por um grupo de pessoas que acreditavam que a morte do garoto os levaria a um tesouro secreto.


Dados oficiais do país apontam que em 2009 - último ano de que se tem registro - ocorreram 186 mortes violentas relacionadas à bruxaria.


Notícia publicada no Jornal Folha de São Paulo, em 11 de fevereiro de 2012.



Carlos Miguel Pereira* comenta


De entre os tormentos que afligem a humanidade, a ignorância é um dos mais devastadores para o indivíduo e para a sociedade. Não me refiro apenas à falta de um qualquer conhecimento específico, seja ele científico, cultural ou filosófico, pois pode-se desconhecer todos os livros, ideias e teorias, sem que isso faça de alguém necessariamente um ignorante. O que nos faz ignorantes não é tanto a falta de cultura, mas sobretudo o orgulho, a arrogância e a presunção, o desconhecimento de nós mesmos, a incapacidade para nos vermos como somos sem distorções, compreendendo os conflitos íntimos e as frustrações que não largamos. Limitando a percepção da realidade própria e daquela que nos rodeia, a ignorância cria e recria ilusões e mentiras auto-sustentadas, reinventa desculpas e constrói caminhos imaginários para a resolução dos mais variados problemas. Refém de ideias culturais, de conceitos dogmáticos, superstições e preconceitos, prisioneiro da opinião pública e da voz da autoridade, a ignorância alimenta a credulidade, mas também a rigidez e a intolerância, propicia a manutenção dos erros sem a compreensão das responsabilidades próprias, treme perante o argumento da autoridade, fica vulnerável diante da maldade e da cupidez, fomenta a violência, enfrentando as sucessivas desilusões que a vida proporciona sem conseguir transformar as suas dores em aprendizagem.


As bruxas e os curandeiros não são um produto da ignorância, mas sim um fenômeno que se alimenta da fragilidade emocional das pessoas em momentos dolorosos, do desgaste brutal que as situações de maior aflição provocam, do desespero insuportável quando mais nada lhes pode valer. Acreditando ou sendo um cético, nessas horas de agonia tudo parece válido para que não se perca a esperança e para encontrar uma possível solução para um determinado problema. Mas de que serve a esperança, quando ela é alimentada por fraudes, mentiras e ilusões? Torna-se apenas mais um lenitivo temporário que, mais cedo ou mais tarde, conduzirá a mais desilusões, a um aumento da revolta e da perturbação, podendo inclusive originar crimes, como os que estão narrados na notícia.


Isso significa que os bruxos, curandeiros e médiuns são todos uns charlatães? Não podemos deitar fora a criança junto com a água do banho. Se existem muitos que se aproveitam da boa fé e da dor alheia, outros há que são autênticos e movidos unicamente pela fraternidade. É importante, por isso, proteger-se contra fraudes e embustes. O recurso à medicina é indispensável, sendo fundamental seguir as prescrições dadas pelo profissional médico. Caso haja uma vontade complementar de fazer acompanhar essa terapia convencional de uma terapêutica com base espiritual, é necessário que sejam procuradas referências confiáveis sobre a idoneidade de quem faz esse serviço, sobretudo desconfiando das práticas que são utilizadas como negócios lucrativos e não como caridade. A mediunidade de cura, protagonizada por alguns médiuns, é um fenômeno raro, mas que possui evidências da sua autenticidade. A ciência atribui esses resultados surpreendentes à vontade do paciente em ficar bom e ao efeito placebo, mas é uma explicação muito simplória para tão extraordinário fenômeno. Essa mediunidade é a capacidade que certos médiuns possuem para servirem de intermediários na correção de desorganizações do corpo físico provocando ações reparadoras em tecidos e órgãos. A cura dá-se pela ação magnética convenientemente dirigida, que leva à modificação das propriedades orgânicas, podendo existir dois tipos de tratamento: um realizado diretamente no corpo físico, reparando tecidos; outro realizado sobre o perispírito. Este tipo de procedimentos funciona sempre? Nem sempre. Por vezes, as doenças são irreversíveis e outras vezes, mesmo eliminando o problema orgânico, as causas que estão na origem dessas maleitas dependem unicamente da própria vontade do indivíduo para se curar. Não havendo essa correção, ao cair nas mesmas armadilhas que estiveram na origem da desorganização física, a doença é atenuada, mas voltará novamente.


Ao longo da nossa vida, somos constantemente surpreendidos pelas consequências dos nossos equívocos. Só que fingimos não perceber. É mais fácil culpar os outros e responsabilizar alguém pelas nossas dores do que admitir que precisamos reformular condutas. Às vezes, passamos por duras provações durante a nossa vida, sem conseguirmos aprender uma única lição. E isso é muito triste. É muito triste porque significa que passamos por essas provações sempre de cabeça no ar, à procura de soluções pronto a servir, de dedos em riste e à procura de culpados a quem possamos responsabilizar pelas nossas dores. É uma fuga da realidade, da agonia que o confronto com a nossa sombra nos provoca.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.