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Misteriosa epidemia assola cortadores de cana na América Central

10 de março de 2012



Misteriosa epidemia assola cortadores de cana na América Central



Kate Sheehy


The World*


Uma epidemia misteriosa está assolando a América Central e é a segunda principal causa de mortes entre homens em El Salvador e na Nicarágua. A doença já matou mais homens do que o vírus HIV e a diabete somados. As causas da epidemia permanecem desconhecidas, mas a teoria mais recente é de que as vítimas estariam, literalmente, trabalhando até a morte.


Nas planícies da Nicarágua — uma região farta em plantações de cana de açúcar — fica a pequena comunidade de La Isla, com suas casinhas que são uma colcha de retalhos de concreto e madeira. Pedaços de tecido servem como portas das residências.


Maudiel Martinez é pálido e tem as maçãs do rosto saltadas. Ele é curvado como um idoso, mas tem apenas 19 anos de idade.


"Essa doença é assim. Você está me vendo assim agora, mas dentro de um mês pode ser que eu não esteja mais aqui. Ela pode te levar de repente", afirma.


Os rins de Maudiel estão falhando. Eles não estão realizando a função essencial de filtrar impurezas do corpo. Ele está sendo, pouco a pouco, envenenado por dentro.


Quando adoeceu há dois anos, ele já estava familiarizado com a sua doença e com os efeitos que ela poderia ter sobre ele. "Eu pensei no meu pai e no meu avô", afirmou. Mas ambos morreram da mesma condição. Três dos seus irmãos também sofrem da mesma doença. Todos eles trabalhavam nas plantações de cana.



A Ilha das Viúvas


Doenças renais mataram tantos homens nesta região que os moradores já passaram a chamar La Isla (A Ilha) de La Isla de las Viudas (A Ilha das Viúvas).


A doença não se limita à Nicarágua. Há inúmeros casos registrados em seis países da América Central, situados na região costeira do Oceano Pacífico.


"É importante que a doença renal crônica afetando milhares de trabalhadores das zonas rurais da América Central seja reconhecida como o que ela é — uma forte epidemia com um tremendo impacto sobre a população", afirma Victor Penchaszadeh, um epidemologista da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.


O Ministério da Saúde de El Salvador já pediu a ajuda da comunidade internacional para combater a doença. A ministra Maria Isabel Rodríguez afirmou que a epidemia está "consumindo as nossas populações".



Além do meio rural


Em uma clínica de El Salvador, na região rural de Bajo Lempa, o médico Carlos Orantes recentemente descobriu que 25% dos homens na área sofrem da doença. E mais, afirma ele: a maior parte dos homens que estão doentes não tem indícios de pressão sanguínea alta ou de diabetes, que são as causas mais comuns de doença renal crônica em todo o mundo.


"A maior parte dos homens que nós estudamos possuem doenças renais crônicas provocadas por causas desconhecidas", afirma.


O que os homens da região têm em comum é que todos trabalham com agricultura. Por esse motivo, Orantes diz acreditar que uma das principais causas das falhas renais das quais eles sofrem sejam componentes químicos tóxicos, como pesticidas e herbicidas, que são usados regularmente na agricultura.


"Estes químicos são proibidos nos Estados Unidos, Europa e Canadá e são usados aqui, sem quaisquer proteções e em grande quantidade, o que é bem preocupante", afirmou.


Mas ele não descarta que outras hipóteses possam estar provocando a doença, como, por exemplo, o uso excessivo de analgésicos, que pode danificar os rins, assim como o consumo excessivo de álcool. Ambos são fortes problemas na região.



Problema político


Na Nicarágua, a doença já se tornou um problema político.


Em 2006, o Banco Mundial (Bird) concedeu um empréstimo à segunda maior companhia açucareira do país para que ela construísse uma usina de etanol.


Trabalhadores rurais protestaram contra a construção, argumentando que as condições de trabalho promovidas pela empresa e o uso feito por ela de componentes químicos estavam contribuindo para a disseminação da epidemia. Eles afirmaram que o empréstimo violava as próprias regras do banco em relação a padrões de segurança para trabalhadores e práticas ambientais.


Por conta disso, o Bird aceitou financiar um estudo para tentar identificar as causas da epidemia. "As provas apontam para uma hipótese muito forte de que o estresse provocado pelo excesso de calor seja a causa desta doença", afirma Daniel Brooks, da Universidade de Boston, que está chefiando a pesquisa.


A equipe de Brooks descobriu ainda que não são apenas os trabalhadores agrícolas que estão adoecendo, mas que também há forte incidência de doenças renais entre mineiros e trabalhadores da zona portuária, que não estão expostos a componentes químicos. Mas o que os portadores da doença têm em comum é o fato de que eles trabalham longas horas sob um calor extremo.


"Dia após dia de trabalho manual em condições de forte calor, sem que haja uma renovação de fluidos, pode ter efeitos sobre os rins que não são tão óbvios à primeira vista, mas que, com o tempo, se acumulam ao ponto de contribuírem para que surjam doenças", afirma Brooks.


Ele acrescenta que "isso não havia sido mostrado até agora como uma causa possível para doenças renais crônicas. Portanto, estamos falando de um novo mecanismo que até hoje não havia sido descrito na literatura científica".



Resultados iniciais


Mas o pesquisador conta que resultados preliminares do estudo confirmam a hipótese dele. O grupo de pesquisadores testou amostras de sangue e urina de trabalhadores da indústria canavieira que realizam diferentes funções. Os cientistas encontraram mais traços de danos renais entre trabalhadores que realizam atividades físicas desgastantes debaixo do sol.


