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‘Engravidei duas vezes de bebês anencéfalos’

30 de junho de 2012



‘Engravidei duas vezes de bebês anencéfalos’



Clarissa Thomé


Vanessa Oliveira, gerente de contas de 29 anos


“Engravidei duas vezes e os dois bebês tinham o mesmo problema: anencefalia. Na primeira vez, eu tinha 23 anos. Era uma gravidez programada, desejada. Soube aos 3 meses de gestação que o bebê era anencéfalo. Foi muito triste. Procurei especialistas e todos diziam que ele não tinha chances - podia viver dias, horas ou já nascer morto.


Optei pelo aborto legal, mas enfrentei muita burocracia. Se você não tem condições financeiras de contratar advogado para acompanhar o processo, não consegue. No meu caso, eu só tive a autorização judicial para interromper a gravidez com 7 meses e meio de gestação.


Quando você mais precisa de ajuda, não recebe apoio - nem dos médicos nem da Justiça. Fiz aborto numa época já de risco. Aos 7 meses e meio, meu filho pesava só 300 gramas e tinha 15 centímetros. Tão pequeno assim, não fazem enterro. O corpinho dele ficou para estudos. Eu o chamava de Lohan, mas nem foi preciso registrá-lo.


Quatro anos depois, engravidei de novo. Dessa vez era uma menina, Sara. O pesadelo se repetiu - aos 3 meses de gestação, o exame revelou a anencefalia.


Eu já conhecia a burocracia, as dificuldades para conseguir o aborto legal. E não tinha como pagar um advogado novamente. Por isso, decidi levar a gravidez até o fim.


As pessoas vinham dar parabéns pela bebê, perguntavam como ela estava. Eu não falava a verdade, é muito difícil dar explicações o tempo todo. Eu dizia que estava tudo bem.


Criei um mundo só para mim e nesse mundo eu voltaria para casa com minha filha. É cruel sentir o seu bebê se mexendo durante a gravidez e saber que ele não vai ficar com você.


O médico sugeriu que eu fizesse uma cesárea, porque teria mais tempo para ficar com ela. Minha filha viveu 14 horas. Pude pegá-la no colo, mas não a amamentei. Ela ficou na incubadora, respirando com a ajuda de aparelhos. Fiquei ao lado dela o tempo todo, dei o amor e o carinho que eu pude.


Aqueles que são contra o aborto de fetos anencéfalos defendem a gravidez a termo para que os órgãos possam ser doados. Nem esse consolo eu tive. Os órgãos dela não estavam completamente formados, começaram a falhar momentos depois do nascimento. O coração era muito fraquinho.


Tive de registrar a Sara, fazer o atestado de óbito e enterrar minha filha. Só os pais sabem a dor do que é viver todo esse processo. A interrupção da gravidez aos 3 meses poderia evitar tanto sofrimento.


Decidi falar porque apoio a causa (do aborto de bebê anencefálico). Fico muito emocionada ao contar essa história e até hoje só falei para os parentes e amigos mais próximos.


Nunca soubemos por que isso aconteceu conosco duas vezes. Não há nenhum caso na minha família nem na família do meu marido. Os médicos investigaram, mas não conseguem nos dar uma resposta. Desisti de engravidar. Agora, estamos na fila de adoção.”


Notícia publicada no estadao.com.br, em 10 de abril de 2012.



Marcia Leal Jek* comenta


O trabalho de reencarnação já é iniciado desde a concepção, como podemos verificar na resposta à questão 344, de O Livro dos Espíritos: “Começa na concepção, mas só é completa por ocasião do nascimento. Desde o instante da concepção, o Espírito designado para habitar certo corpo a este se liga por um laço fluídico, que cada vez mais se vai apertando até o instante em que a criança vê a luz." Seguindo a sequência, um pouco mais adiante, na questão 356, advertem os Espíritos que há corpos para os quais nenhum Espírito está destinado, explicando que isto acontece como prova para os pais.


