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O homem que salva faces

1º de abril de 2012



O homem que salva faces



A história do cirurgião plástico Mohammad Jawad, que deixa a Inglaterra para se dedicar a restaurar o rosto de mulheres vítimas de ataques com ácido no Paquistão


Monique Oliveira


Nascido em Karachi, centro financeiro do Paquistão, o cirurgião plástico, 54 anos, que hoje mora em Londres, há quatro anos desconhecia que, em seu país, centenas de mulheres agonizavam em dor física e psíquica após terem seus rostos e corpos desfigurados por maridos ciumentos ou pretendentes rejeitados. Atualmente, viaja da Inglaterra à terra natal a cada três meses com a missão de restaurar a face dessas vítimas. Sua história virou filme – “Saving Face” –, ganhador, na última semana, do Oscar de melhor curta-documentário. “Espero que as pessoas entrem em contato com essa dura realidade”, disse Jawad à ISTOÉ. “Deformadas, com uma aparência monstruosa, essas mulheres perdem a porta de comunicação com o mundo.”


Os ataques são feitos com os ácidos nítrico e sulfúrico. Os produtos derretem a pele e não raro condenam suas vítimas à cegueira permanente. Jawad recuperou o rosto de mais de 40 mulheres – em média, cada uma se submete a 30 procedimentos, que podem incluir transplante de pele e o uso de biomateriais.


Duas delas têm seus dramas retratados no documentário. Zakia, 39 anos, foi atacada pelo ex-marido. Rukhsana, 25 anos, pelo marido. Ambas lutam para que os agressores sejam presos. No Paquistão, porém, a lei não é clara sobre a punição a esse tipo de ataque. Se condenados, os homens não ficam mais do que cinco anos presos. Em dezembro de 2011, uma nova lei foi aprovada, prevendo pena de 14 anos. “Mas não sabemos se será aplicada. Por enquanto, temos que interferir da maneira que podemos, fazendo alguma coisa”, diz Jawad. “Zakia já busca o filho na escola sem véu”, comemora.


A história que levou o cirurgião a prestar assistência às paquistanesas começou no Reino Unido, com um caso conhecido. Ele foi o responsável pela recuperação do rosto da ex-modelo britânica Katie Piper, que sofreu ataque por ácido sulfúrico a mando do ex-namorado Daniel Lynch. O médico tornou-se referência em reconstrução da face por queimaduras. Não demorou a ser procurado pela Associação de Sobreviventes de Ataques por Ácido do Paquistão, quando conheceu uma outra realidade de seu país: no cordão de Saraiki, região que reúne grupo étnico islâmico com fortes raízes patriarcais, e longe de onde o cirurgião nascera, cerca de 100 mulheres são atacadas por ano. Os dados são oficiais. Já a Associação de Mulheres Progressistas do Paquistão, registrou 7,8 mil ataques num período de 14 anos.


Agora, o médico está empenhado em juntar recursos e voluntários para abrir sua própria fundação. Quer dar formação a cirurgiões locais e combater a prática dos ataques. “Eles representam o extremo da ira humana”, diz.


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 2 de março de 2012.



Cristiano Carvalho Assis* comenta


Quando lemos uma notícia dessas, não temos que comentar, e sim aplaudir e tentarmos seguir o exemplo. Os atos dizem por si só. Quantos de nós somos especialistas em saber como consertar o mundo, mas não temos nenhuma ação concreta? Ou o quanto somos críticos em analisar como os outros deveriam se portar em suas atitudes de benevolência ou caridade. Quantas vezes já nos pegamos dizendo que se fizessem de outra forma seria melhor? Mas quando as pessoas que ouvem isso perguntam por que não fazemos o que propomos, imediatamente nos esquivamos com desculpas que giram em torno do sem tempo, sem dinheiro ou a família.


Podemos tirar alguns ensinamentos dos atos deste médico, que podemos tentar aprender. Em O Livro dos Espiritos, vemos na questão 899:


"Qual o mais culpado de dois homens ricos que empregam exclusivamente em gozos pessoais suas riquezas, tendo um nascido na opulência e desconhecido sempre a necessidade, devendo o outro ao seu trabalho os bens que possui?


Aquele que conheceu os sofrimentos, porque sabe o que é sofrer. A dor, a que nenhum alívio procura dar, ele a conhece; porém, como frequentemente sucede, já dela se não lembra."


Podemos observar assim que Mohammad Jawad não desperdiça sua riqueza, tanto financeira, quanto de conhecimento, esquecendo dos problemas de sua origem. Outros poderiam considerar que isso era papel do governo do país e continuar a vida como estava.


Não podemos dizer que por isso o médico deva ser considerado santo. Ele possui muitos erros e defeitos a corrigir como todos nós. No entanto, já está auxiliando e transformando o meio em que vive. Provavelmente, resgatando débitos e conseguindo créditos em sua conta espiritual. Não nos enganemos em achar que a Lei de Ação e Reação é sinônimo da Lei de Talião de Moisés. Se hoje estamos jogando ácido em dezenas de pessoas, não quer dizer que amanhã necessitaremos passar pela mesma situação várias vezes, ou pelo menos uma, para sentirmos o que fizemos o outro arcar.


A Lei Divina funciona de forma diversa a está ideia. Sempre esquecemos, nos nossos critérios de “justiça”, a pitada da Misericórdia. Podemos realmente ter que passar de forma violenta ou com alguma doença que gera a mesma limitação que fizemos os outros passar. Mas isso é porque muitos de nós precisamos disso, devido ao sentimento de culpa que geramos após o arrependimento de nossos erros, ficando assim com a consciência tranquila quando “quitamos” nossos débitos. Outros, onde geram o sentimento de responsabilidade pelos seus erros, podem, em vez de passar por uma situação de limitação extrema individual, escolher fazer ações humanitárias para as pessoas ao seu redor, lembrando o preceito “o amor cobre uma multidão de pecados”. Pela lógica, qual é mais agradável a Deus? Aquele que resgata seus equívocos sofrendo ou o que ama e contribui na melhora física e psicológica de centenas de pessoas?


“Por enquanto, temos que interferir da maneira que podemos”. Esta deveria ser uma frase constante em nossas mentes, mostrando que devemos fazer tudo o que é possível, segundo nossa capacidade física, psicológica e espiritual. Perdemos a conta de ouvir e, por que não dizer falar, que não iremos fazer algo porque “ainda não estou preparado”. A maior beleza das Leis Divinas é que Ele não espera que estejamos perfeitos em algo para nos utilizar como “instrumento de vossa paz!” (São Francisco).


Utiliza-nos com o pouco que temos e damos para gerar o muito aos outros e, principalmente, a nós mesmos. Por isso, sempre é válido termos como exemplo pessoas que já saem do mundo egoísta do eu para auxiliar no mundo real do nós. Tenhamos na lembrança de nossas almas a mensagem de Emmanuel, pelas mãos de Chico Xavier: “Ninguém é tão infeliz que não possa produzir alguns pensamentos de bondade, nem tão pobre que não possa distribuir alguns sorrisos e boas palavras com os seus companheiros na luta cotidiana.” (Livro Fonte Viva.)


* Cristiano Carvalho Assis é formado em Odontologia. Nasceu em Brasília/DF e reside atualmente em São Luís/MA. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Maranhense e colaborador do Serviço de Atendimento Fraterno do Espiritismo.net.