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"Os heróis e o cotidiano"

8 de março de 2012



"Os heróis e o cotidiano"



Luiz Fernando Sá, diretor editorial-adjunto


Diante da tragédia protagonizada pelo bufão Francesco Schettino, o capitão que conduziu o navio Costa Concórdia aos rochedos da ilha italiana de Giglio, um brado de sensatez fez-se ouvir pelos sete mares. “Vada a bordo, cazzo!”, ordenou, num diálogo telefônico incansavelmente reproduzido na semana passada, o comandante Gregorio de Falco, da Capitania dos Portos de Livorno, na esperança de fazer o homem que largou quatro mil vidas em um transatlântico adernado reassumir seu posto e liderar o resgate. Schettino, o covarde, preferiu a fuga. Falco, o imperativo, tornou-se um herói involuntário. E espantou-se com o súbito reconhecimento. Tão afirmativas quanto suas palavras foram as de Raffaella, sua mulher, rejeitando, em nome do marido, um lugar no panteão. “É preocupante que pessoas como meu marido, que simplesmente fazem o seu dever todos os dias, tornem-se imediatamente heróis neste país.”


Da Itália, o casal De Falco nos manda uma mensagem de simplicidade e retidão. Lembra-nos de que não devemos nos vangloriar de fazer aquilo que é nossa obrigação. E de que também é nosso dever exigir que cada um volte para sua nave e faça sua parte no resgate do nosso papel de cidadãos. Dos médicos do SUS, por exemplo, não se espera nada além de que estejam em seus postos e tratem os pacientes com dignidade. Dos agentes públicos, que executem suas tarefas sem o incentivo das propinas. Dos políticos eleitos, que atuem em nome de quem os elegeu. Se assim o fizerem, não há por que nos espantarmos. Espanto, como diz Raffaella, é chegarmos a ponto de tratar o correto como excepcional, como se a regra fosse prevaricar, omitir, corromper, não fazer. Se a mensagem dela e do marido for aplicada, aí, sim, devemos tratá-los como heróis.


Editorial publicado na Revista ISTOÉ, em 20 de janeiro de 2012.



Jorge Hessen* comenta


Fato, no mínimo excepcional, aconteceu recentemente, quando o capitão Francesco Schettino, comandante do navio Costa Concórdia, naufragado entre os rochedos da ilha de Giglio, na Itália, abandonou o transatlântico com quatro mil vidas a bordo. A intervenção imperativa do Capitão Gregorio de Falco, da Capitania dos Portos de Livorno – “Vada a bordo, cazzo!” – culminou por fazer de Falco um herói nacional e, certamente, deve estar acachapando a consciência do poltrão Schettino.


No entanto, de Falco cumpriu simplesmente o seu dever. Por isso, Raffaella, sua esposa, abdicou o título de “herói” do esposo. Para ela “é preocupante que pessoas como meu marido, que simplesmente fazem o seu dever todos os dias, tornem-se de súbito heróis neste país.”(1)


Não devemos reivindicar pedestais nos panteões terrenos por executarmos bem aquilo o que é nossa obrigação fazer. O que esperar dos médicos servidores dos hospitais públicos se não outra coisa que estejam em seus postos e tratem os pacientes com dignidade? Dos funcionários públicos, almeja-se que não abracem a corrupção nas suas funções. Dos senadores, deputados, vereadores, governadores, prefeitos, que trabalhem em nome da população.


Segundo estatísticas oficiais, o Brasil é um dos países campeões mundiais em corrupção, fazendo associação a determinados países africanos diminutos. Que tipo de cobiça descomedida e estúpida está na base da deficiência de caráter capaz de olvidar todos os escrúpulos para com a consciência e arremessar-se tão sagazmente no erário do Estado? Urge sacralizar o bem público, pois todos nós somos responsáveis por ele. Se assim o fizermos, não há por que nos alarmar. “Assombro, como diz Raffaella, é chegarmos a ponto de tratar o correto como excepcional, como se a regra fosse prevaricar, omitir, corromper, não fazer.”(2)


É urgente a invalidação do padrão da improbidade. É imperiosa a quebra de valores invertidos, com o banho de ética, com a recuperação da honestidade. Não só com os homens públicos, porque a corrupção é uma via de mão dupla. Quem se corrompe não se perverte sozinho, mas através de alguém. São caminhos que estão muito contaminados em todos os lugares, nos partidos políticos, na sociedade como um todo, que precisam, verdadeiramente, ser mexidos ou recuperados.


O calão "jeitinho brasileiro", ou levar vantagem a despeito de tudo e de todos, irrompe-se como um desígnio institucionalizado, que se potencializa e se generaliza no contexto da organização social. Não sou o primeiro, o único, ou o último a divulgar esse cortejo de vícios, contudo a mídia, frequentemente, anuncia e expõe tais fatos, francamente abomináveis e com grande repercussão negativa.


Com os escândalos divulgados pela imprensa, constata-se um entrelaçamento crescente e preocupante da administração pública com as atividades delituosas, mediante um sistêmico processo de pressões, chantagens, tráfico de influência, intimidações e corrupções, com a prática do suborno e da propina, dentre outras tramóias morais insonháveis.


Há decomposição moral na política, na polícia, na justiça, na administração pública, na educação, nas diversões públicas, na família, na economia, no âmbito do “Direito”, nos medicamentos, nos discursos/argumentos pseudocientíficos, nas instituições religiosas. Se quisermos viver um cenário social harmônico, devemos nos empenhar para promover uma reforma ética generalizada. É imprescindível a adoção de novos hábitos. Basta de procurar levar vantagem, de fugir dos próprios deveres! Vamos, definitivamente, dar um “chega prá lá” nas mentiras, nas fraudes e na sonegação fiscal. Que se restabeleçam os valores da Ética Cristã e que se revitalize o mundo da honestidade.


A violência urbana é reflexo natural dos que administram dos gabinetes luxuosos e desviam os valores que pertencem ao povo; a impunidade ensombra a Justiça e instiga novos desmandos. A massa, em geral, se espelha nos personagens eminentes da vida pública e procura, nas ressonâncias do comportamento destes, as próprias justificativas para seus deslizes deliberados.


Na condição de espíritas cristãos, sabemos que, para a concepção da "República da Ética Cristã", será necessária uma renovação mental e comportamental, já em curso por força das circunstâncias, mas que pode ser acelerada pela disseminação dos saberes que valorizam a honestidade, a dignidade da vida humana, a natureza e principalmente a nossa realidade espiritual.


Quanto aos pervertidos morais, só carecem inspirar nossa mais intensa comiseração. Certamente, não têm plena consciência do equívoco que cometem. Se soubessem das consequências, ainda que com grande chance de escapar da justiça terrena (obviamente não terão análogo fadário em analogia à Justiça Divina), agiriam de forma inversa. Até porque, invariavelmente, na atual ou na próxima encarnação, e notadamente no intervalo entre as existências físicas (erraticidade), enfrentarão as árduas consequências de seus atos delinquentes.



Referências:


(1) Disponível em http://www.istoe.com.br/assuntos/editorial/detalhe/187515_OS+HEROIS+ E+O+COTIDIANO>, acessado em 07/03/2012;


(2) Idem.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.