Portanto, a mensagem trazida nesta questão é que a reencarnação se dá através do processo natural da gestação no corpo da mulher, onde um Espírito se liga a um embrião de um novo corpo em formação. Essa ligação se dá célula a célula e há neste processo uma combinação de fluidos, como nos ensina o Espírito Emmanuel, em seu livro O Consolador, psicografado por Francisco Cândido Xavier: “Quando o embrião está em formação ocorre uma interpenetração de fluidos entre a gestante e a entidade então ligada ao feto. O reencarnante é, portanto, também um Espírito imortal que possui suas próprias aquisições, qualidades, defeitos, receios, ansiedades, sem contar com seu próprio histórico espiritual, onde suas atitudes do passado, ao deixar marcas vibratórias em seu perispírito, imprimirão esta ou aquela característica (inclusive enfermidades) em seu novo corpo em formação, todas resultado justo e natural da Divina Lei de Causa e Efeito.”


O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a mulher tem direito a escolher interromper a gestação de feto anencéfalo. A decisão foi tomada pelo placar de 8 votos a favor contra 2. Onde está à justiça numa decisão que opta por retirar a vida dos bebês anencéfalos?


A vida é o maior dom de que dispomos e não compete a ninguém o poder de tirá-la. Encontramos essa afirmativa na questão 880, de O Livro Dos Espíritos. Allan Kardec pergunta aos Espíritos qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem. E a resposta é clara: “O de viver”.


Muitos podem alegar que o feto nessas condições não possui cérebro, desde que também não tenha nenhum espírito ligado a ele.


Tópicos da reportagem que podemos analisar:


“Decidi falar porque apoio a causa (do aborto de bebê anencefálico)”. Através dessa afirmativa, verificamos os equívocos no raciocínio dos que são favoráveis ao aborto. Trata-se de um ser humano que renasce precisando de muito amor e amparo.


“Fiquei ao lado dela o tempo todo, dei o amor e o carinho que eu pude”. É importante ficar com seu filho(a) até quando fosse permitido. Diante do feto anencéfalo, é preciso que os pais pensem no grau de comprometimento que têm para com esta alma doente, e se esforçar ao máximo para ajudá-la a recuperar-se.


Não podemos usar falso argumento que o aborto é a solução para todos os problemas e que a mulher pode decidir pela morte de seu filho.


Os Espíritos nos esclarecem, na questão 360, de O Livro dos Espíritos: "É racional ter pelos fetos o mesmo respeito que se tem pelo corpo de uma criança que tivesse vivido?” Resposta: "Em tudo isto vede a vontade de Deus e a sua obra, e não trateis levianamente as coisas que deveis respeitar".


“Nunca soubemos por que isso aconteceu conosco duas vezes. Não há nenhum caso na minha família nem na família do meu marido. Os médicos investigaram, mas não conseguem nos dar uma resposta.” O Espiritismo nos ensina que a malformação do feto está ligada a débitos anteriores do reencarnante, e os pais, muitas vezes, colaboraram com a queda desta alma, tendo agora o compromisso de assumir os seus reajustes perante as leis divinas. Alguns Espíritos necessitados, com graves comprometimentos, principalmente o suicídio, buscam para o seu equilíbrio esse tipo de processo que chamamos de anencefalia; eles são submetidos à ligação provisória com o embrião, e sentem a fusão do Espírito com a matéria, mesmo que seja rápido, e com o amor dos pais e, principalmente da mãe, readquirem pouco a pouco a inteira consciência, às vezes adormecidas anos a fio na escuridão.


Ocorrendo o aborto, estaremos tirando a chance desse ser ficar em paz com sua própria consciência. Criados pelos dissabores em suas vidas anteriores, o tratamento dos males do Espírito para aliviar suas aflições é dado somente através da reencarnação, reconstituindo o seu perispírito e refazendo com sua consciência o autoperdão e o amor-próprio, sem o exagero do sentimento de culpa.


Portanto, mesmo legalizado o aborto e antes de qualquer decisão a que venhamos tomar, nos cabe seguir os ensinamentos de Jesus, do amor ao próximo e a nós mesmos, e que possamos agir da melhor forma possível, oferecendo oportunidades de resgate e evolução para todos.


* Marcia Leal Jek estuda o Espiritismo há mais de 25 anos e é trabalhadora do Centro Espírita Francisco de Assis, em Jacaraipe, Serra, ES.