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"O câncer foi algo inevitável"

30 de março de 2012



"O câncer foi algo inevitável"




Às vésperas de reestreia da peça "Cruel" no teatro Faap na terça-feira 13, Reynaldo Gianecchini tem "celebrado a vida"


Gisele Vitória com Bruna Narcizo e Juliana Faddul


Às vésperas de reestreia da peça “Cruel” no teatro Faap na terça-feira 13, Reynaldo Gianecchini tem “celebrado a vida”. O ator, diagnosticado com linfoma em agosto de 2011,  disse durante os ensaios: “Não vejo a doença como um castigo. Acredito que o câncer foi algo inevitável. Sempre soube que ia superar.” Giane vive um vilão nos palcos. “Meu personagem volta para se vingar e eu o deixo aqui no palco. Estou numa época em que o que mais preservo é o ser humano".


Notícia publicada na Revista ISTOÉ, em 9 de março de 2012.



Carlos Miguel Pereira* comenta


Existem momentos na vida da gente que são verdadeiro pontos de mudança. Às vezes, parecem desafios surgidos do nada; outras vezes, se mascaram de infortúnios e desilusões. Mas, na realidade, são oportunidades únicas que a vida proporciona para percebermos o que está enguiçado e podermos estimar as nossas potencialidades. A miopia que evidenciamos sobre a vida, seus propósitos e mecanismos limita a percepção destes pontos de mudança, pois apenas conseguimos ver os efeitos imediatos, medir os impactos no cotidiano. Um atleta, não podendo ver mais além do que a extrema dureza dos treinos madrugadores e para lá das dores musculares que o atormentam diariamente, não terá condições para ser escalado para as olimpíadas. É também por não enxergarmos mais além que respondemos com lamentações às dificuldades, choramos a injustiça do sofrimento, ou nos julgamos vítimas de um castigo exemplar. A dor é uma resposta da vida que, não conseguindo se fazer ouvida de outro jeito, fala em forma de lições que nos orientam para uma vivência mais sublimada. Isto porque a vida é um processo dinâmico e recursivo, uma sequência infindável de experiências em vidas sucessivas que nos ajudam a corrigir os equívocos e a expandir o amor e a sabedoria ao longo da eternidade. E o que são algumas dezenas de anos diante da eternidade?


A ideia que ainda prevalece na sociedade sobre a morte e sobre a doença transfigura-se quando interiorizamos este novo conceito de vida. Assim, a dor não é injusta nem uma punição, mas um convite à mudança. Sendo o inevitável eco da nossa conduta íntima, a dor dá-nos uma maior consciência dos nossos erros. No corre-corre diário argumentamos constantemente: “Não tenho tempo!”. Andamos daqui para ali, de cá para acolá, cheios de pressa, fazendo o que não gostamos, comendo o que dá tempo, sem valorizar o que a vida nos proporcionou, sem espaço para desfrutar do sorriso do filho, do aconchego da mulher, da beleza das cores da primavera, do delicioso aroma que as flores incrustam à nossa volta, da brisa que o mar empurra ao encontro da gente. Ficamos sem tempo para pensar e meditar na nossa vida, no rumo que ela está tomando. Mas chega um momento em que somos solicitados a relembrar o que esquecemos. Num dia igual a tantos outros, a dor vem bater forte à nossa porta. E quando a vida nos ameaça retirar o que é mais precioso e que ainda não aprendemos a valorizar, quem não tinha tempo para nada fica com tempo para tudo. Fica com tempo para meditar na transcendência da vida, nos momentos que desperdiçou, na possibilidade de não serem repetíveis, naquilo que fez de errado, em tudo o que deixou por fazer. Só então percebemos algo que deveria ser básico na nossa educação: Não possuímos nada além das conquistas íntimas e do amor que plantamos no coração dos que nos rodeiam. As doenças cumprem esse papel pedagógico. Elas nos tornam mais humildes e vulneráveis, ficando assim mais receptivos para abraçar o amor incondicional e adquirir uma lucidez que, por vezes, impressiona a quem está de fora.


A dor é uma oportunidade preciosa para mudar. No entanto, é muito triste quando não aproveitamos essa dor para promover mudanças à vida. Esfogueados, queremos esquecer as dores de qualquer jeito, abafá-las através de qualquer artimanha – não me refiro às dores físicas que a medicina tão bem atenua, mas às dores emocionais, aos processos dolorosos que atingem a alma humana. Ao passarmos à frente, sem empreender as mudanças necessárias, será apenas uma questão de tempo até sermos de novo surpreendidos com as consequências dos nossos equívocos.


A vida de cada um de nós é o reflexo de quem somos, das lições que mais precisamos aprender e daquilo que necessitamos mudar em nós mesmos. Chega de cometer sempre os mesmos erros! Aprendamos com as múltiplas experiências iluminativas que a vida nos proporciona e caminhemos adiante, apesar dos seus latejos dolorosos, mais confiantes e preparados, rumo ao nosso destino imortal.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.