A professora Aurora Aragon, da Universidade Nacional da Nicarágua, em León, afirma que a visão defendida pelos pesquisadores faz sentido. Há muito ela suspeita que o problema é parcialmente causado pela forma com que os trabalhadores canavieiros são pagos — quanto mais cana eles cortam, mais eles recebem.


José Donald Cortez trabalhou na indústria canavieira por 18 anos e conta que trabalhar no campo fez com que ele regularmente ficasse enjoado e tonto e sofrendo com febres constantes.


Cortez atualmente sofre de doenças renais e comanda uma organização de trabalhadores da indústria canavieira na Nicarágua que ainda estão doentes. Ele está convencido de que há alguma coisa nas plantações de cana que causa a epidemia.


Sejam quais forem as causas, ele afirma, os doentes precisam ser tratados com diálise, que pode mantê-los vivos quando seus rins falham. Mas poucos têm acesso ao tratamento, porque a diálise é extremamente cara e raramente acessível na região.



Condições de trabalho


As empresas produtoras de açúcar afirmam não estar convencidas de que os produtos químicos ou as condições de trabalho em suas plantações possam ser culpadas pela epidemia. Mas ainda assim, dizem as companhias, elas estão tentando proteger a saúde de seus funcionários.


Um conglomerado que possui diversas plantações de açúcar na América Central, o Grupo Pellas, diz ter começado a dar intervalos de almoço de uma hora aos seus trabalhadores e que procura assegurar que seus funcionários estão bebendo uma quantidade suficiente de água. A companhia também promove exames regulares para avaliar as funções renais dos trabalhadores.


O porta-voz do Grupo Pellas, Ariel Granera, diz que quando se descobre que um trabalhador apresenta problemas renais, ele é dispensado, por conta de preocupações com seu bem-estar.


Mas os funcionários que adoeceram e que foram dispensados afirmam que o que eles recebem das empresas e da previdência social não é o suficiente para garantir seus sustentos. E dizem que, quando perdem seus empregos, perdem também o direito de ser tratados por médicos da companhia.


Em La Isla, muitos sabem dos riscos de se trabalhar na indústria canavieira, mas a região não oferece outros empregos e, como diz uma moradora, "não há outros meios de sustentar uma família".


* The World é uma co-produção de rádio do Serviço Mundial da BBC com a americana PRI e a emissora WGBH, de Boston. Esta reportagem foi produzida com a colaboração do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), um projeto do The Center for Public Integrity.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 13 de dezembro de 2011.



Sonia Maria Ferreira da Rocha** comenta


“Sustentar inalteráveis a fé e a confiança, sem temor, queixa ou revolta, sempre que enfermidades conhecidas ou inesperadas lhe visitem o corpo ou lhe assediem o lar. Sabendo que todo sofrimento orgânico é uma prova espiritual, dentro das leis cármicas, jamais recear a dor, mas aceitá-la e compreendê-la com desassombro e conformação.” (André Luiz, Conduta Espírita, psicografia: Waldo Vieira.)


Diante dos ensinamentos acima, podemos concluir que, pela nossa imperfeição, estamos sempre vulneráveis a qualquer tipo de doença. E que, por pior que possa parecer, são sempre em prol da nossa evolução espiritual, quando vividas com resignação e esperança num futuro melhor.


E continua André Luiz:


“Cada prova tem uma razão de ser.”


Por isso, não nos cabe o desequilíbrio perante a nossa enfermidade ou a de nossos entes queridos. Deve ser um desenvolvimento da nossa fé perante as Leis Divinas e a confiança de que Deus nunca nos abandona, principalmente nas horas mais difíceis. Reconhecemos a dificuldade de passar por essas horas de provação. Mas é nesse momento que nos cabe por em prática os ensinamentos da Doutrina Espírita: resignação, fé, confiança, esperança, paciência, amor e outros valores tão necessários ao nosso espírito para a nossa evolução.


"Oh! dor bendita, libertadora de escravos, discreta amiga dos orgulhosos, irmã dos santos, mensageira da verdade, tanto necessitamos do teu concurso, que se nos afiguras um anjo caído, a serviço da misericórdia para sustentarmos na luta redentora! Ensina-nos a descobrir a rota da humildade para avançarmos com acerto." (Joanna de Ângelis, Florações Evangélicas.)


No texto acima, vemos a exaltação da nossa irmã Joanna de Ângelis para aquilo que muitas vezes é motivo da nossa revolta e que nada mais é do que o remédio necessário para as rotas que desviamos no passado, para nos levantar e nos renovar das nossas intransigências, do nosso orgulho, da vaidade, da ambição e tantos outros desvios deletérios a nós mesmos.


A doença não é causa, e sim uma consequência proveniente das energias negativas que circulam por nossos organismos espiritual e material. Por isso, a importância da nossa vigilância através dos pensamentos e dos sentimentos para que possamos nos disciplinar mental e emocionalmente. Em Nos Domínios da Mediunidade, André Luiz explica que “assim como o corpo físico pode ingerir alimentos venenosos que lhe intoxicam os tecidos, também o organismo perispiritual absorve elementos que lhe degradam, com reflexos sobre as células materiais”.


Cabe a nós mantermos o equilíbrio e a constante vigilância para estarmos sempre sintonizados nas melhores vibrações possíveis, através dos bons pensamentos, das boas obras e, acima de tudo, em estado de prece para um futuro de paz interior.


Devemos sempre lutar ao máximo para buscar melhores condições de vida e de trabalho, mas quando isso não é possível, de imediato, assim como a dor, devemos aceitar a doença como meio de transformação para a verdadeira vida de felicidade.


** Sonia Maria Ferreira da Rocha reside em Angra dos Reis, RJ, estuda o Espiritismo há mais de 30 anos e é colaboradora regular do Espiritismo.net.