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Não deixe para 2013

2 de março de 2012



Não deixe para 2013



Adiar tarefas e protelar sonhos pode ser um problema psíquico. Saiba como identificá-lo e evitá-lo


Débora Rubin


Atire a primeira pedra quem nunca deixou para amanhã o que podia ser feito hoje. Ou para depois do Carnaval, para o segundo semestre, para o ano seguinte. Adiar as tarefas por minutos, as obrigações por semanas, as pendências pessoais por meses e a dieta e o exercício físico por anos é uma característica com a qual metade da humanidade se identifica. O problema é quando isso, o ato de procrastinar, se torna um ciclo vicioso e passa a trazer danos para o dia a dia. “Quem o faz de forma crônica tem seus afetos, trabalho e até a saúde prejudicados”, alerta o especialista em gestão de tempo Christian Barbosa, que está escrevendo um livro sobre o tema (que foi adiado por um bom tempo por pura falta de disposição). Saber por que se procrastina e como lidar com a enrolação para não chegar ao nível crítico é uma boa tarefa para tempos de listinhas de promessas de fim de ano. Principalmente no país do “deixa para depois”: um levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental apontou que 33% dos funcionários brasileiros gastam duas horas da jornada sem fazer nada de efetivo. E 52% admitiram deixar atividades necessárias para a última hora.


E, afinal, por que é que a gente é assim? O roteirista e consultor criativo André Czarnobai, 32 anos, não sabe ao certo. Mas sabe que sempre foi enrolado. Muito antes da internet, um dos principais fatores de distração ao lado da televisão, ele já dava um jeito de fazer tudo em cima da hora. Quanto tinha 10 anos, sempre parava qualquer tarefa para ir consultar um verbete na enciclopédia. Interrompia a leitura no meio e ia fazer um desenho. Voltava para o dever de casa e, pouco depois, já estava jogando video­game, assistindo à tevê ou brincando. Mais de 20 anos depois, pouca coisa mudou. E, embora afirme que não vê nada de útil em postergar seus trabalhos, diz que, como autônomo, mesmo deixando tudo para em cima do prazo, conseguiu um equilíbrio de vida graças à procrastinação. “Se enrolasse menos, faria muito mais coisas, mas também seria bem mais estressado”, acredita. Sua maneira preferida de adiar o trabalho, diz ele, é ler e responder e-mails “de forma nababesca”.


A psicóloga Camila Martiny, do Laboratório de Respiração e Pânico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta três típicos perfis de enrolador: o otimista, o impulsivo e o perfeccionista. O primeiro sempre acha que vai dar tempo de fazer tudo. E tende a se desesperar no final. O segundo só quer o prazer imediato e, por isso, deixa toda atividade chata para depois. E o último é aquele que nunca acha que o momento é o ideal para fazer a tarefa porque quer fazê-la com calma e da melhor maneira possível. Silvia Lira Ribeiro, 21 anos, se reconhece no último tipo. Ao contrário de Czarnobai, ela não deixa nada do trabalho para depois. Em compensação, as tarefas domésticas e os deveres da faculdade ficam sempre por último. “Gosto da casa muito limpa, quero fazer tudo com muito cuidado, aí acabo não fazendo nada”, lamenta-se a estudante de psicologia e atendente de telemarketing. É tanta roupa para passar, louça para lavar e banheiro para limpar que ela fica perdida e nem sabe por onde começar. E a casa vai ficando suja. A mesma coisa acontece com a faculdade. “Quero aprender tudo, ler cada texto e livro, mas me distraio fácil demais e nunca leio nada.”


Segundo Barbosa, falta de energia e, pasmem, medo do sucesso podem ser dois motivos ocultos no ato de adiar tarefas. Comer mal e levar uma vida sedentária tiram o ânimo para se empenhar nas atividades cotidianas. “Quem pratica mais esportes faz mais coisas e sempre no prazo”, diz o especialista, que entrevistou mais de seis mil pessoas para escrever seu livro. Já o medo do sucesso tem a ver com projetos grandiosos, com os sonhos. Barbosa cita como exemplo uma pessoa que quer montar uma empresa ou escrever um livro, mas que morre de preguiça só de pensar na trabalheira que vai dar, caso a ideia vingue.


Para uma minoria, postergar tarefas pode estar ocultando algo mais grave. Segundo Camila, quem nunca consegue cumprir prazos e está sempre atrasado em tudo pode ter alguma doença psíquica séria como depressão e transtorno de ansiedade. “Nesse caso, a ajuda de um profissional da saúde se faz urgente”, diz ela. Para os demais casos, incluindo Silvia e Czarnobai, pequenas atitudes já ajudam a organizar a rotina. A começar por levar mais a sério a listinha de promessas para 2012.


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 16 de dezembro de 2011.



Sergio Rodrigues* comenta


O tema é, ao mesmo tempo, interessante e bastante complexo. Entendemos que não se pode instituir um diagnóstico padrão para essa questão. E por um motivo muito simples: somos diferentes. Conforme a Doutrina Espírita nos ensina, como espíritos imortais em processo de evolução, embora muito próximos uns dos outros, estamos vivenciando momentos diferentes. Uns já se adiantaram mais num determinado atributo; outros estão atrasados neste atributo, mas já realizaram um progresso em outros. Portanto, com individualidades diferentes, as causas necessariamente também podem ser diversas. Aliás, como uma das profissionais ouvidas na matéria afirma, os motivos que levam à "enrolação" podem ser os mais variáveis. Aponta a psicóloga em questão três típos de perfis do enrolador: o otimista, o impulsivo e o perfeccionista. O primeiro é aquele que acha que tudo sempre vai dar certo e que é bobagem "esquentar a cabeça" antes da hora. Como nem sempre assim acontece, por vezes colhe um resultado negativo pela imprevidência. O classificado como impulsivo, que, na verdade, mais se identifica com o hedonismo, é aquele que só quer saber de "gozar a vida". Os problemas ficam sempre para depois, para serem resolvidos, se possível, pelo próprio tempo, que se encarregará de trazer a solução de que precisa. Tal o primeiro, quando desperta para a ação, já pode ser tarde e as consequências podem ser danosas. Já o último, aquele que se entrega à busca pela perfeição, dentre os três é o que reúne maiores chances de sucesso, pois, embora possa retardar o desfecho do caso, tem maiores possibilidades de adotar a tempo as providências que o problema requer.


Mas a coisa não é tão simples, como dissemos no início. É preciso considerar, também, que a vida moderna nos exige demais. A luta pela sobrevivência neste mundo competitivo e pouco solidário, muitas vezes, leva-nos a procrastinar uma decisão, uma ação ou uma tomada de posição, priorizando uma questão mais imediata. Por isso, não podemos generalizar, diagnosticando um problema psicológico nas pessoas dadas a essa "enrolação". A própria matéria sugere a possibilidade da existência de um problema psicológico como uma hipótese e não como uma causa única, aplicável em todas as situações. Dentro desse modelo de vida competitivo adotado pela sociedade atual, temos que estabelecer prioridades. Via de regra, não dá para atendermos a todos os assuntos que requisitam a nossa atenção com a mesma presteza. É preciso entender isto, para que não se considere uma "enrolação" psicopatológica sempre que adiamos por algum tempo determinadas atitudes ou resoluções. De todo modo, a matéria é válida e ajuda no despertamento para semelhantes situações, tão recorrentes na nossa existência.


* Sergio Rodrigues é espírita e colaborador do Espiritismo.Net.